quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Gens ennuyeux (Conto), de Monteiro Lobato



Gens ennuyeux

— Queres ir? — indagou Lino, espichando-me um convite. Li: A Sociedade Científica, ahn, ahn... convida, ahn... a conferência versará sobre a História da Terra.

— É; a tese é catita; vais?

— Está-me apetecendo conhecê-los aos nossos sábios.

— Sábios — rosnei —, gens ennuyeux...

— Nem sempre — contraveio Lino. — O assunto é magnífico — e depois, que diabo! uma penitenciazinha de vez em quando, por amor à ciência...
— Pois vamos — resolvi com intrepidez.

— Às oito, rua tal.

— Lá estarei sem falta.

***

Ao assomarmos à porta já as cadeiras do grande salão se pintalgavam de graves sobrecasacas científicas, encimadas por carecas luzidias, em cujo espelho punha gangrenas de luz (perdão, Apolo!) a luz violácea do arco voltaico.

Entramos com religiosa compostura, pisando com passos humílimos o augusto piso do Pagode da Ciência.

No rosto do meu amigo vi uma leve expressão de terror sagrado. Os quíchuas, quando davam de chofre com o Eldorado, haviam de ficar assim... Lino comovia-se deveras e foi balbuciante que cochichou:

— Sábios, hein?

Sentamo-nos devagarinho e pusemo-nos a olhar. Novas sobrecasacas chegavam, aos magotes de três e quatro, compenetradas, pensabundas. Eram novos sábios de variegado estilo. Havia o estilo-fiambre: gente vermelha, com sangue à flor da pele em permanente congestão. O estilo-melado: gênero de importação alemã. O estilo-ball: queijos de Palmira com o vermelho substituído por um palor circular de cabelugens ralas. O estilo-clorose: rapazelhos de peito cavo e barba a espontar ingenuamente, macilentos de tez, olhos de bezerro disentérico, em cujas meninas — meninas dos olhos — pareciam boiar hipotenusas de braços dados a binômios de Newton.

À nossa destra suava uma rubra apoplexia alemã, enchouriçada em sobrecasaca de debrum contemporânea do iguanodonte, cujas costuras cediam à pressão das enxúndias comprimidas; sua mão gordita, recoberta de dourados pelinhos, alisava a grelha cor de fogo como quem alisa um gato de luxo.

Mais adiante, um amplo burguês, barbaçudo, verrugoso, bexiguento, fungava a suar.

À sua frente, sorrindo com bondade em meio dum grupinho amigo, uma espécie de criatura do sexo neutro, acondicionada em alpaca, sem um só enfeite e cujos cabelos grisalhos se erguiam em ríspido pericote sob a copa acartolada dum chapéu masculino. Discutia Cuvier.

— É a doutora Mariote... — sussurrou-me o Lino. — Uma sábia sapientíssima!...

Mais além, um oculista de nomeada; depois, um pomólogo; em seguida um filósofo, uma parteira, um charlata, um lente de geometria, um fisiopsicopatologista.

Nós, miserandos intrusos, vexados da nossa espessa ignorância a dois, comentávamos baixinho, com respeitosa deferência, as efígies hirsutas daqueles paredros que davam de tu a Minerva. Lino nem falava: ciciava tatibitate. Aquela face da sociedade nos era de todo desconhecida. Tudo ali cheirava a novidade. O próprio ar nada tinha do ar comum das ruas: pairava nele um cheirinho sutil a raízes cúbicas.

À frente do salão havia uma comprida mesa em cujo centro o presidente da Sociedade — um rolete de homem cor de salame — cofiava os bigodinhos ruivos, bamboleando no ar pés que não alcançavam o chão. Ladeavam-no dois bonitos secretários a remexerem atas. Sobre a mesa, enfileirada, uma récua de bichos pré-históricos em miniatura — estegossauros, plesiossauros, iguanodontes e um mamutezinho que escancarava a goela vermelha num urro mudo.

Dlin, dlin, dlin!... Está aberta a sessão — rosnou o presidencial salame. O secretário mascou a ata — tá, tá, tá...

— Tem a palavra o conferencista.

Corre pela sala o bisbilho da curiosidade. Galga a tribuna um homem. Roliço e pipote, tem a calva resplandecente, traz casaca, óculos e convicção profunda. Prepara os papéis, tosse.

Novo psst! desliza pelo salão. Cai nele o silêncio curioso da expectativa.

— Minhas senhoras e meus senhores! Me parece que a outro e não a mim, que sou o mais modesto membro da Sociedade...

Entreolhamo-nos àquele me com piscadelas gramaticais, e entregamos nossos quatro ouvidos às palavras do Sábio. Após o exórdio da praxe, o orador veste o escafandro da observação, apoia-se no pau ferrado da crítica, encavalga na penca os nasóculos da análise e, sem tir-te, cai no mergulho do fundo sombrio das idades. Vai aos períodos eos examinar gneiss e micaxistos; mostra exemplares ao auditório, descreve-os com minúcia. Narra como vieram os primeiros vegetais — samambaiuçus enormes e molengos — e como à sombra deles foram surgindo bichinhos tontos, sem experiência da vida, admiradíssimos de verem casa tão grande posta a seres tão pequenos. Fala com a segurança de um feto arborescente, testemunha ocular daquilo, transfeito em sábio moderno. Diz e rediz. Vai e volta — porque o gneiss pra aqui, porque o gneiss pra lá, porque o gneiss, o gneiss, o gneiss...

Depois agarra os trilobitas, os amonitas e mói, remói, tremói, pulveriza os pobres bichinhos, digressiona, gesticula, sua: o amonita... porque o trilobita... não obstante o amonita... bita... nita... e nita e bita, lá borbota ele ciência pura, híspida, hirsuta, inexorável, num fluxo que berra por tampões de percloreto de ferro.

O tempo corre, e da torneira aberta deflui caudaloso o jorro hermafrodita do palavreado greco-latino. O espelho da sua careca tremeluz de inspiração. Seu dedo pontifical coleia riscos explicatórios. E a linfa científica a jorrar, a jorrar durante quinze, trinta minutos, uma hora, hora e meia...

O esgoelado urro do mamutezinho já não é mais urro, sim bocejo formidoloso. E não o único. Pela sala outros se escancaram, incoercíveis. A doutora reprime os seus com caretas. Algumas sobrecasacas cochilam. O burguês das verrugas resfolga com maior estrépito e mais bagas de suor na testa.

E na tribuna a ciência a correr... a farragem fóssil a desfilar inesgotável numa sarabanda sem fim: porque o gneiss, o micaxisto... não obstante o bita, o nita... os conglomerados da Westfália, as superposições devonianas, a sedimentação terciária, tá, tá, tá, tá...

Nesse ponto penetrou na sala um delicioso casal, pisando de leve os passinhos de lã preventivos dos pssts. Ele, alto e elegante; ela, mimosa e feminina, tom exótico de teteia cara. Sentam-se. Ele abre os ouvidos. Ela espevita o lorgnon e corre os olhos vivos de malícia irônica pela assembleia inteira: pousa-os por fim na figura salpiconesca do orador.

Lino segue-os.

— Que graciosos! — diz, furando-me as costelas a cotoveladas —; repara na ironia daqueles dois diamantes negros. Pousam na careca do homem...

alisam-na com bonomia malandra... agora descem, examinam o nariz... Riem-se os marotos — e da verruga talvez... Tentam arrancá-la... irritam-se... fogem da penca... examinam o feitio da sobrecasaca. Bom, deixaram em paz o homem... passeiam pela sala... dão com o chapéu da doutora Mariote... Como se riem perdidamente os moleques!

Enquanto os olhos do meu amigo estudam os maliciosos olhos da linda criatura, barafustam-se os meus pela goela do mamutezinho que o dedo do sábio apontava naquele momento.

—... e apareceu então — dizia ele — um animal de pelos duros e pretos, de presas recurvadas, cujo esqueleto foi encontrado na embocadura do Iena e se chamou mamute...

Lino arrancou-me de golpe às goelas do monstro e ao caçanje do sábio.

— Vê como ela boceja com graça.

De fato, a petulante boquinha da moça escondia no leque um bocejo saciado; saciado e contagioso, porque logo em seguida o sociólogo escancarou o seu, o pomólogo lá no fundo abriu outro, e o alemão da nossa direita reprimiu um que prometia levar as lampas ao do mamute.

— Dez horas já! — espantou-se Lino, consultando o relógio. — Há esperanças de fim?

— Qual! — gemi. — Ele ainda está no megatério.

— E é comprido o megatério?

— Enorme. E tem vasta parentela. Só depois de descritos os gliptodontes, os megáceros, os rinóceros e as hienas é que há esperanças de entrarmos na terra do nosso avô pitecantropo. Coragem!

Às dez e mais inda o corrimento paleontológico continuava copioso, sem sintomas de exaustão. Sistemas sobre sistemas amontoavam-se, induções sobre induções, num mascar monótono de realejo elétrico. Nossas nádegas protestavam. Novos bocejos insolentes amiudavam exigências: queriam sair já e já, queriam passagem franca, bocas bem escancaradas — e nós lutávamos por conter-lhes a má-criação.

E o chafariz científico a despejar.

— Há esperanças — sussurrei para o Lino. — Já estamos no Homo sapiens.

— Bendito sejas, ó rei da criação!

Era verdade. O sábio penetrara no homem. Mais cinquenta minutos de seca e pingou o ponto, convidando a assistência a examinar de perto os fósseis amontoados sobre a mesa.

Estrepitaram palmas, e após o uf! de ressurreição encheu o recinto o sussurro do “à vontade”, das cadeiras recuadas, do frufrutar surdo dos capotes enfiados, dos espreguiçamentos risonhos.

— Que gostosura, um fim de seca!

A assistência aflui aos magotes para junto à mesa a fim de examinar os bichos. Fomos na onda. Todos comentavam, queriam pegar, apalpar os fósseis, cheirá-los, prová-los.

Com um estegossauro de palmo e meio seguro pelo cangote, o sociólogo explicava ao pomólogo “de como pela restauração de Cuvier se tinha ali um elo da vasta cadeia da evolução que Darwin descobrira”.

Ao centro da mesa o conferencista desfazia-se em amabilidades de caixeiro, fragmentando sua ciência e distribuindo-a em pílulas.

— Olhe, doutor — dizia o filólogo —, olhe a baculite de transição de que falei.

E para outro sujeito:

— Já viu, doutor, o magnífico exemplar de hipurite que nos veio de Berlim? Nisto ouvi ao meu lado um resfôlego adiposo; voltei-me: era o burguês das verrugas, com a toucinhenta consorte pelo braço, a examinar uma lasca de pedra azulega que de mão em mão viera ter às suas. O bicharoco olhava a pedra como quem olha talismã. Não resisti, atirei-lhe a esmo:

— É o gneiss.

O burguês encarou-me com o respeito devido a Quem Sabe e, virando-se para a mulher, repetiu gravemente:

— Este é o gneiss, Maricota.

Dona Maricota tomou-o nos dedos, examinou-o sob todas as faces e em seguida passou-o a uma sua amiga, gaguejando de geológica emoção:

— O gneiss, Nhanhã!

Na rua esfumada pela garoa, um friozinho de tiritar. De golas erguidas estugamos o passo, enquanto íamos extraindo a moralidade da festa.

Ciência e Arte nasceram para viver juntas, porque Arte é harmonia e Ciência é verdade. Quando se divorciam, a verdade fica desarmônica e a harmonia falsa. Se este senhor sábio trouxesse pela mão direita a Ciência e pela esquerda a Arte, para fundi-las no momento de falar, que coisa esplêndida não faria de um tal tema! Trouxe uma só e por isso maçou-nos, empanturrou-nos a alma de coisas duras, indigeríveis, misturadas com mil pronomes fora dos mancais. Além disso...

Foi-nos impossível prosseguir na filosofia. Um carro passava estalando rumorosamente as pedras da rua. Dentro vinha a nossa diva.

— Ela...

— A Verdade e a Harmonia...

Nossas bocas emudeceram, porque a imaginação, tomando as rédeas nos dentes, nos levava a galope no encalço da teteia de olhos negros.


---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...