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10/05/2018

Caráter Mineiro (Conto), de Afonso Celso



Caráter Mineiro

Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)
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CAPÍTULO 1


Grandes dificuldades deparava outrora ao governo de Minas Gerais a arrecadação das rendas públicas nas coletorias do sertão.

Não havia ainda estradas de ferro que se incumbissem de cobrar impostos de trânsito e consumo.

As enormes distâncias, os meios primitivos de transporte, a falta de recursos pelo caminho, tornavam sumamente árdua a remessa de somas avultadas por parte daquelas agências remotas para a tesouraria da capital.

Municípios há (Minas, não se ignora, excede a França em extensão) apartados de Ouro Preto centenas de léguas, e léguas de beiço, como lá chamam, isto é, sobrelevando de um apêndice as comuns.

Imaginai veredas aspérrimas, talhadas às vezes em matas espessas; constantemente morros a galgar e a descer; por única dormida, ranchos mal cobertos de sapê; rios sem pontes invadeáveis à menor chuva; atoleiros extensos, onde corre  gente o risco de se afogar em lama; carência absoluta de conforto; necessidade, não raro, de realizar a pé excursões que te prolongam por meses a fio; — e tereis aproximada ideia dos embaraços práticos para se fazer chegar, há anos, com segurança à repartição central as taxas fiscais apuradas nas aludidas localidades sertanejas.

Na impossibilidade de remeter as quantias pelo correio, pois os estafetas lutavam com os óbices indicados, nem lhe sendo dado igualmente servir-se de processos bancários, até então ali não usados, utilizava-se para aquele encargo o governo mineiro das praças do corpo de polícia provincial.

Dois ou três soldados de confiança recebiam a incumbência de percorrer as estações de certa zona longínqua, cobravam o dinheiro e voltavam com ele, depois de ausências de ordinário bastante longas.

Nunca se observou um desvio.

Mostra a estatística ser Minas Gerais uma das regiões do mundo, onde em mais diminuta escala se registram atentados contra a propriedade.

Delidos e delinquentes apontam-se lá, como em toda a parte.

Mata-se por ciúme, em razão de rixas ao jogo, honra de família, questões de terras, excessos alcoólicos nas festas populares.

Mas raríssimos os furtos e os roubos. Atestam o curioso fato os dados oficiais.

Possui uma companhia inglesa no arraial do Morro Velho, perto de Sabará, rica mina de ouro, de cuja exploração colhia ainda há pouco tempo resultados extraordinários.

Manipulado no lugar da extração, o precioso metal era, em seguida, remetido, em barras, no dorso de mulas até ao ponto terminal da estrada de ferro ou das diligências, e daí expedido ao Rio de Janeiro para a exportação.

A tropa que o conduzia, composta de meia dúzia de bestas, guiava-a um único tropeiro, auxiliado por um menino, avô e neto, dizia-se. A viagem durava dias.

Consoante a pontualidade britânica, efetuava a tropa o percurso em datas fixas, geralmente conhecidas.

E atravessava sítios totalmente despovoados, pousava em pontos isolados e certos, chegando sempre a seu destino na época previamente marcada, carregada de arrobas e arrobas de ouro.

Conheciam-na todos os viandantes com quem cruzava. Pelo número dos animais, calculavam precisamente a quantidade transportada, pois sabiam o que cada um podia levar. E, vendo desfilar tantas riquezas, murmuravam, como se consultassem uma folhinha:

— São tantos do mês. Aí vai a tropa do Morro Velho levando tanto de ouro...

O fato repetiu-se por lustros ininterruptamente.

Nunca sucedeu uma demora, um contratempo, um extravio.

Tomariam por doido quem externasse o receio de um assalto a mão armada.

Outro caso significativo:

Os viajantes do Serro e Diamantina para o Rio tornavam-se muito notados em Minas pelo modo como arreavam os seus animais, a boa qualidade destes e a rapidez com que caminhavam, acompanhados de pajens com libré, chapéu de oleado o copo do prata preso à corrente do mesmo metal que traziam a tiracolo.

Sabia-se também que aqueles viajantes eram sempre portadores de avultadas somas em brilhantes, ouro em pó ou trabalhado, numerário para encomendas etc.

No ano de 1860 ou 1861, subia um deles a serra de Ituverava por entre horrível tempestade, quando um raio, caindo sobre a comitiva, fulminou-o, a ele, um dos pajens e todos os animais.

O camarada, único sobrevivente, ficou desacordado.

Voltando a si, horas depois, largou a pé para Ouro Preto, não muito perto do local da catástrofe, chegando alta noite.

Ia dar parto às autoridades do ocorrido.

Só na tarde do dia seguinte compareceram no sítio do sinistro o juiz de ausentes, escrivão e policiais.

Junto aos dois cadáveres velavam pessoas miseráveis que residiam ou ranchos do sapo convizinhos.

Nas canastrinhas intactas encontrou-se para mais de mil contos de reis.

Nos bolsos do negociante as chaves das canastrinhas e grande quantia em papel; nas algibeiras do pajem dinheiro miúdo.

O morto, além disso, conservava no dedo magnífico anel de brilhantes, bem como os botões de camisa feitos da mesma pedra preciosa.

Como procurador fiscal, o pai de quem escreve estas linhas tomou conhecimento da arrecadação que a família declarou exatíssima.

Estes traços criaram merecida legenda em torno da probidade mineira.

Ilimitada a confiança que inspiravam ao antigo comércio da Corte os tropeiros de Minas, famosos pelos seus trajos e pela fidelidade com que solviam seus compromissos e levavam ao destinatário, sem a menor garantia material ou legal para o remetente, centenas de contos de réis.

Mas nenhum episódio dá do caráter mineiro ideia tão completa, como o que passo a narrar, episódio perfeitamente autêntico em todas as suas circunstâncias, salvo um ou outro pormenor alterado pela tradição.


CAPÍTULO 2

Sem embargo do referido quanto à segurança pública, assinalaram-se esse ano alguns fatos de depredação numa das mais afastadas comarcas de Minas Gerais.

Choças e fazendas haviam sido vítimas de saqueio.

Mais de um viajante fora trucidado em emboscada, para se lhe rapinar a bagagem.

Alarmou-se a população. As autoridades investigaram, e verificou-se tratar-se de cinco ou seis estrangeiros, que tinham formado uma quadrilha de salteadores.

Tomaram-se providências e os atentados cessaram. Mas nenhum dos bandidos caíra nas mãos da justiça.

Escondidos nos matos, onde difícil seria persegui-los, aguardavam naturalmente que arrefecesse o zelo policial para de novo entrarem em ação.

Em torno deles, arquitetou a imaginação popular uma lenda.

Cochichava-se que mantinham relações com cúmplices e protetores, habitantes de influentes povoações.

Haviam já decorrido meses depois do último delito, sem que a respectiva impressão se tivesse ainda esvaído, quando dois soldados e um cabo do corpo de polícia começaram a perlustrar a região infestada a coligir o produto de impostos antigos.

Três homens decididos e esforçados, escolhidos a dedo para a perigosa comissão.

Levavam consigo não pequena quantia. Viajavam a pé, bem armados, com as possíveis cautelas.

O dinheiro, conduzia-o o cabo num saco de couro, amarrado por meio de correias às costas.

No último ponto em que se detiveram, muita gente aconselhou-os a não prosseguirem sem reforço de companheiros e de armas.

Iam cortar comprido ermo mal afamado, — desfiladeiros sinistros.

Com a despreocupação e imprevidência habituais ao nosso povo a nada atenderam.

E partiram.

Partiram; e ninguém soube mais notícia deles.

Como não chegassem ao lugar a que se destinavam no prazo devido, começaram a circular boatos de que haviam sido atacados e mortos durante o trajeto.

Oito dias, quinze dias, um mês, dois, o nada de informações.

Avultou e tomou visos de veracidade a suspeita do crime.

A administração deliberou medidas extraordinárias para descobrir a verdade. Numerosas escoltas, coadjuvadas espontaneamente por bandos de particulares, percorreram em todos os sentidos a estrada pela qual os desaparecidos deveriam ter passado.

Organizou-se minucioso sistema de rigorosa pesquisa.

Afinal, após aturado esforço, orientados por uns corvos, encontraram num recôncavo da espessura, entre densa vegetação, dois cadáveres completamente putrefatos.

Difícil averiguar-lhes os traços. Entretanto, pelas roupas e vários sinais, convenceram-se de que um dos corpos era o do cabo e o segundo o de um dos soldados.

Sumira-se o terceiro.

Em roda, vestígios inequívocos denunciavam renhida luta. Pouco distante dos cadáveres achou-se dilacerado e vazio o saco de couro que continha o dinheiro.

Dias depois, toparam mais longe, no fundo de um precipício, com o outro corpo.

Irreconhecível este, de tão decomposto.

De tal feitio enlameada e consumida a roupa, que nenhum esclarecimento deparou.

Não havia dúvida: acometidos por uma horda de ladrões — os estrangeiros certamente, — superiores em número, as três praças tinham sucumbido no cumprimento do dever.

Uma delas, gravemente ferida, tentara fugir e expirara longe dos camaradas.

O dinheiro, cerca de cem contos, fora roubado.

A despeito das mais severas diligências empregadas para capturar os assassinos, nada se conseguiu.

O acontecimento produziu intensíssima sensação.

Mas, com o correr dispersador do tempo, apagou-se a pouco e pouco da memória pública.

Sucessos de maior monta preocupavam as atenções. Iniciara-se a guerra do Paraguai, exigindo do Brasil enormes sacrifícios de homens e de fortunas. O estrépito dos preparos bélicos abafava qualquer outro rumor.

Um ano depois, subsistia apenas dos três soldados massacrados duvidosa lembrança, como de um obscuro drama do passado, mais imaginário do que real.


CAPÍTULO 3

Já quase ninguém se recordava lucidamente do ocorrido, quando, certa manhã, apresentou-se no palácio do governo em Ouro Preto um homem sujo, aspecto selvagem, crestado do sol, o cabelo e a barba em triste estado.

Esse homem declarou à sentinela que queria falar sem demora ao presidente da província.

Recusou-se a princípio o alto funcionário; mas o desconhecido tanto insistiu, afirmando ter comunicações importantes a lhe fazer, que por fim foi admitido no gabinete oficial.

— Sou Manuel Cruz, praça de polícia, — murmurou achegando-se do administrador. — Cumprindo as ordens do meu falecido cabo, venho entregar em mão própria a vossa excelência os cem contos que arrecadamos no sertão.

Atônito, o presidente não compreendia.

— Explique-se, — exclamou com surpresa e mau humor.

Então o recém-chegado narrou com simplicidade a sua trágica e gloriosa história.

Era o terceiro dos soldados incumbidos da cobrança.

Ao entrarem na região deserta, onde o assalto dos bandidos podia ter lugar, dissera-lhe o cabo:

— “Todos sabem que o dinheiro vai comigo dentro do saco de couro. Pois tome lá você o cobre e esconda-o debaixo da roupa, eu fico com o saco vazio. Se formos atacados, eu e o camarada defenderemos com unhas e dentes o saco, para fingir que a soma aí está. Enquanto eles estiverem ocupados conosco, você trate de escapulir. Arranje as coisas de maneira a só entregar a chelpa ao presidente da província. A mais ninguém, olhe lá. E Deus o ajude.”

Realizou-se o que o cabo previra. Uma tarde, achavam-se arranchados por precaução em plena mata e preparavam a comida, quando foram agredidos pelos malfeitores.

Fizeram-lhes face o cabo e o companheiro com inaudito denodo. O estratagema do saco surtiu efeito. Sequiosos de se apoderarem desse saco, que os soldados defendiam ardentemente, não deram fé os agressores no portador da quantia, o qual, graças às trevas incipientes, conseguiu fugir.

Correra perigos indescritíveis, pois os assassinos, trucidados os outros e conhecido o embuste, saíram-lhe furiosos ao encalço.

Sem comer nem beber, passara dias e dias escondido em furnas, rastejando alta noite como um réptil, evitando as sendas batidas, com infinitos cuidados, curtindo incríveis privações.

Efetuara assim milagrosamente estupendo percurso. Mas cumprira à risca a ordem do seu cabo. Ali punha o maço de notas intacto. Quisesse o Sr. presidente ter a bondade de contar para verificar si estava certo.

O presidente quedara estupefato. Afinal inquiriu:

— Mas o terceiro cadáver que se achou? Bem se vê que não era o seu, como se assegurou.

— Era naturalmente o de um dos ladrões que nós baleamos logo no princípio da festa, — respondeu Manuel Cruz.

— E você sabia que o mundo inteiro supunha o dinheiro roubado e você morto?

— Desconfiava. Contava mesmo com essa crença para chegar até aqui, sem maior incômodo.

— Bem, concluiu o presidente, — você praticou uma bonita ação. Há de ser recompensado. E, voltando-se para o ordenança que da porta assistia à cena:

— Acompanhe este homem ao Tesouro Provincial para que ele deixe lá a quantia e se lhe passe recibo.

Aí o soldado agastou-se:

— Ora, excelentíssimo! — bradou. Pois eu andei duzentas léguas sozinho com o dinheiro e preciso agora de guia para ir ali a dois passos... Mande por outro que eu estou cansado e lá não vou. A ordem do meu cabo era entregá-lo a vossa excelência pessoalmente. Já o fiz. Se acha que o meu serviço vale alguma coisa, mande dar a minha baixa. Tenho mulher e filhos. Não os vejo há mais de 14 meses e eles pensam que eu morri. São muito pobres. Preciso trabalhar um pouco para a família. Passe vossa excelência muito bem.

E saiu desabridamente, batendo com a porta, depois de haver atirado os cem contos para cima de uma mesa.

Captain Smart (Conto), de Afonso Celso



Captain Smart

Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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Depois da formosa mulher do dentista americano, era, sem dúvida, o capitão canadense o mais interessante personagem de bordo.

Meses antes, ao que se dizia, naufragara entre as Bermudas o navio que ele comandava.
Perdera-se completamente a carga e sucumbira quase toda a tripulação.

Cabia a Captain Smart não pequena responsabilidade na catástrofe, — afirmavam a meia voz passageiros bem informados. E o fitavam rancorosamente de esguelha, quando passava carrancudo e hirto, o eterno cachimbo plantado no matagal dos bigodes ruivos, que lhe interceptavam a boca e se emaranhavam na barba, derramada em catadupa sobre o peito.

O infeliz comandante regressava à pátria, despojado pelo mar dos haveres e da reputação.

Antipatizavam todos com ele, no paquete em que viajávamos. Ninguém lhe dirigia a palavra. Chegavam a considerar de mau agouro a sua presença. Se algum acidente desagradável ocorresse durante a derrota, atribui-lo-iam com certeza à sua nefasta influição.

Penosíssimas deviam ser-lhe as monótonas horas da travessia. Levantado antes do alvorecer; forçado à inação; arredado dos companheiros; sem tomar parte nos jogos e diversões com que estes procuravam matar o tempo; desdenhando livros e jornais — arrastava os intermináveis dias a fumar, enterrado numa cadeira de lona, os pés apoiados à amurada, encarando insistentemente as ondas, — ou a caminhar pelo convés, de proa a popa, as mãos cruzadas nas costas, carregado o aspecto, no acabrunhamento de quem, ao peso de revoltante injúria, cogita em vão no como se desforçar.

Mas Captain Smart às vezes transfigurava-se.

No alto mar, importa acontecimento de monta o encontrar-se outro navio.

Mal desponta vulto indeciso no remoto horizonte, corre toda a gente ao ângulo mais propicio para avistá-lo.

Sacam-se os binóculos. Cada qual fórmula as suas observações e conjeturas.

Surdem, de ordinário, vivas discussões.

— É uma vapor; um iate à vela; vai para a Europa; regressa da África; um vaso de guerra; brigue de pesca; alemão; inglês; — opina-se com convicção e profusos argumentos.

Vistas privilegiadas dão aqui pormenores. Contestam-nos acolá. E durante largo período concentrara-se olhares e atenções na sombra longínqua, que ora cresce e se acentua, apresentando os contornos da embarcação, ora se apaga e dissolve, miragem etérea, na linha confinante da água e do céu.

Retina marítima, habituado a perscrutar os meandros da imensidade líquida, Captain Smart parecia adivinhar o barco iminente, ainda invisível para os mais.

A fisionomia expandia-se-lhe então. Apontava, soltando sons guturais, para um trecho perfeitamente liso e límpido da aquática planície. E mais tarde, não raro após longa demora, emergia efetivamente dali, e se aproximava, um lenho errante qualquer.

Enquanto o navio lobrigado se conservava em distância, ou afogado na bruma, dele não despegava os olhos o comandante náufrago. Acompanhava-lhe com solicitude os movimentos; dir-se-ia que lhe estudava cuidadosamente a manobra, absorto, seriamente empenhado na orientação do seu rumo.

Denunciava-se feliz nesse momento. Nos seus olhos ríspidos perpassavam suavizações. Defrontando um dia comigo, que o observava curioso, quase esboçou um sorriso.

À proporção, porém, que o barco se achegava, ia-se-lhe demudando a feição. Sonho querido parecia evolar-se de sua alma, onde entornara claridade fugaz. Ficava mais taciturno do que dantes. Agressivo e proceloso o seu ar.

Então, se o barco emparelhava com o nosso, ou cruzava o caminho deste, de modo que entre os dois peregrinos das vagas se trocavam sinais, Captain Smart traía mostras de inexplicável agastamento, virava as costas ao primeiro, calcava nervosamente o chapéu sobre a fronte, cerrava as pálpebras e se envolvia em bastas fumaças do cachimbo, aspiradas e expelidas com frenesi.

Naquele coração agreste, estuava evidentemente uma dor misteriosa e cruel, dessas de que se padece e se morre, sem que jamais o próprio paciente as possa bem compreender e explicar.

Despeito? Inveja? Remorso? Esperança? Quem o lograria dizer?!

Evocaria, como um fantasma, a imagem da nave confiada ao seu governo, de que a sua perícia era a alma e a defesa contra as perfídias do pego, nave galharda, cujos membros, por negligência sua talvez, à semelhança de um cadáver espostejado por uma fera, vogavam agora esparsos e despedaçados, à mercê das correntes e dos ventos?

Recearia divisar no tombadilho entrevisto a figura de algum camarada seu, escapo, como ele, ao desastre, e que, reconhecendo-o, o aniquilasse com um gesto de maldição?

Animá-lo-ia, porventura, a ilusão, cedo dissipada, de que tudo não houvesse sido senão um pesadelo horrível e de que o ponto pressentido na fímbria do horizonte se transformasse na embarcação morta, milagrosamente ressuscitada?

Revoltar-se-ia contra a iniquidade inflexível do oceano, ao aspecto de suas novas vítimas possíveis?

Comprazia-se-me o imaginar nestas presunções. Do fundo de meu ser subia uma corrente de dó para com o rebarbativo comandante.

Quisera conhecer e mitigar a sua mágoa íntima, lenir com a caridade da compaixão as lágrimas de fogo que percebia brotarem-lhe na alma sem o refrigério de vingarem extravasar-se-lhe pelos olhos ressequidos.

Captain Smart teve, suponho, a intuição dos meus sentimentos comiseradores.

No dia em que desembarcou, compreendi que hesitava em me falar e agradecer. Não se despediu, entretanto, de mim, como de ninguém. Lançou-me apenas um rápido olhar de humilde reconhecimento, enquanto no seu torvo aspecto relampejava amistosa expressão.

Jamais trocamos palavra. Separam-nos desconhecidos, indiferentes, tomando veredas opostas, à lei de heterogêneos destinos. Nossas existências coincidiram um segundo, em intersecção fortuita, e passaram, no turbilhão infinito da vida. Com quantas tragédias não topamos assim, quotidianamente? Nada resultará para nós ou para elas desse atrito? Significarão secretas afinidades os espontâneos e súbitos movimentos de um espírito na direção de outro? Reminiscências de relações anteriores à nossa atual organização corpórea? Pactos para ulteriores existências?!

Nunca mais, provavelmente, verei Captain Smart, neste planeta. Esvaiu-se decerto a minha figura na sua memória, como ora mim se extinguiria a dele si não me viesse a fantasia, numa noite triste, de fixar no meu livro de notas alguns traços do sou perfil.

Mas faz-me bem a lembrança do seu agradecido olhar.

Acabo de sentir, na consciência, ao recordá-lo, uma espécie de consoladora satisfação, semelhante à de quem houvesse piedosamente acendido em bravio e perigoso rochedo, batido de vagalhões desesperados, a luzinha de um pequenino farol.

9/28/2018

Morta?! (Conto), de Afonso Celso



Morta?!

Pesquisa, transcrição a adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)
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Há perto de 18 anos.

Entretanto, sempre que me acode à memória esse caso sobre o qual tantos anos e acontecimentos volveram, — esse caso tão vulgar na aparência e na realidade revestido de tamanho mistério, — experimento, ainda hoje, quase a mesma impressão do terror que nos alucinou, a meu companheiro e a mim, naquela formosa noite de luar.

Frequentávamos ambos em São Paulo o primeiro ano do curso jurídico.

Almas ingênuas e entusiásticas, esforçavamo-nos por parecer aos outros, como a nós próprios, desiludidos e céticos, zombeteando constantemente do mundo, numa ironia altaneira, — conforme a feição literária da época.

Escrevíamos crônicas e folhetins para um jornal político, estabelecido na rua principal da cidade, a da Imperatriz.

Comparecíamos todas as noites à sala da redação.

Na véspera dos dias feriados, livres da pressão de lições e sabatinas, demorávamo-nos até tarde, a rever provas e palestrar.

Numerosos conhecidos costumavam ali reunir-se para saber novidades, ou atraídos talvez pelo excelente chá que o redator-chefe, paulista de velha têmpera, generoso e fidalgo oferecia a todos os presentes, sem exceção.

Galhofeira e viva a conversação naquele sábado. Narrara cada qual a sua anedota. Ríramos a valer.

Soara, de há muito, meia-noite, quando partimos, alegres e bem dispostos, o espírito sereno, o corpo antegostando o aconchego dos leitos amigos.

Quem mais despreocupadamente feliz do que nos sentíamos?

Caminho de casa a rua de São Bento, — retilínea, terminando a extremidade para a qual nos dirigíamos na Academia, o velho convento de São Francisco, cujas torres irregulares destacavam pitorescamente à claridade da lua.

E que esplêndida lua, firme, nítida, permitindo avistar à distância os menores objetos, envolvendo os prédios, o horizonte, a perspectiva inteira, de fluida gaze opalina!

Silêncio completo! Só muito longe, apagado, o latido de um cão.

Os nossos passos iam despertando compridos ecos. Trepavam as nossas sombras pelas paredes, ou se estendiam, esguias e intermináveis, diante de nós, sobre a calçada.

Meu companheiro recitava estrofes amorosas, a meia voz; eu bocejava com sono.

Mas, de súbito, atrás de nós, ressoaram outras pisadas.

Voltamo-nos distraidamente, supondo fossem de um rondante.

A uns trinta metros, deparou-se-nos esbelta mulher, airosamente trajada de escuro, as mãos cruzadas sobre o peito, a cabeça e os ombros agasalhados em ampla mantilha.

Uma aventura, em nossa idade, àquela hora, sob a romântica luz sugestiva, não era para desprezar-se.

Paramos, agradavelmente surpreendidos.


CAPÍTULO 2

O vulto feminino foi-se aproximando de nós, sem hesitação.

Trazia, suponho, fivelas douradas nas botinas, que, a cada passo, feridas do luar, desfechavam pequenas chamas incisivas.

À medida, porém, que se ia achegando, nos assaltava, a meu colega a a mim, esquisito mal-estar, vago calafrio, pressentimento indistinto de perigo sobrenatural.

Somente mais tarde o reconhecemos, ao analisarmos detidamente as mútuas sensações durante o estranho episódio.

Por quê?!

Mui diversos sentimentos nos deveriam agitar ante o contato da desconhecida, moça e bela talvez.

A noturna transeunte só estacou ao esbarrar conosco.

Quedou-se então imóvel e impassível, como uma estátua.

Nosso mal-estar aumentou. Desordenados batiam-nos os corações.

Miramo-la: a mantilha encobria-lhe grande parte do rosto, mas, sob as franjas, rutilavam olhos singulares, de um fulgor fúnebre.

Muito pálida a porção das faces entrevista. Elegantes as formas. Impressionou-nos a lividez cadavérica das mãos finas, azulados os dedos, nervosamente entrelaçados sobre a protuberância graciosa dos seios.

Com entonação prazenteira, na qual se percebia baldado esforço para sopitar a comoção íntima, meu companheiro exclamou:

— Que faz tão tarde pela cidade deserta, gentil vagabunda? Eis aqui dois estudantes notáveis, futuras glórias da pátria, e de cuja carteira, por milagre dos deuses, ainda não se evaporou totalmente a mesada, que vão ter a subida honra e satisfação de a acompanhar. Para que lado, cara senhora, o rumo da sua vivenda? Se está fatigada, a carregaremos nos braços, sem lhe sentir o leve peso, de soberbos com carga tão mimosa, — na expressão de Shakespeare, Robespierre ou Dante, um dos quatro evangelistas, não me lembra qual. Foi Febo, sem dúvida, propícia aos amores, quem nos proporcionou o seu encontro encantador.

Ela não respondeu, nem fez um movimento.

À proporção que falava, a voz do interpelante tornava-se trêmula e aguda, como sob a influição crescente de intenso sobressalto.

Calou-se; e a mudez acabrunhadora da noite pesou sobre nós.

— Vamos, responda; — insistiu ele, a voz cada vez mais sibilante, — responda! Por que não responde?!

O mesmo silêncio, idêntica imobilidade acolheram a injunção.

Avultara insuportavelmente a nossa inquietação injustificada.

Tremíamos e suávamos aturdidos, como diante de fantástica e monstruosa visão.

Num ímpeto impaciente, travei o braço à misteriosa criatura, e sacudindo-o com força, gritei:

— Responda, por Deus! que significa isto? quem é você? que quer? fale... fale...

Oh! nunca mais conseguirei esquecer o olhar que ela nos dardejou, e o arrepio que me convulsionou todo, mal lhe toquei o corpo!

Só de o tentar descrever, após o longo período decorrido, faz-me a evocação oscilar a pena, e já dois borrões, como lágrimas negras, estrolejaram funestamente o papel.

Um simples olhar de súplica, repreensão, surpresa? quem sabe?!... Mas o fluido álgido que semelhante olhar vibrou, esse extraordinário fluido, não era, não podia ser humano. A morte, o ignoto, o segredo supremo das coisas e dos seres, o horror, não encontrariam manifestação mais desvairadora.

Fomos assoberbados de um desses pavores irresistíveis que afogam a razão, suplantam as mais fortes coragens e matam, não raro; — desses que mais de uma vez seria impossível sofrê-los na vida.

Os cabelos erriçados, disparamos a correr, enlouquecidos, soltando brados frenéticos.

Não sei como descemos a íngreme ladeira que nos separava ainda de nossa residência, nem como penetramos nesta, nem como, vestidos qual estávamos, sem sequer descalçar as botinas, nos metemos sob os cobertores das camas respectivas, enterrando a cabeça debaixo dos travesseiros...


CAPÍTULO 3

No dia imediato, depois de sonolência febril, despertamos, manhã alta, abatidos, como em seguida a grave enfermidade.

Não trocamos palavra sobre o incidente estupendo da véspera, que se nos afigurava hediondo pesadelo.

Semanas mais tarde, quis entabular conversação sobre o assunto. Meu companheiro confessou os transes anormais que suportara, análogos em tudo aos meus. Mas, quando eu quis explicar o fato, atribuindo-o a um fenômeno nervoso, puramente patológico, interrompeu-me, em tom sombrio:

— Não; não insistas; isso me causa mal e a ti também, digas o que disseres. É melhor mudarmos de questão. Aquilo foi uma dessas coisas insondáveis e incoercíveis de que a existência está cheia. E cumpre que o não contemos a ninguém. Rir-se-ão de nós, afirmando que nos achávamos bêbedos ou com início de doidice. Discrição absoluta. Sei que por aí corre a lenda de uma donzela morfética, de rica e nobre família, a quem consentem a estulta fantasia de passear sozinha a desoras para que se lhe não lobrigue a repugnante enfermidade. Porém é lenda... E não foi a morfética... não foi...  Aquele olhar... aquele eflúvio... aquele frio... Tratemos de outra matéria e esqueçamos o triste sucesso, que desabona assaz os nossos brios... Que diabo! dois homens no vigor da idade e da saúde, com fumaças de valentia, a correrem como cães covardes de uma frágil mulher que, afinal de contas, nada lhes fez!... Que vergonha!... Não falemos mais nisso...

E o meu amigo, — distinto e guapo rio-grandense, ao qual brilhantes futuros estariam reservados se tão prematuramente não o houvesse arrebatado cruel enfermidade, — bateu furioso com o pé no solo.

Com efeito, durante anos, guardámos silêncio.


CAPÍTULO 4

Muito mais tarde, em Paris, rua Saint André des Arts, numa livraria que vende exclusivamente obras de hipnotismo, força psíquica, teosofia, cabalagnose e ciências ocultas, conversava eu com um dos redatores da Iniciação, revista desses estudos, o lhe narrei o fato de São Paulo.

O homem ouviu-o sem surpresa, pediu pormenores, e, no fim, profundamente convencido:

— O Sr. e o seu camarada viram e tocaram simplesmente uma pessoa morta. Com um pouco de sangue frio, teriam dominado o primeiro movimento do aliás instintivo terror e desvendariam coisas interessantes. Talvez ela os quisesse encarregar de alguma sagrada missão.

Proferiu estas palavras com tamanha gravidade e firmeza que, malgrado meu, estremeci. Exigi explicações, mas o meu interlocutor atalhou:

— Entre para o nosso grêmio, dedique-se às nossas investigações e virá a saber com certeza quem era e o que pretendia a aparição de outrora. Poderá vê-la de novo e ouvi-la aqui mesmo em Paris. Se precisar de meu concurso, estou ao seu dispor. Apresentá-lo-ei a excelentes médiuns.

E despediu-se, deixando-me o seu cartão.

Iniciação na dor (Conto), de Afonso Celso


Iniciação na dor

Pesquisa, transcrição a adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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CAPÍTULO 1

Nascera de sete meses o Carlinhos. Incômodos graves sofridos pela mãe durante a gestação faziam acreditar que a criança não viria ao mundo com vida. Sábios doutores consultados o haviam predito. Nenhuma esperança restava. Aguardava- se parto perigoso ou difícil.

Imagine-se a alegria dos progenitores quando, após inesperado, rápido o felicíssimo sucesso, verificou-se que o pequerrucho respirava, em perfeitas condições de viabilidade!

E saíra um primorzinho... Pouco mais de palmo, feições acentuadas, traços finamente corretos, um verdadeiro mimo, deliciosa miniatura, sem as tumescências e rubores que de ordinário desfiguram os recém-nascidos.

— Genuína obra de arte, — comentavam todos, mirando-o embevecidos.

— Bem se vê que veio de Paris, — galhofeava o pai, aludindo ao fato de datar realmente da capital francesa, onde a família permanecera dois anos, a procriação.

Mas, que melindroso alento, que frágil vitalidade a do Carlinhos! Apagá-la-ia o mais tênue sopro. Mister se faziam cuidados incessantes, meticulosas precauções para entreter a flama sutil, prestes a sucumbir!

Três dias consecutivos conservou-se frio e quase imóvel o mísero corpinho.

Tão diminuto que lhe não serviram, por demasiado longas, as roupas do enxoval. Envolveram-no em pastas de algodão. Para o aquecer, parentas carinhosas metiam-no no seio. Gota a gota, delicadamente, pingava-se-lhe o leite nos lábios. Microscópico o seu vulto no berço, — como que visto pelo reverso de um binóculo.

Em breve, porém, adquiriu forças. Ambicionava viver aquele escorço de gente! Entrou a receber avidamente a alimentação. Se tardavam a trazer-lha, protestava com enérgicos resmungos.

Logo que se mostrou apto para mamar, ocupou-se toda a família em lhe procurar ama idônea, pois persistiam os achaques da mãe.

Depois de várias experiências malogradas, admitiu-se robusta rapariga, encomendada de Minas, — negra retinta, alta, nova, — de cujos brônzeos seios porejava alvo e espesso líquido, apetitosamente sadio.

O Carlinhos grudou a boquinha às providas pomas. Só à força o desprendiam. E pôs-se a engordar e a crescer de miraculoso feitio.

Ao cabo de um mês, não parecia o mesmo. Dir-se-ia que se dilatava um bocadinho em cada vez que sugava o nutriente licor.

Mas a ama, desaclimada no Rio de janeiro, caiu inopinadamente vítima da febre amarela. Secaram-se-lhe em poucas horas as secreções mamárias. Foi preciso separá-la de seu pequetito, designação que ela dava ao Carlinhos.

Sofreu este imensamente. Como que retrocedeu ao primitivo estado, minguando com assustadora rapidez. Inspirava intenso dó.

Tentou-se tudo para reparar o golpe: leite de vaca, de cabra, condensado, mingaus, peptonas, — nada! A criança se extinguia. O seu choro súplice cortava o coração.

— Outra ama e depressa, — prescreviam os médicos.

Outra ama. Mas onde encontrá-la nas condições requeridas? 

Como se sabe, o serviço de amas de leite acha-se pessimamente organizado no Rio. Não se submetem à menor regulamentação policial ou higiênica, conforme o observado em  todos os grandes centros populosos, as mulheres que a tal tarefa se dedicam.

Quem delas necessita vai às cegas, por vagos anúncios, baldo de informações ou garantias. Raro se lhe depara de momento alguma em boas circunstâncias. Exageradíssimos os salários pedidos. São, no geral, sujeitas inábeis, mal-educadas, exigentes, débeis, frequentemente com moléstias e vícios ocultos.

E exercem absoluta tirania nos lares onde pisam, caprichosas e insolentes, despedindo-se de súbito, abandonando os pobrezinhos que lhes foram confiados, sob fúteis pretextos, sem remorsos nem contemplação. Um horror! Ai! das mães fluminenses a quem a natureza privou do sublime encargo de criarem a prole.

Ei-lo, o pai do Carlinhos, guiado apenas pelos aluga-se dos jornais, à caça de quem lhe salvasse o filhinho. Manhãs e manhãs de peregrinações improfícuas... Visitou imundos cortiços. Viu tuberculosas e sifilíticas repugnantes propondo-se ao nobre mister. Dolorosa via-sacra! Nenhuma servia. E o Carlinhos depauperando-se a cada minuto... Urgia descobrir-lhe uma ama qualquer, custasse o que custasse, sob pena de matá-lo.

Afinal, sempre se obteve uma mulata, não muito moça, mas de aspecto simpático, maneiras agradáveis, — aceitável, em suma, provisoriamente ao menos, dada a pressão do caso.

O leite  dela, examinado por um facultativo, foi declarado assaz fraco. Com tratamento adequado havia de melhorar. Convinha, por isso mesmo, ao menino quase moribundo.

A Marcolina (era esse o seu nome) entrou imediatamente em funções.

O Carlinhos jazia inerte e exangue, as extremidades gélidas, no colo da mãe desolada.

A nova ama tomou-o, e encostou-lhe à boca lívida o bico do peito.

Ele descerrou surpreendido os olhos azuis, embaciados de névoa letal.

Hesitou um segundo; e, como a Marcolina espremesse o seio, decidiu-se a mamar, a princípio devagarinho, depois, a pouco e pouco, sofregamente, gulosamente.

A família inteira assistia ansiosa ao espetáculo. As maxilas do pequenino cessaram de mover-se. Supuseram-no adormecido de fartura e quiseram colocá-lo no berço.

Esperneou então furioso, disparando meia dúzia de valentes berros, como de há muito não soltava.

Perpassou pela casa um clarão de alegria. Lágrimas de júbilo assomaram aos olhos dos circunstantes, alguns dos quais bateram palmas.

O Carlinhos ressuscitava.


CAPÍTULO 2

Não era má rapariga a Marcolina, embora apresentasse em subido grau a negligência e a volubilidade dos mestiços.

Tinha uma filha quase moça, empregada numa fábrica de tecidos, e um filho de dez anos, para o qual foi forçoso arranjar colocação. Morrera o terceiro, colaço do Carlinhos.

Supinamente nervosa, sofrendo até, de quando em quando, ataques histéricos, a Marcolina revelava a sua baixa educação, mal a contrariavam na menor coisa, ou quando ingeria qualquer licor espirituoso.

Dava então para brigar, sendo penoso contê-la.

Sem embargo, os patrões a aturavam pacientemente, pois mostrava-se muito carinhosa com o menino, a quem o leite dela aproveitava em extremo.

Tonificada por abundante e saudável passadio, cercada de cuidados, a Marcolina engordara, em plena prosperidade física, e o Carlinhos a acompanhava. As dimensões deste haviam quase triplicado. Medrava de fazer gosto. Aos oito meses, entrou a engatinhar. Aos onze, sem incômodo notável, surgiu-lhe o primeiro dente.

E a sua figurinha loira e rosada, nédia como a dos arcanjos que se pintam aos pés da Virgem Santíssima, constituía,  rolando sob os móveis à guisa de raro animalzinho, o encanto, o júbilo, a ufania do lar.

Que infinitos beijos pregavam-lhe a cada hora! Ninguém o avistava que não corresse a abraçá-lo, afagar-lhe os cabelos, suspendê-lo no ar, dizendo-lhe coisas agradáveis e caridosas com adocicada voz.

O pequeno já ia compreendendo uma ou outra palavra. A ama, essa, pronunciava frases que ele manifestamente entendia.

Constituía grande divertimento da família, — reproduzido várias vezes ao dia, sempre com efeito hilariante igual, — mandar a Marcolina chamá-lo de longe:

— Vem cá, meu filho...  olha o mamá!

Ouvindo este convite, o Carlinhos desfechava gostosa risada e partia celeremente, apoiado nas mãos, arrastando uma das pernas, arrebitando impudicamente as polpudas regiões posteriores. Adoravelmente cômico, na verdade.

Íntima solidariedade fisiológica unia a ama ao amamentado. O modo de nutrição da primeira influía eficazmente sobre o segundo. Se aquela adoecia, este patenteava logo análoga indisposição. A Marcolina transmitia fielmente no leite ao Carlinhos todas as impressões de seu espírito: — regozijo, abatimento, mau-humor.

E a Marcolina curtia a espaços amargos desgostos.

Leviana e foliona a filha dela, empregada na fábrica. Inquietadoras as suas disposições precoces para perder-se.

Vivia a exigir dinheiro da mãe, azoinando-a de intrigas, determinando contendas na estalagem onde morava.

Já se sabia: — em recebendo notícias desta, passava a ama horas e horas amuada, recusando comer, chorando em muitas ocasiões. Essas crises repercutiam na criança, que acusava de pronto sinais de padecimento.

De uma feita, havendo obtido permissão para visitar a prole, demorou-se tanto a Marcolina que, aflitíssima, a família do Carlinhos supôs que ela não regressasse mais.

Durante a sua ausência, o menino levou a soluçar o tempo todo, sem que nada o distraísse ou consolasse.

A mãe dele ponderava prudentemente:

— É preciso ir habituando este sujeitinho a tomar alguma coisa além do leite, pois a ama pode faltar quando menos se esperar. E seria agora grave perigo, porque não tardam as presas, a fase mais melindrosa da dentição.

Mas, qual! Não havia meio de obrigar o Carlinhos a variar o seu regime alimentício. Repugnavam-lhe os mais engenhosos acepipes, para ele adrede elaborados. Só entreabria as intransigentes gengivas perante o bico do peito da Marcolina.

A muito custo, sorvia, a longos intervalos, alguns golos d'água. E água era também a única palavra que balbuciava, a seu jeito.

Auá... auá proferia.

Todos achavam estupenda graça no vocábulo dessa maneira articulado.

Forçavam o Carlinhos, por meio de mil insinuações ardilosas, a solicitar frequentemente o líquido, no exclusivo intuito de escutar a engraçada assonância emitida pela vozinha infantil.

Diante de visitas, sobretudo, exigiam que repetisse amiúde: auá...  auá...

Nem sempre ele a isso se prestava. Mas, quando o fazia, que ares de triunfo! Acolhiam a coisa como irrecusável manifestação de excepcionais habilidades.


CAPÍTULO 3

O Carlinhos completara um ano. Viçoso e lindo, persistia na relutância a qualquer outra espécie nutritiva que não o leite da Marcolina. Cada vez mais agarrado a esta. Abria em temível berreiro apenas ela se afastava.

A família passava então a quadra calmosa em aprazível cidade de Minas, distante do Rio de Janeiro.

Uma tarde a ama recebeu carta dos filhos. Como de ordinário, tornou-se taciturna e agitada ao lê-la. Não quis jantar. Levou a suspirar a noite inteira.

Pela manhã, participou resolutamente aos donos da casa que se retirava para o Rio e não mais tornaria. Tomaria o primeiro trem, daí a poucas horas.

— Como assim?! — retrucaram eles surpreendidos. — Pois você abandona o Carlinhos?

— Que remédio... respondeu. Deus sabe quanto sinto, mas sou obrigada a isso. Os meus filhos precisam de mim e me chamam. Não posso deixar de ir...

— E o Carlinhos?!

— Está criado e forte. Os senhores dispõem de recursos. Hão de arranjar as coisas muito bem. Os meus filhos, coitados, não possuem senão a minha pessoa no mundo...  Preciso estar ao lado deles. Tenham paciência.

— Mas isto não se faz... é uma crueldade

— Coloquem-se em meu lugar. Se um filho desgraçado dos senhores os chamasse para o socorrer, haveria pretexto que os prendesse? Iriam logo, sem hesitar, houvesse o que houvesse, como eu vou.

Percebia-se que a Marcolina padecia no conflito entre o afeto pelos filhos verdadeiros e a responsabilidade por assim deixar abruptamente o de adoção. Inabalável, porém, a sua deliberação de partir. Promessas, súplicas, ameaças, argumentos insistentes de toda casta, — nada a demoveu. Aprontou a viagem, a despeito dos desesperados esforços para a reter.

Meia hora antes do trem, tomou o Carlinhos, que brincava, descuidoso da desgraça iminente, obrigando-o a esvaziar-lhe os seios túmidos. O menino mamou copiosamente; e, enquanto sugava, lágrimas silenciosas da ama, molhavam-lhe o cabelo e as faces.

Quando o viu saciado e adormecido, colocou-o ligeiramente no berço, deu-lhe um beijo, e saiu a correr, mal se despedindo da família indignada.

Pouco depois, a locomotiva a arrastava vertiginosamente na direção da capital.

O Carlinhos dormia tranquilo. Que sucederia quando despertasse?...  Tão rápido e inesperado ocorrera o caso que desorientara os pais e parentes da criança, não se lhes antolhando providência alguma para obviar ao contratempo. Acreditavam, até ao derradeiro instante, que a Marcolina se arrependeria.

Mas agora a desagradável realidade se impunha. A frágil vítima não tardaria a acordar... Que desespero o do pobrezinho não vendo a ama a seu lado, como costumava! E se adoecesse de sentimento, — ele cujos primeiros meses haviam sido assinalados por custosas disputas contra a morte! Como forçá-lo a comer? Não arruinaria o seu delicado estômago tão brusca e radical mudança de sistema?

Seguramente não resistiria. Pelo menos que angustiosos trances, durante algum tempo, para ele e os pais...

Consternados e aflitos, agruparam-se todos de casa em torno do berço, vigiando o sono do abandonado.

Confabulava-se em voz baixa, combinando planos para amortecer o golpe.

Cada qual sugeria um alvitre. Se o dormente se movia, aproximavam-se solícitos, sustendo a respiração para lhe não interromper o repouso.

Respirava-se atmosfera pesada de infortúnio e apreensões.

E era uma chuva de invectivas contra a Marcolina.

— Ingrata, desalmada, perversa...  Havia de pagar murmuravam.

— Eu não dizia... eu não dizia... exclamava, entre comovida e triunfante, certa matrona que sempre antipatizara com a ama.

A mãe do Carlinhos acendera velas bentas no oratório, fazendo uma promessa à milagrosa Nossa Senhora da Penha para que o filhinho atravessasse incólume aquela conjuntura.


CAPÍTULO 4

Quando, depois de demorado descanso, o Carlinhos abriu os olhos, de tal maneira o distraíram e amimaram que ele, a princípio, não pareceu dar tento na ausência da ama.

No meio dos brinquedos com que o aturdiam, choramingava a espaços, derramando olhares desconfiados em derredor. Mas logo o chamavam e iludiam, conseguindo por astuciosos processos ilaquear-lhe a atenção.

Ganharam-se assim duas horas, cheias de sobressaltos e ansiedades.

Longo tempo havia que ele não mamava. Devia sentir fome. Próxima estava a explosão.

De súbito, o menino atirou-se para traz, inteiriçado, soltando gritos estrídulos.

Rompeu a tormenta. O Carlinhos debatia-se possesso, estrebuchando, em alucinadas contorções. Difícil o segurá-lo para não cair. Atordoavam a casa inteira os seus brados contínuos e agudíssimos, reboando no frenesi supremo da desesperação.

Acorreram o pai, a mãe, os parentes, os criados, que, debalde, em roda dele exortavam e suplicavam:

— Carlinhos... Carlinhos... seu Carlinhos... Sossega... olha isto... olha aquilo... Quer ver o gato? Quer passear comigo?! Vem cá. Não chore... Que feio!... Deseja Fulano?... Sicrano?!

E cantavam, assobiavam, pulavam, dançavam, punham-se de cócoras, apresentando-lhe com momices as teteias de que ele gostava.

Qual! A criança não se acalmava.

Recorreram à intimidação. O pai cominou palmadas e teve de retirar-se irritado diante das revoltadas repulsas que a cruel lembrança suscitou. Houve troca de palavras azedas e recriminações entre os presentes.

Falou-se em velhas horrendas, tutus, bichos maus que devoram os pequenos manhosos. Uma criada foi bater às escondidas na porta da entrada, a pronunciar o nome do gritador, engrossando ameaçadoramente a voz.

Igual resultado, negativo em todas as tentativas amansadoras.

A exasperação do Carlinhos atingiu o auge no momento em que lhe achegaram aos lábios o bico de borracha de uma mamadeira.

Repeliu-o violentamente, elevando de modo tão descomunal a intensidade dos bramidos que enrouqueceu de todo.

Mesmo assim não serenou. Do peito arquejante, saía-lhe uma soada áspera, análoga ao estertor dos moribundos, que abalava as fibras mais doridas da compaixão. Os circunstantes choravam.

Por fim, fatigadíssimo e exausto, o coitado adormeceu. Sono, porém, agitado, — antes mórbida letargia, sacudida de estremeções veementes e compridos soluços.

— Está passado o pior, — consolavam algumas pessoas. Acordando, a fome apertará e há de tomar leite. Mais um pouco de paciência e fica-se livre da infame Marcolina.

Ei-lo que desperta, pedindo auá. Oferecem-lhe imediatamente um copo. Rejeita-o colérico e recomeça a gritar.

Mas presentemente às frementes vibrações raivosas sucederam lamentações tristíssimas. O vigoroso protesto transformou-se em imploração angustiosa e humilde. Lamúria em lugar de energia. Miserando queixume de desanimado que renúncia a lutar.

Repetia baixinho: — auá... auá... Mostravam-lhe o líquido e ele o refusava magoadamente.

— É auá... explicavam. É auá, meu anjo... Bebe...

E provavam para que ele se convencesse.

Auá... auá... continuava a clamar, cada vez mais pungitivamente, arredando a cabeça.

Valeram-se de novo de jogos e micagens. Trouxeram os objetos de sua predileção. Confiaram-lhe relógios, bibelôs preciosos, livros de estampas, nos quais de comum lhe era proibido tocar, outorgando-lhe ilimitadas concessões.

Mas, insensível, repisando a solicitação de auá, numa melopeia confrangedora, o martirzinho não cessava de carpir-se. Um suplício!

Achavam-lho febre.

— Convém mandar chamar um médico, — opinava uma tia.

Recordaram-se de que residia na vizinhança uma preta recentemente partejada. Acedeu esta em comparecer sem detença logo que lhe expuseram o fato, mas a angústia do Carlinhos redobrou avistando-lhe o seio luzidio.

Que fazer?!

O pranto da mãe já corria em proporções equivalentes ao do filhinho.

O pai propunha soluções decisivas: — agarrá-lo à força e despejar-lhe o leite às colheres pela goela. Impetrava, contudo, adiamento ou fugia penalizado só a ideia merecia aprovação ou ensaiavam executá-la.

Anoitecera. O jantar esfriava na mesa posta. Absorvidos pela aflição do Carlinhos, não se lembravam de comer. Fúnebres as fisionomias; raras o desalentadas as falas.

Ao se acenderem as primeiras luzes, o pequeno, sempre a interceder água, a sou modo, e acusando inalterável grau do sofrimento, desprendeu-se do colo onde o agasalhavam e revelou desejos de andar. Deixaram-no solto no assoalho. E foi uma cena tocantíssima.

Descalço, os cabelos loiros empastados de lágrimas, a fina camisola dilacerada, as mãozinhas trêmulas, o Carlinhos, com seu passo mal seguro, cambaleando, levando tombos constantes e não permitindo que o ajudassem a levantar-se, pôs-se a percorrer o prédio todo, do salão à cozinha, olhando debaixo das camas, pesquisando os cantos, exigindo que lhe escancarassem gavetas, portas e armários.

E, num apelo desvairado, apostrofava:

Auá... auá... auá...

Compreendeu-se então o que ele intentava significar. O seu vocabulário resumia-se naquela única expressão. Concretizava-se nela a sua imensa dor. Auá era o chamamento pela Marcolina fugitiva; era o leite dela que lhe haviam desapiedadamente roubado. Ele agora procurava a ama por si próprio, esperançado de a descobrir pessoalmente, já que os mais velhos, inflexíveis e desumanos, não lha queriam trazer.

Verdadeiramente trágica a busca improfícua do inocentinho, com a sua invocação lancinante, que pouco e pouco se foi debilitando até mudar-se em murmúrio imperceptível e crudelíssimo.

Afinar, prostrou-se exânime junto à cadeira de balanço, em que a Marcolina costumava acalentá-lo.

Introduziram-lhe entre as gengivas a ponta da mamadeira. Vencido, inconsciente, os olhos fechados, ele submeteu-se ao irremediável, e entrou a chupar, parando de momento a momento para expelir retardatários soluços.


CAPÍTULO 5

No dia seguinte, após uma noite regular, o Carlinhos abatido, mas consolado, aceitou sem esforço a mamadeira e estreou-se mesmo, mais tarde, na ingestão de uma ligeira sopa.

Depressa esqueceu a ama, por quem nenhuma saudade manifestou.

Estava subjugado. Recebera o batismo do sofrimento; iniciara-se na dor.

Desenvolveu-se, cresceu sem maior incômodo. Conta hoje três anos florescentes.

Que de angústias, surpresas, traições, perfídias, abandonos não lhe estarão reservados na senda encetada pela maneira descrita?

Quantas mulheres ainda o farão padecer, aliás por justificado motivo, como a Marcolina?!

Nesses transes inevitáveis reside a essência da vida E oxalá, meu filho (pois o Carlinhos é meu filho como o leitor decerto adivinhou pela comoção desordenada que palpita nestas confidências) — oxalá, meu filho, sejam-te todas as provações vindouras semelhantes àquela primeira.

Permita Deus que as experimentes no seio de solícita família que tas minore, compartindo-as, e depressa se apaguem sem deixar vestígios e consequências.

Pois algumas há (oh! nunca as conheças), algumas há, meu filho, que jamais passam, envenenando para sempre de infinita amargura os nossos míseros corações...