sábado, 15 de setembro de 2018

Luís Delfino, o mais fecundo poeta brasileiro



Luís Delfino, o mais fecundo poeta brasileiro

Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)
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Tomás dos Santos era um português nascido em Alcobaça, distrito de Leiria. Tinha gênio impulsivo e aventureiro, capaz das maiores audácias sem que o temor do perigo lhe arrefecesse o ânimo exaltado.

Órfão de pai muito cedo, algum tempo depois sua mãe casou-se dando-lhe, assim, um padrasto com quem não simpatizou desde os primeiros dias. Considerava-o, mesmo, como um intruso. Mas, forçado pela menoridade, sem poder dispor de si mesmo, o rapazinho foi vivendo junto do novo casal. Isso, contudo, não impediu que ele guardasse, em relação ao marido de sua mãe, uma certa reserva. Mostrava-se silencioso e esse era um meio de atestar a sua hostilidade.
O que decidiu, no entanto, Tomás dos Santos a abandonar a casa aos dezoito anos foi o fato de ter, certo dia, o padrasto tentado agredir sua mãe após violenta altercação por motivos íntimos. A cena passou-se na sala de jantar na presença de Tomás. O amor filial, aliado à ojeriza que alimentava pelo padrasto, despertou em Tomás aquele gênio impulsivo que a custo conseguira dominar até então. E, segurando fortemente um garfo que estava sobre a mesa, na ânsia incontida de proteger a fragilidade de sua mãe, atirou-o à guisa de punhal contra o agressor. Com tanta força o fez e com tal perícia, que o cravou fundo na porta, poucos centímetros acima da cabeça do padrasto.
Interpelado por sua progenitora por que fizera aquilo, justificou-se como lhe ditou a consciência:
— Então havia eu de deixar que um bruto batesse em minha mãe?
— Nada tens a ver com a minha vida. Além de teres atentado contra a vida de meu marido, és uma criança e não entendes dessas coisas.
Tomás dos Santos magoou-se com a repreensão. E sentiu que estava sendo demais em casa.
Criança ainda, com o espírito de independência em plena maturidade, embarcou para a China como ajudante em um cargueiro. Iniciou a sua vida aventureira percorrendo mares e terras. Viajou muito, correu atrás da vida procurando-a por toda a parte, inclusive no Indostão. Durante algum tempo foi guardião de navio e mais tarde mudou-se para o Brasil onde tomou conta de uma fazenda no Norte. Na época da Independência residia no Rio Grande do Sul.
Cansado desse nomadismo que a vida lhe impusera, Tomás dos Santos resolveu casar-se. No seu caminho surgiu uma mulher que mexeu com a sua alma de lusitano errante. E Delfina não hesitou em ligar o seu destino a esse homem que vinha de outras bandas, calejado pelas agruras do mundo. Construíram um lar na cidade de Desterro (hoje Florianópolis), numa casinha humilde da Rua Augusta, atualmente João Pinto. Pouco depois um pimpolho veio encher de sorrisos a vida pacata e tranquila do casal. Era o dia 25 de agosto de 1834. Nascera Luís Delfino, aquele que mais tarde seria o grande poeta, o maior lírico do Brasil e autor de 3.000 belíssimos sonetos.
A princípio franzino e doente, o garoto vingou sob o desvelo materno. A sua vida de criança, pelo que pude apurar, nada tem de extraordinário. Igual a de todas as crianças de seu tempo, sem desfrutar de muitos recursos pecuniários, Luís cresceu sob os olhares austeros do pai e a branda solicitude de dona Delfina.
Entrou para o colégio dos jesuítas onde tirou o curso de humanidades. Aos dezessete anos já sentia os primeiros influxos da poesia a borbulhar-se dentro d’alma e que mais tarde, num crescendo vertiginoso, iriam explodir em jatos ferventes com a impetuosidade de um “gêiser”. Aliás, por informação direta de parente seu, soube que Luís compôs a sua primeira poesia aos oito anos. Não tive, no entanto a fortuna de a ler. Creio que se perdeu.
Acanhado ao extremo, com um buço a despontar sob as narinas largas e sensuais, o pescoço metido dentro de um colarinho alto e uma gravata de borboleta, Luís Delfino aportou ao Rio em 1851 para estudar medicina.
Como acadêmico fez um curso brilhante e como poeta salientou-se entre os colegas. Temperamento talvez um tanto recalcado por influência de sua formação jesuítica e nos ardores da mocidade, Luís fazia versos de sabor bocagiano então em voga entre a juventude acadêmica. Não os publicou, porém. Estão ainda hoje trancados em um cofre em casa de seu filho, o Sr. Tomás Delfino, que com tanto carinho vem divulgando a sua obra.
O feitio moral de seu pai ele traçou com mestria e delicadeza num célebre soneto — Ubis natus sum:
....................................................................
Meu pai foi sempre a honra em forma humana,
Tinha a virtude máscula e romana
Não era austero só, era feroz.
Trabalhava incessante, noite e dia.
Como um leão seu antro defendia,
E era uma pomba para todos nós...
Delfino não escolhia momentos nem precisava de excitantes para poetar. As musas assaltavam-no, mesmo, durante o trabalho clínico, no seu consultório. E ele escrevia sonetos no bloco de receituário, às vezes, com o cliente ali perto, que o julgava formulando alguma droga para seus males... Outras vezes escrevia versos nas costas dos envelopes e das cartas que recebia. E em versos passava repreensão nos filhos. A maioria dessas produções, feita assim “sobre a perna”, perdeu-se de mistura com papéis inúteis no seu consultório. Perdas lastimáveis essas que poderiam nos contar muita coisa, num estudo mais aprofundado da personalidade do vate.
Poeta de opulenta o perene inspiração, Luís Delfino na palavra de Leôncio Correa, “lembra as águas escachoantes dos grandes rios que, fertilizando terras, anunciam fartura.”
Embora com uma indiscutível predestinação poética, Luís Delfino não era um apegado à poesia, desses que vivem alinhavando versos dia e noite. Pelo contrário. Só poetava quando era assaltado pela inspiração que o envolvia todo, tolhia-lhe os movimentos num emaranhado de fios de ouro, numa rede tecida de brumas e auroras. Só então ele sentia aquela necessidade interior e imperiosa de fazer versos, para se livrar dessa peia que lhe anulava a vontade e lhe desviava o espírito de outros objetivos.
Durante muito tempo, num período de mais de vinte anos que se estende de 1856 a 1880, Delfino foi uma figura apagada devido às múltiplas preocupações e os encargos que a medicina lhe impunha. Médico de grande projeção, ele atendia às vezes, cerca de oitenta clientes por dia. A medicina era o seu sacerdócio. Tanto que jamais se preocupou com escolas literárias e afastou-se o quanto pôde, das “rodas” dos maiores intelectuais da época.
Convidado por Machado de Assis para fazer parte da Academia Brasileira de Letras que ora se fundava, não respondeu ao apelo daquele que seria o maior romancista do Brasil. Passou à noite em claro, à cabeceira de seu filho que lutava contra a morte. Perdeu o filho e não entrou para a Academia.
Os seus versos desse tempo caracterizam-se pelo semicondoreirismo e poucos eram os que mandava publicar. Em 1879 terminou essa fase de obscurantismo. Daí em diante o público começou a tomar contato com as joias que, do seu escrínio, o poeta espalhava profusamente pela imprensa. Firmou assim a uma qualidade de lirista notável. Já agora a sua poesia tinham toques de parnasianismo.
Dotado de uma memória invulgar, prova-o o tato de ter reconstituído quase 500 sonetos, dos quais não possuía cópia, quando o incêndio da Livraria Lammer destruiu-lhe todos os originais que iriam constituir o volume Imortalidades. Depois disso não se atreveu a publicar livro nenhum.
Poeta de riquíssimo vocabulário, às vezes de linguagem tocada de orientalismo como se pode observar em Levantinas, e de imaginação inexcedível, mostrou-se além de lirista um parnasiano quase perfeito. Abrangendo em seus versos todas as fases da poesia, do romantismo ao simbolismo, Luís Delfino firmou-se vate de grandes recursos. Essa particularidade ao invés de lhe diminuir o valor, como querem alguns, tornam, ao meu ver, o seu vulto inconfundível, atestando o poder e amplitude do seu estro. Foi, por isso, um grande poeta. Mas, apesar de não se limitar a determinadas correntes, a sua poesia é, sobretudo, romântica. Nela a emoção, muita vez superando a eloquência, extravasa em abundância, quente e cheia de vida, como o sangue de artéria seccionada.
Mesmo não se vinculando a ninguém, o maravilhoso vate de Leito de Beijos, e Depois do Banho, versos críticos onde há explosões de desejos latentes, nos traz à memória, em toda sua obra, os expoentes máximos da poesia. Luís Delfino evoca a poesia universal nas suas mais lídimas expressões: Homero, Hesíodo, o lírico Píndaro e o patriótico Tirteu; Theodore Banville, o majestoso Leconte de Lisle, José Heredia, Victor de Laprade; François Coppé, Paul Dérouléde e George Rodenbch. Tantos e tantos outros, sem citar o recalcado Lamartine, Victor Hugo, Alfredo de Vigni, o autor amoroso de Les Nuits, Alfred de Musset e o mestre do colorido Théophile Gauthler em Emaux ct Carnées.
Apreciando a sua obra, Luís Delfino nos aparece como um freudiano e a natureza psicossexual de uma emotividade estética é flagrante em Íntimas e Apásias.
Num ligeiro estudo sobre o poeta, Américo Valério mostra que a psiconeurose de Luís Delfino advém de uma repressão dos instintos sexuais ou, seja, dos complexos inconscientes, como se pode observar em vários dos seus versos onde se agrupam ideias sexualistas.
Em artigo na Gazeta de Notícias, o Sr. Leôncio Correa afirma que “a prioridade do condoreirismo no Brasil pertence de fato e de direito a Luís Delfino que, com Filha d’África, condenou em versos candentes e hiperbólicos a instituição do cativeiro, da qual seria libelo eterno a lira messiânica de Castro Alves, muitos anos antes da declaração da guerra do Paraguai.”
É mais um que vem disputar a Tobias Barreto e Castro Alves os louros de introdutor do condoreirismo na poesia brasileira. Agora são três... Todos acham que foi Castro Alves o inovador. Sílvio Romero teima em dizer que a glória cabe ao seu grande amigo Tobias Barreto. E agora o poeta Leôncio Correa vem reivindicar a prioridade para Luís Delfino.
Manuel Bandeira, na sua Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, inseriu um soneto de Raimundo Correia publicado em A Vespa, onde se descobre a influência de Luís Delfino sobre o célebre autor de Mal Secreto. Esse soneto foi oferecido ao vate catarinense pelo próprio Raimundo. El-lo:
Abandonas às vezes a alta crista
Do pujante Himalaia onde te entonas...
O estrondar do Niágara para, e as verdes zonas,
Que, de tão verdes, fazem mal à vista;

Os amplos céus e os largos Amazonas
Selvas rasgando em triunfal conquista,
E, por Anacreonte, Ésquilo artista
Do ar baixando, em que pairas, abandonas...
E em vez dos grandes rios buscas, poeta,
O arroio, em cujas plácidas e amenas
Balsas soluça, à noite,
o rouxinol;
Cujas margens setembro, em flor marcheta;
E em cujas águas molha
o cisne as penas,
E as onças usem beber, ao pôr do sol.
Em Algas Musgos e Rosas Negras, livros que a dedicação filial do ilustre Sr. Tomás Delfino deu à publicidade, encontram-se nada menos de 423 sonetos belíssimos que do um atestado da grande inspiração e da musa maravilhosa do poeta.
Com a publicação do Arcos do Triunfo — 1940, Luís Delfino, embora morto materialmente, alcança mais uma estrondosa vitória na poesia nacional, reafirmando o conceito em que é tido de um dos maiores poetas, senão o maior dos que nasceram em terra brasileira.
Brevemente sairá o volume Imortalidades contendo aqueles quinhentos sonetos que foram destruídos pelo fogo, mas que a memória prodigiosa do autor reconstruiu. E ainda: O Cristo e a Adúltera, Os Mais Belos Sonetos, Várias (traduções e críticas literária) e Vida Política, tudo coligido pelo senhor Tomás Delfino no afã de divulgar o espólio espiritual do autor de Solemnia Verba.
A obra de Luís Delfino, muito mais vasta do que se julga, abrange ainda mais vinte volumes de versos que serão publicados paulatinamente, segundo a mesma norma dos outros.
Delfino é, com justa razão, o mais fecundo poeta brasileiro. Como sonetista a sua produção ultrapassa a três mil! E todos eles são joias riquíssimas, verdadeiras obras primas da nossa literatura.
Não sei o que poderia dizer mais desse privilegiado das Musas. E, como fecho desse artigo, transcrevo um soneto inédito — O Monstro — que nos foi gentilmente cedido pelo filho do poeta:
O rosicler da aurora peregrina,
Manhã sem nuvens, pálida e serena,
Ar puro, veiga de boninas plena,
E, entre elas tu, a mais gentil bonina;

Tu, que és
a branca aparição divina,
E essas iguais a ti, querida Helena,
São as que põem um monstro estranho tem cena,
Que começa em prazer e em dor termina.
E esse é leva, é sutil, é transparente,
Vem, arrasta-se, sobe,
e de repente
Entrou em nós, com ele entrando o (horror;

E em
nós vive e se nutre dia a dia,
Com pedaços de carne e de alegria...
Não conheces o monstro? o monstro é
o amor...
Morreu em 1910 aos 75 anos de idade, no Rio de Janeiro.
Ele é o lapidário insuperável de “Jesus ao colo de Madalena”, e o maior poeta do lirismo brasileiro. Cadáver de Virgem e As Três Irmãs, aí estão para atestar-lhe o valor e o talento. Grande poeta esse Luís Delfino, cujo estro prolífico, na plenitude das embreagens e do delírio, em meio as vertiginosas metáforas, atinge o sublime e cria ritmos estranhos, rimas de sonoridade cristalina a se difundirem em nosso espírito, como ondulações de mágicas orquestrações, a nos parecerem catadupas de luz!
Revista "Vamos Ler!",
18 de agosto de 1943
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