domingo, 14 de outubro de 2018

Poetas do Brasil: B. Lopes


Poetas do Brasil: B. Lopes
Chegávamos a 1881.
O cartaz literário do ano festejava um nome novo: B. Lopes, — nascido Bernardino da Costa Lopes, a 19 de janeiro de 1859, em Rio Bonito, Municí­pio de Boa Esperança, no Estado do Rio de Janeiro.
O livrinho com que se estreara Cromos — mostrava um poeta amante da natureza, encantado da vida simples. Versos perfeitos, ideia singela.
Eram pastorais em quadros bucólicos, e interiores, em cenas familiares.
Como a maioria dos nossos homens de letras. B. Lopes era de condição humil­de, o que mais o enobrece na situação em que o talento o distinguiu. Foi cai­xeiro e fez com sacrifício o curso de humanidades.
Uma grande paixão deliberou a sua vida: fora sua prima Chandoca Lopes, moça e bonita, violinista e poetisa, — alma-irmã do poeta, — a cujo destino não pudera unir-se devido a escolhas de família e preconceitos de raça.
Por essa ocasião abandonou Sant'Ana de Japuíba, onde residia, transportando-se para o Rio.
Ali prestou exames num concurso para o Correio Geral, sendo brilhante­mente classificado.
Casou-se com D. Cleta Vitória de Ma­cedo, que lhe sobreviveu, morrendo em 1932. Desse consórcio houve cinco filhos: André Gil, Pedro Paulo, Alcides, Amaro e Bernardino.
A princípio bom esposo, apaixonou-se, mais tarde, por aquela a quem cha­mou "Sinhá Flor". À filha de sua amante apelidou "Sinhá Botão".
Desde essa época deu-se à bebida.
B. Lopes teve um destino infeliz. Na repartição em que trabalhava foi vítima de uma queda, tendo ficado gravemente ferido na cabeça.
Não restabelecido ainda do ferimento, para aumentar-lhe a desdita, sobreveio-lhe a epilepsia, que o martirizava em ataques que duravam, às vezes, três dias.
Mesmo assim continuava na vida boêmia: mulheres, versos e vinho.
Condena-se em B- Lopes a sua admi­ração pela nobreza, fazendo quase sempre da imagem feminina de seus versos uma aristocrata, tal fora ele próprio um fi­dalgo.
A poesia de B. Lopes, acoimado de ignorante pelos seus desafetos, coloca-o entre os bons poetas da nossa terra.
Nada lhe falta para justificar esse tí­tulo, pois que, além do apuro da lin­guagem e da forma, as comparações fidalguescas fazem-no exceder-se em imaginação.
Grande poeta é aquele que, dormindo em mansarda, pobre e sem carinho, é capaz de traçar uma página em que se diga recostado em coxim de púrpura, contemplando, nas espirais do fumo, uma princesa na mulher amada, que é na maioria dos casos uma simples costureirinha que nem sequer o olha.
Pois não é o poeta que transforma em maravilhas os objetos vulgares?...
Para que se conheça quanta admira­ção despertavam os versos desse a quem João Ribeiro incluiu no rol "dos maio­res poetas da nossa geração", basta dizer que a coleção de poemas e sonetos — Cromos — em nova edição (1896), foi em pouco tempo, completamente esgotada.
B. Lopes, acusado falsário do gênero em que vitoriosamente se estreara, não fez mais que seguir a evolução do pen­samento e subordinar-se à corrente li­terária então em voga — a dos parnasianos brasileiros, que, na generalidade, não puderam fugir aos arroubos da emo­ção, nem ao luxo das imagens histó­ricas.
B. Lopes, porque amasse duquesas em seus poemas, era considerado um per­juro da simplicidade que primeiramen­te louvou.
Alberto de Oliveira, todavia, caiu, também, nesse pecadilho, embora se regenerasse depois.
Apesar de não nos parecerem gemas preciosas, mas simples aquarelas, as pro­duções de B. Lopes têm um característico próprio. É o seu maior mérito.
Já agora, bem encaminhado na buro­cracia, como 1º oficial do Correio Ge­ral, passa a ser invejado. Vê-se nele, por­que nascera no interior, o jeca que se enfatiota na cidade, sem se ajeitar ao trajo novo.
Essa estranha maneira de vestir, — bombacha, grande laço de gravata, cha­péu de abas largas, — dá-lhe na verda­de a aparência de um roceiro queren­do ditar elegância.
"Alto, moreno, forte, não mostra na máscara rija e semibárbara de sua bem marcada face, a alma de um vate ou de um sonhador. Seus olhos vivos demais, verrúmicos, coriscam". Assim o retrata Luís Edmundo. E a pena por excelên­cia do poeta e historiador acrescenta: "Falta ao físico do poeta certa expres­são de candura lírica".
B. Lopes era, realmente, a figura de um Otelo provinciano.
Foi o autor de O Rio de Janeiro do meu tempo quem nos contou este interessante episódio em que, mais uma vez, vemos B. Lopes caricaturando.
Emílio de Meneses, tendo tido com ele uma rusga, desenhou-lhe o perfil:
Empertigado malandrim pachola
De polainas, mon
óculo e bombachas,
Mandou pôr nas botinas meia sola
E abandonou de vez Porto das Caixas.
B. Lopes era um homem de espírito. Nada ficava a dever aos que o feriam com ironia.
Com a mesma felicidade, retrucou ao nosso boêmio número 1:
Esse que a forma lembra de uma pipa
Das que vazam cacha
ça em vez de vinho,
Esse monstro de palha e de toucinho,
De pouco cérebro e de muita tripa...
Diz Afrânio Peixoto: "B. Lopes, poeta de quem aqui ninguém faz caso, é uma admiração minha!".
Em 1886, publicou Pizzicatos — esgotado.
Em 1890 escreveu o poemeto Dona Cármen.
Brasões, oferecido a seus pais, ilus­trou o ano de 1895, com a tiragem de 2.000 exemplares.
O autor teve a glória de vê-lo esgo­tado, quinze dias após a publicação.
Em 1899, veio a lume Sinhá Flor, — "pela época dos crisântemos".
É uma homenagem à "mais bonita flor de Pernambuco", para quem burilou "uma régia coroa de sonetos".
A musa cabocla do poeta enflora-lhe o estro:
Quando consertas os cabelos pretos
Abre-se em lírios e harpas todo o solo.
Toda a minha alma em rosas e sonetos
.
"Sinhá Flor", que o arrebatou da es­posa, teve a glória de ser cantada, imor­talizada .
No soneto nº VI do livro que lhe dedicou, B. Lopes expande todo o seu orgulho de homem amoroso:
Certo, ao lerem-me, dizem: Quem é esta
Criatura fragrante, elfo risonho,
Flórida argila, realidade ou sonho.
Que a alma deste cantor põe tanto em
festa?
Que o Estro lhe torna em víride floresta
Com orquídeas e pássaros?... Oponho:
É um ser eleito, pálido e tristonho.
Com o diadema de Flora sobre a testa;
Toda a expressão da Forma, o alto re­quinte
Da graça helena, que não há quem pinte.
Nem cinzel mestre que lhe apanhe a
linha;
Fatia estranha e gentil de mãos de prata
Que para o amor e a glória me arrebata
Num bailado de crótalos. É minha!
Nos primeiros meses do século XX, sua alma, ânfora de lirismo, espargiu em Vale de Lírios — "Nec semper lilia florent" — perfumes extraídos do Simbolismo.
Notam-se em B. Lopes rasgos cres­centes de carinho:

Mãe! S
ó no estado de Graça Plena
Desenhar posso tua feição,
Sobre uma hóstia, molhando a pena
No coração.
Vale de Lírios é, por vezes, monótono, inexpressivo, onde ele ama com re­ticências como querendo ocultar-se do mundo exterior, fruindo "a volúpia de um caracol".
O amor era coisa tão estranha para a sua alma vária que, diante dele, não se julgava mais que "miserável verme".
Depois que Sinhá Flor o abandonou, arrependido, tornou ao lar.
Em 1901 publicou Helenos (sone­tos) que subdenominou: "Lírios de catorze pétalas" . Despetalou-os em carí­cias, amor, enlevo e graça, sobre Cleta Vitória. Nem poderia ser outro o livro que dedicasse à esposa tão boa.
É então que a alma do poeta se pos­ta de joelhos ante o santo amor conjugal:
JURAS
Tenha eu vermes na boca, se algum dia
— Após beijar-te da cabeça às plantas —
Diante de outra, a não ser aos pés das
santas,
Deixou ela de estar cerrada e fria;
Tenha eu treva nos olhos, se algum dia,
Desde que os olhos para mim levantas,
Outra notei no turbilh
ão de tantas
Cheias de mocidade e louçania.
Tenha eu puas no ouvido, se algum dia,
Ainda a escutar o teu romance triste,
Outra voz o acordou, franca ou discreta:

Tenha eu garras ao peito, se algum dia,
Depois que ao meu o teu no abra
ço uniste,
Bateu por outra o cora
ção do poeta!
Em 1905 editou Plumário, do gênero delicioso adotado em nossos dias por Júlio Dantas, transformando vultos fe­mininos quaisquer em perfis aristocrá­ticos. São cenários de amor em versos, como plumas sobre a sensibilidade.
O poemeto Punhal é de muita vibração. Tudo faria pelo amor, como Herodes — se sua Salomé lhe pedisse algo.
O punhal é de prata,
Tem meu nome no cabo e na bainha,
Com sinistros lavores de obra minha.
Triste daquele, triste do mortal
Que ela apontando me dissesse — mata!
— Eu lhe traria, como flor exangue,
Eu lhe traria, bêbedo de sangue,
O coração na ponta do punhal!

B. Lopes
é na verdade um poeta, o poeta dos lírios.
Repetimos: Como conseguiu distanciar a vida privada, horrível, infeliz, dos versos meigos, alegres, felizes, faustosos!?
Foi invejado, apesar de epilético, desgraçado.
A humanidade tem dessas incompreensões!
Quem o visse na rua não o reconhe­ceria em suas estrofes encantadoras. O parnasiano perfeito, correto, era o boê­mio agitado, incorrigível, insensato.
De uma feita, querendo prestar uma homenagem a certa pessoa de projeção no cenário político do país, B. Lopes dedicou-lhe alguns versos, usando de expressões impróprias.
Devido a essa leviandade, foi tido co­mo louco, tendo passado alguns dias no Hospício.
Voltando à sociedade, tornou a em­briagar-se como para apagar a dor de uma existência sem rumo, agitada.
O poeta colaborava em O Cruzeiro, Gazeta da Trade, O País, Gazeta de Noticias.
Já aposentado, corroído pelos anos e pelos males, faleceu numa segunda-feira, 18 de setembro de 1916, na casa da Rua Cesária nº 12, no Engenho de Dentro.
É patrono da cadeira de Maurício de Lacerda na Academia Fluminense de Letras.
Foi um espírito interessante, irônico, contraditório, sem controle como todo talento exuberante.
No testemunho desse mestre ilustre de medicina legal e de literatura, que é Afrânio Peixoto, nota-se quanto era dis­plicente, em vez de orgulhoso, o pobre sonhador, sem ambições maiores.
Contou-nos o autor de Maria Bo­nita que ao ser convidado para participar do grupo de membros da Aca­demia Brasileira de Letras, — a maior honra que pode almejar um intelectual, B. Lopes respondera, laconicamente:
"Não quero, não! Já sou do Correio Geral!"

ÁLVARO F. SALGADO
Revista Cultura Política, fevereiro de 1942.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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