sábado, 15 de setembro de 2018

Luís Delfino: do Romantismo ao Simbolismo (Crítica)



Luís Delfino: do Romantismo ao Simbolismo
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)
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OS VERSOS DE LUÍS DELFINO RESUMEM TODAS AS FASES DE NOSSA POESIA

A obra de Luís Delfino permaneceu, durante muito tempo, esparsa em jornais e revistas. E este fato deu margem a que, em mais de uma ocasião, não fosse feita a justiça devida ao ilustre poeta catarinense. Em 1896, ao fundar- se a Academia Brasileira de Letras, verificou-se mesmo um episódio curioso. Sendo um dos primeiros nomes apresentados para pertencer ao novo cenáculo, o cantor de A Filha da África deixou de sentar-se “sur la coupole”, por não ter, ainda, um único livro publicado. Como se a simples impressão de um volume pudesse valer mais do que a consagração da crítica e do público.
Hoje, porém, já devemos ao zelo filial de Tomás Delfino a publicação de uma grande parte da obra variada e extensa do autor de Algas e Musgos. E não existem mais lugar para erros e equívocos. Luís Delfino pode ser apontado, sem favor, como um dos maiores poetas do Brasil. A pujança do pensamento, a opulência da imaginação e o colorido da linguagem caracterizam os seus versos, que resumem todas as fases da nossa poesia. Sempre requintada, a sua arte abrange as diversas escolas, do romantismo ao simbolismo, passando por um período semicondoreiro.
Dividida em duas ou três etapas, dentro do espírito das escolas poéticas, a obra de Luís Delfino tem, como constante característica, o vigor da expressão e o poder verbal, que sobrepuja qualquer tema, qualquer conceito, qualquer sentimento. Trata-se, no justo reparo de um crítico, de um verdadeiro desperdício de palavras, brotadas magicamente, com um brilho e uma magnificência extraordinárias. Os vocábulos ressoavam, em rimas sonoras, fixando imagens de uma quente musicalidade, de um sensualismo transbordante. Vemos, nos seus versos, o espírito das largas epopeias, como cavalgatar de amazonas belicosas. A sua lira extravasa estranhas ressonâncias, em um milagre de som e de luz, que lembra Victor Hugo e Guerra Junqueira.
Luís Delfino nasceu, a 25 de setembro de 1834, na antiga Desterro. E, depois de cursar o Colégio dos Jesuítas, na antiga capital catarinense, transferiu-se aos dezessete anos para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de humanidades. Entrou, então, para a Academia de Medicina, doutorando-se em 1857. No mesmo ano, abriu consultório, exercendo a clínica, apaixonadamente, até ao fim da vida.
A atividade de Luís Delfino, como médico, prejudicou, de certo modo, a sua obra de poeta. As horas dispensadas ao trabalho literário foram sempre, ao longo dos anos, cada vez mais reduzidas pelas obrigações do clínico humanitário e estudioso. E, assim, o cantor de Angústia do Infinito quase não dispunha de tempo para polir os seus versos. Diz- se mesmo que os seus sonetos eram feitos entre urna consulta e outra, ou, de preferência, nos tílburis, nos percursos das viagens para ir visitar os doentes.
Não foi, entretanto, somente a medicina que distraiu as atenções do poeta. Luís Delfino mostrou-se, também, um apaixonado da política, aspirando desde a mocidade um lugar no Parlamento. Até que, quando da proclamação da República, viu os seus sonhos se concretizarem. Santa Catarina mandou à Constituinte, na qualidade de senador, o seu grande filho, que definia a liberdade como “a luz que deve guiar na senda do progresso a sociedade moderna”.
A poesia nacional tem em Luís Delfino uma das suas mais altas expressões. E não deixa de ser interessante observarmos, antes do ponto final, que o voluptuoso panteísta não separava a mulher da natureza. Aliás, Agripino Grieco já analisou, com muita argúcia, este aspecto da produção do mestre de Arcos de Triunfo. A ninfa estava, para ele, dentro da casca da árvore e a espumas constituíam o claro riso das oceânides. Todas as suas visões da terra, do ar e do mar contavam com a presença feminina, que enfeita os seus versos de amor e de ternura.
Revista "Vamos Ler",
15 de outubro de 1942.

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