sábado, 15 de setembro de 2018

Luiz Delfino, o grande poeta



Luiz Delfino, o grande poeta

Luís Delfino, o grande poeta, gostava de recitar os seus versos, mas quando o recitava em grupo de que faziam parte pessoas estranhas, interrompia, muita vez, a recitação.
Justificando-se depois, explicava aos amigos a sua conduta, contando o seguinte caso:
— Um dia, por ocasião de uma festa dada por meu filho, apareceu em nossa casa um jovem de quem recebi as mais tocantes provas de admiração. Recitei-lhe um dos meus melhores sonetos. Meia hora depois, estando eu no salão, a ver as danças, o moço pediu: — Mestre, peço-lhe a fineza de recitar de novo o belo soneto. Recitei-o. Instantes depois, na copa, o moço veio e, carinhoso, pediu: — Mestre, o belo soneto. Eu, agradecido, repeti. Minutos depois, na sala da música, reapareceu o moço, pedindo: — Mestre, o belo soneto. Eu, comovido, recitava. E assim, perto da noite, até o raiar da aurora, o moço, pálido de admiração, repetia o pedido: — Mestre, o belo soneto! e eu, estonteado de incenso, repetia o soneto. O moço pediu quinze vezes, eu recitei quinze vezes. Acabou a feita. Debandaram os convidados. Foi-se embora o moço. Eu, lisonjeado por essa pertinaz admiração, contei o caso ao meu filho e o meu filho, desconfiado, exclamou: quinze vezes o mesmo soneto? Que admirador esquisito! O meu filho tinha mais do que razão. Aquele admirador não era só esquisito: era também ladrão. Sim, ladrão! porque, alguns dias de pois da festa, abrindo um jornal, vi o meu belo soneto assinado por outro.
Revista "Careta",
1 de fevereiro de 1919.

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