terça-feira, 16 de outubro de 2018

Godiva, de Alfred Tennyson (Poema Traduzido)


Lady Godiva - Pintura de Jules Lefebvre (1898)

Autor: Alfred Tennyson
Tradutor desconhecido
Ano: 1936


 Godiva

Esperando o trem em Coventry,
Entre guardas e noivos olhei, da ponte,
Os campanários três, e aí dei forma
À antiga lenda da cidade assim:
Não só nós, frutos últimos do tempo,
Que, num girar da roda, do passado
Rimos, e que falamos de injustiças
E direitos, amamos bem o povo
E odiamos vê-lo sobretributado.
Mais fez e suportou e dominou
Essa mulher de há anos mil, Godiva,
Esposa desse duro conde, que era
Senhor de Coventry: porque, quando ele
Lançou impostos na cidade, e as mães
Com os filhos vieram o clamaram:
"Se pagamos, há fome", procurou-o
Onde entre cães sozinho, passeava
No salão, com a barba ondeando vasta
E mais vasto o cabelo, e aí falou-lhe
Das lágrimas do povo - "se eles pagam
Há fome"; e ele fitou-a entrepasmado,
E respondeu – “não sacrificarias
À causa destes uma dor de dedos
Decerto?" E ela disse - "morreria.”
Ele riu e jurou por Pedro e Paulo,
Brincou-lhe com o brinco de brilhantes,
Depois — "sim, sim, sim, falas". “Ai, disse ela:
Mas provai-me o que há que ou não faria.”
De um peito como a mão de Esaú rude
Disse ele então — “se queres que retire
O imposto que lancei, cavalga nua
Através da cidade" e, desdenhoso,
Com largos passos entre os cães saiu.

Só então, as paixões da sua alma,
Como ventos que mudam o se opõem
Durante uma hora se entreguerrearam
Até que venceu a compaixão. Mandou
Um arauto anunciar, trombeteando,
A dura condição, mas que ela iria
Para isentar o povo; e pelo amor
Que lhe tivessem, até ao meio-dia
Ninguém pisasse a rua, nem olhasse,
Passando ela, nem ninguém saísse.
Fechadas todas as portas e janelas.

Então no seu mais íntimo aposento,
As águias presas desligou do cinto,
Dom do conde, parando a cada instante,
Qual lua no verão meio encoberta.
Ondeando até ao joelho desprendeu
O cabelo: depois, despiu-se à pressa,
E, desligando pela escadaria,
Como um raio de sol furtivo, foi
De coluna a coluna até chegar
Ao portão e ao cavalo ajaezado
Em púrpura com o ouro dos brasões.

Vestida de pureza foi, e o ar
Parecia escutar om torno dela,
E o vento mal soprava, de receio,
As pequenas cabeças do repuxo
Tinham para ela olhos, o rafeiro
Ladrando enrubescia-a, o trotear
Do cavalo pulsava-lhe em horror
Nas veias; a cegueira das paredes
Era cheia de fendas, o de cima
Apinhadas as telhas espreitavam;
Mas ela tudo suportou, até
Que por fim viu nos campos, através
Das góticas arcadas na parede
O branquear da flor do sabugueiro.

Voltou então, vestida de pureza:
E um vilão, lama desagradecida,
Provérbio ignóbil a vindouros anos,
A medo verrumando a porta, olhou,
Mas os seus olhos, inda sem ter visto,
Murcharam-lhe nas órbitas, caindo
Ante ele. Assim quem guarda os nobres da d'alma.
Apagou um sentido mal-usado,
E ela seguiu, insciente: então, a um tempo,
Com doze badaladas sonorosas,
De cem torres soou o meio-dia
Lentamente, e ela só então entrou
No quarto, donde, de coroa e vestes
Nobres, saindo em bem, e ao encontro
Indo do seu senhor, tirou o imposto
E ganhou para si um nome eterno.

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Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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