sábado, 13 de outubro de 2018

Sílvio Romero: Tobias Barreto de Meneses como poeta (Ensaio)



Tobias Barreto de Meneses como poeta

Parece-me ser um fato notório a censura, que me fazem certos críticos da corte, pelo apreço em que tenho, como poeta e filósofo, o escritor, cujo nome serve de epígrafe a este juízo. Sou do número daqueles que reconhecem no público o direito de tomar contas de todos os atos de um escritor, e até de quem, como eu, não passa de um rabiscador chocho e inútil; e é esta a razão do mau vezo, que tenho adquirido, de não deixar encrespações sem resposta.

Creio, porém, não estarem erro, supondo que no ponto vertente a censura carece de base e não passa de um abuso sem justificação. Não tenho repugnância em indicar os motivos públicos que me prendem ao escritor sergipano, e até as razões particulares que me levam a estimá-lo.

Aqueles são de ordem literária e já têm sido por vezes expostos, pertencendo à crítica averiguá-los.

As outras justificam-se por si mesmas: Tobias Barreto é meu patrício, foi professor de meus irmãos; sua família teve amizade à minha, e, sobretudo, tanto convivi e aprendi com ele, que o considero meu mestre nas letras.

Creio ainda que em tudo isto nada vai de censurável, e que a susceptibilidade dos chefes literários da corte não será tão delicada que se magoe com tão pouco. O que não posso tolerar é que se propague um certo charlatanismo que nos leva a considerar qualquer figura mínima, que aparece como uma estrela de primeira grandeza, que no céu do pensamento se fez e vive por si, não tendo relações com os mortais e só dependendo de seu próprio gênio!

Conheço muitos espíritos deste quilate, que do próprio escritor sergipano foram, em Pernambuco imitadores, senão plagiários servis, e, em romarias literárias cá pela corte, apresentaram-se como grandes letrados e poetas, caídos do céu para maravilhar-nos, a nós outros, pobres diabos terrestres humildes e obscuros.

Estou no meu direito em ter minhas predileções o noto que elas mais se arraigam à medida que sofro os ataques dos invejosos e dos intolerantes Tanto pior para mim... que mais irreconciliável me torno com meia dúzia de grandes sacerdotes literários cortesãos, dirão talvez!.. Tanto pior para eles... que cada vez me parecem mais desfrutáveis e banais, digo por minha parte.

Mas vamos ao assunto. Apesar de todo meu entusiasmo tobiático, nunca tive ensejo de escrever sobre o grande sergipano na sua qualidade de poeta.

Ainda bem que ele próprio ofereceu-me a ocasião, tendo a delicadeza de deixar que eu me encarregasse de preparar um prólogo para o primeiro volume de suas obras poéticas, que sai hoje dos prelos a esforços meus.

Foi na poesia justamente que eu tive repetidas vezes de pôr-me em desacordo com Tobias Barreto. Não é que lhe negasse a grande espontaneidade, a força e a graça de seu lirismo. É que ele fechava um ciclo literário, era o último romântico de valor, e eu me deixava levar por outras ideias.

Já se vê, pois, que o meu entusiasmo admite certas exceções e com o próprio poeta aprendi a ter o pensamento autonômico. Posso julgá-lo desassombradamente na poesia.

Tobias Barreto, mais conhecido como crítico e orador, foi e é, antes e acima de tudo, um poeta. Desde uma das mais velhas que conheço de suas produções, a Cena Sergipana de 1856, até ao Ainda Sempre, deste ano, é o mesmo lírico, espontâneo e vivace, arroubado e natural. Releva ponderar que dos quinze aos trinta anos, durante um grande mortalis aevi spatium, só produziu poesias, fundou uma escola, e não se leva impunemente tanto tempo em comércio com as musas. Começou seus estudos superiores já um pouco tarde. No último decênio é que abandonou totalmente, ou quase, a poesia. Sua carreira poética divide-se em duas fases bem distintas: a sergipana (1854-1862) e a pernambucana (1862-1881).

Na primeira muito produziu; mas quase tudo se perdeu devido isto ao seu gênio descuidoso, quase imprevidente.

Na segunda produziu ainda mais; grande parte de poesias perderam-se e as outras jazem ocultas nas páginas dos jornais. É o que acontece também à maior parte de seus trabalhos críticos e discursos, que andam esparsos, nunca os tendo senão limitadamente reunido em volumes. É a razão porque só é bem conhecido, quero dizer, totalmente lido e apreciado em Pernambuco.

Da primeira fase restam-nos as poesias seguintes: Cena Sergipana, Quadro Histórico, Anelos, Beija-flor, Mãe e Filho e fragmentos do Juízo Final. São as principais. Todas as outras pertencem à época seguinte. Não é inutilmente que assinalo estes fatos e lhes indico as datas.

É que pelo estudo dos trabalhos escritos por Barreto, quando ainda não tinha saído de Sergipe, quando nada mais sabia do que a fundo o latim, conhece-se a natureza integral de seu talento poético, que ainda não tinha sido perturbado por leituras estrangeiras. Possuía já todos os méritos, sem alguns dos seus descuidos: um lirismo sadio, trescalando um perfeito amor à vida e à natureza, suave e límpido.

Cumpre estudar o poeta em relação ao seu país, sua raça, seu tempo e à natureza intrínseca de seu talento, e ver se ele foi um retardatário ou um espírito ávido de luz, se original e pátrio.

No tempo em que se desenvolveu, a poesia brasileira atravessava uma crise, estava em decadência. A primeira fase do romantismo religioso e caboclo, iniciada por Magalhães, Porto Alegre e Gonçalves Dias, tinha passado; a segunda, sentimental e afetada, seguida por Álvares de Azevedo, Aureliano Lessa, Bernardo Guimarães e Junqueira Freire, já desgostava à nação. O sergipano, que era e é ainda, um homem robusto e sadio, não tinha sofrimentos túrgidos a contar, e foi naturalista, vivido e arroubado. Romântico na maneira de tratar a poesia na forma que se inclinava à de Victor Hugo, não o era no choro afetado e na descrença teatral. Também tem peças sentimentais, é certo; mas de um sentimento real, inspirado por sua má posição social: era e é paupérrimo e obscuro.

O autor dos Dias e Noites é um dos mais estrênuos e genuínos representantes do povo brasileiro. Nascido em Sergipe, na vila de Campos a 7 de junho de 1939, teve uma dessas criações ao ar livre, ao contato direto com o povo. Campos é um ninho de lendas e tradições populares. Na poesia anônima da província ela ocupa lugar conspícuo.

Esse sopro popular da pequena vila das margens do rio Real, bafejado na alma do poeta, nunca mais se lhe apagou.

A Cena Sergipana, os Tabaréus, os Trovadores das Selvas e a Lenda Rústica mostram essa origem.

Por elas e pelos cânticos patrióticos, inspirados pela guerra do Paraguai, é que o poeta prende-se ao nosso povo; é um brasileiro no genuíno sentido da palavra.

Nem se diga que ele tem sido um terrível crítico de nossos erros e abusos. Razão demais para ser brasileiro; porque deseja o nosso progresso. Sabe-se que o célebre romancista russo Ivan Turgenief há sido um acérrimo censor de sua pátria. Julian Schimidt lhe respondeu que a Rússia não pode ser um tão detestável país, desde que produziu um Ivan Turgenief!

É o que se pode dizer do Brasil: não é tão ruim pátria, já que pôde, entre poucos, criar um Tobias Barreto.

O poeta é um nacional em regra, é um mestiço e um meridional. Ama o calor, devora café e só pode escrever envolto em fumaças.

É comodista, e, ainda em Sergipe, era um exímio tocador de violão e excelente cantor de modinhas.

Um traço mais: nunca pediu cartas de empenho, sempre teve ojeriza a empregos públicos; gosta de viver por si e em pequenas vilas; não pode ter obrigações aturadas e perdeu um ano na Faculdade de Direito, por acordar sempre em hora atrasada. É um descuidoso, um poeta. Isto pinta o seu gênio sem afetação, o seu tipo de homem do povo.

Juntai agora a tudo um caráter severo, uma sinceridade de amigo a toda prova, um amor filial como não me foi dado apreciar outro, uma independência e altivez sempre prontas contra os grandes e potentados, e tereis a face moral de sua natureza. É um homem de bem, e só podia ser o poeta da verdade. Nada de convenções e atitudes teatrais. É simples e lhano. Vi-o quase louco quando perdeu sua mãe, que ele fora buscar em Sergipe e que acabou os dias em sua casa.

Não posso compreender a poesia num homem, cuja vida não tem também alguma coisa de original e poético; não compreendo como um pacato filho da corte, empregado de secretaria, indivíduo que nunca lutou, nunca sofreu, possa ser um poeta. Este manifesta-se logo em seu modo de ser e de viver.

Que Tobias, porém, o filho de um escrivão pobre, o filho do povo, que hauriu na infância as lendas da plebe, que saiu da casa paterna aos dezesseis anos para ganhar a vida, ensinando primeiras letras, música e latim; que aos vinte e três atirou-se para o Recife, e, sem recursos, aprendeu consigo os preparatórios em um ano; que ali, por um esforço hercúleo, estudou a fundo línguas e ciências, frequentando a Faculdade e lecionando; que depois de formado, longe de aceitar empregos públicos, o seu primeiro cuidado foi romper com o Sr. de Vila Bela e outros pseudoaristocratas de Pernambuco que o quiseram catequisar; que um tal homem que há sofrido, seja um poeta eu compreendo!

É preciso ter lutado, senão tanto como ele, um pouco também; é preciso, antes de tudo, conhecer o povo e ter visto o país.

A literatura cortesã é uma planta de estufa; uma flor no vaso, estiolada e murcha.

Tobias Barreto nunca estudou diretamente a poesia de nosso povo. Saturou-se porém dela e conhece-a por instinto.

Em Sergipe quando ele apareceu, a poesia era quase nula e só tinha quatro cultores de algum merecimento: Pedro de Calazans, José Maria Gomes de Souza seu irmão Constantino e Bitencourt Sampaio.

Tobias ultrapassou-os muito. Para prová-lo basta citar as duas pequenas peças Cena Sergipana e o Beija-Flor.

As poesias puramente sergipanas revelam-nos sua aptidão lírica, uma das mais pronunciadas do Brasil. O poeta é todo objetivista; não pranteia; diz o que viu e sentiu, e não assume ares filosófico de raciocinador, nem tão pouco de carpideira. Uma coisa fica, desde logo, provada, e é que o autor dos Dias e Noites já em Sergipe, antes de saber o francês e ler Victor Hugo, tinha o mesmo estilo que sempre teve e ainda hoje conserva na poesia. Seu modo de dizer é aquele, é natural. É alguma coisa que se parece com a forma do Victor Hugo lirista nos bons tempos. Depois é que Tobias tomou conhecimento do grande mestre, e achando-se a gosto naquela corrente da poesia, deixou-se ir por ela abaixo exagerando-se um pouco. Foi isto nos meses que passou na Bahia, antes de ir a Pernambuco em 1862.

***
O estado intelectual do Recife nesse tempo era lastimável: uma mescla de carolice, bebida em Ventura de Rulica e Taparelli, e de palavrosidade metafísica, tomada de Esquiros, Peletan e Quinet... Tal a face da Academia.

A poesia era um prolongamento dos tacapes de Gonçalves Dias e da choradeira de Álvares de Azevedo.

Neste meio saltou Tobias com vinte e três anos de idade. Ruminou a bordo uma das suas melhores produções: À Vista do Recife.

Desde logo as coisas se acharam mudadas; aquele modo de dizer másculo e iriante era novo.

A choraminga morreu desde aí; os entusiastas tomaram o partido do sergipano. Castro Alves, muito mais moço, e aparecido posteriormente como poeta do gênero, era do número deles. Os dois foram amigos. Tobias sempre o distinguiu dentre a turba multa e dedicou-lhe os lindos versos — Os Oito Anos. Castro Alves dedicou-lhe O Rio e o Gênio. Mais tarde, por intrigas e questões de bastidores, brigarem os dois. A luta foi renhida e escandalosa, por causa de duas atrizes.

Na questão puramente literária e crítica não foi para surpreender que o sergipano contundisse o baiano, que, se tinha, como fui sempre dos primeiros a reconhecer, um apreciável talento poético, não tinha estudos feitos.

Formaram-se dois partidos em torno dos dois poetas. Logo em começo, a nova escola dava o espetáculo de uma luta intestina. Como era natural, os dissidentes e os sectários das antigas maneiras saíram a campo, e Tobias foi horrivelmente apedrejado, o que o fez dizer:

De tantas pedras que atiram-me
Hei de fazer um altar...

Em 1867, Castro Alves retirou-se do Recife para a Bahia e depois para o Rio e São Paulo. Teve então a fraqueza de aceitar as recomendações de José de Alencar e do Sr. Machado de Assis! Castro Alves não era um verdadeiro lutador; não tinha certo pessimismo indispensável ao tempo de hoje. Fraquejou, e deixou-se empolgar por um homem da têmpora do Sr. Machado de Assis, virtuose literário, enroupado à francesa... Desde esse dia o jovem poeta baiano deixou de ser um homem de combate, tinha de retirar-se ou morrer. Deu-se a última hipótese.

A época de 1862 a 1870 no Recife, ao influxo de um entusiasmo de súbito desenvolvido, foi um período de vida e movimento literário. Ali apareceram poetas de grande merecimento: Tobias Barreto, Castro Alves, Guimarães Júnior Plínio de Lima, Vitoriano Palhares, Carneiro Vilela, Franklin Távora, Generino dos Santos, José Jorge, Altino de Araújo e muitos outros.

Varela lá também apareceu durante um ano e distinguiu-se por suas singularidades. Se não deixou-se ir pela corrente geral, não teve força para chamar os outros a si. Era um período guerreiro para o país e a poesia acostumou-se ao retintim das armas. Ouvimos então os nossos mais belos hinos patrióticos. O Recife era a passagem de todos os batalhões do norte; o ardor marcial era geral. Tobias recitou os Voluntários Pernambucanos, a Capitulação de Montevidéu, os Leões do Norte, Em nome de uma pernambucana e muitos outros cânticos marciais.

A princípio a guerra tinha sido mal recebida em Pernambuco, sempre ferido no segundo reinado; as festas públicas e os brados dos poetas acabaram por acordá-lo. Tobias foi o Tirteu do movimento.

Em 1870, quando se acabou a guerra, já ele estava entregue a outra ordem de ideias; mas foram ainda chamá-lo para saudar os que regressavam da campanha, e recitou a Voltas dos Voluntários, uma de suas mais ruidosas poesias. Aí o poeta já estava um pouco descrente e seu entusiasmo bastante arrefecido; entre outras notas, ouviram- se estas:

E oxalá que em algum dia.
Tendo saudades da morte,
Não clameis: "feliz a sorte
Dos que não voltaram cá!...

Foi assim; muitos voluntários arrependeram-se de ter voltado à pátria! Neste país, onde, segundo o nosso poeta, o sol é popular e preside ao trabalho, onde

— O sol que nos conforta
É nosso concidadão...

a natureza é grande, mas deixou pouco lugar para o homem. Se tivermos uma nova guerra no Rio da Prata, duvido muito que ela seja acolhida com o mesmo entusiasmo de 1864.

Antes de prosseguir no estudo do caráter poético de nosso autor, é preciso dar a conhecer o que ele mesmo naquele tempo pensava sobre a poesia. Para aqui transcrevo umas palavras por ele escritas num volume de versos de Paes de Andrade. Aí revela-se a sua intuição daquele tempo. Disse o poeta:

“Passa como uma verdade incontestável que a poesia, a poesia lírica digna deste nome, é a expressão das lutas da alma humana com o enigma do seu destino.

A felicidade indefinita, que o homem aspira, é a incógnita de um problema sombrio, diante do qual encontram-se perpetuamente embebidos o padre com todas as suas preces, o filósofo com todos os seus cálculos, o poeta com todas às suas queixas. A poesia impregnada dos perfumes da religião e das luzes da filosofia, torna-se um alimento suavíssimo, um favo de consolação para os corações solitários, que não profanam a santidade do padecer com a brutalidade dos prazeres insensatos.

Deste modo, faísca o entender daqueles que dão, que empregam como caráter da poesia a criação de um mundo à parte, fantasmagórico, impossível. Assim como já não é dado ao filósofo recostar-se nas hipóteses, não é dado ao poeta apegar-se aos vagos sonhos dos espectros fumegantes da imaginação febril.

A poesia de hoje, a poesia do século XIX também precisa da observação; o poeta deve ser investigador; ele também pertence à grande aristocracia pensante, a esse grupo de cabeças cheias de todas as auroras do futuro, que tem os ouvidos atentos a todos os silêncios misteriosos, e as frontes batidas por todas as vagas do infinito. Mas no homem que pensa, eu quero ver também o homem que obra. Longe estou de supor que para o culto do pensamento, como pretende o Sr. Eugene Pelletan, seja mister a instituição de uma classe bramânica, sagrada. Seria o sacerdócio da ociosidade. O gênio, qualquer que seja a sua manifestação, deve entrar, deve aparecer como parte ativa nos trabalhos, nas lutas, nos progressos da humanidade. Dizer ao poeta, ao filósofo, ao pensador em geral — nós te sustentamos, o teu trabalho é todo íntimo —, importa dizer-lhe: divorcia-te da sociedade, renuncia às doçuras da família, aos encantos da mulher; nós iremos te consultar na gruta do teu pensamento, piaga da civilização.

Não sou do número daqueles que amam a poesia como um minuto de prazer, um entretenimento de ocasião, uma embriaguez de todas as paixões, uma feiticeira noturna que se ocupa de introduzir sonhos de voluptuosidade debaixo do travesseiro de donzela.

E é a que mais vemos, a que mais temos, a que mais agrada em nossa terra, linguagem da devassidão, linguagem do lenocínio, poesia sensual, ditirâmbica, imoralíssima, pagã.

Lede os modernos liristas amorosos, e vede: as mulheres aparecem quase nuas, desgrenhadas, preguiçosas ou ninfomaníacas; a natureza flutua em mar de volúpias, a brisa é voluptuosa, a tarde é voluptuosa, a flor é voluptuosa, a estrela é voluptuosa, tudo é voluptuoso. Deus mesmo não escapa, tem os seus momentos de sensualidade!! E depois desta orgia intelectual, aí temo-los caídos em uns sentimentos indizíveis, ou seja o nosso cismar, ou o réverie dos franceses, ou o schnsucht dos alemães, que todos querem dizer preguiça, essa estupidez da ação. Debalde procuraremos em poesias desta ordem o sentimento da vida, o sentimento das coisas: Lacrimae – rerum. Nelas a beleza, sobretudo, a beleza feminina é uma esquisitice ridícula. Quando não é um anjo que vem à terra sem um motivo plausível, é uma mulher microscópica, insignificante, uma descendente bastarda da rainha Mab, metida num floco de escuma ou na dobra de uma nuvem, que ao muito poderá servir para amante de uma criança, mas nunca para ser a doce consolação de um homem, no sagrado aperto das mãos, na santa união dos destinos: Consors.

E não finda aí. Se acontece que seja real o objeto de suas adorações, o poeta, metaforicamente choroso, em vez de apresentar aos olhos de sua querida as delícias, a grata existência, a suavidade dos laços da família, procura desapertar-lhe a charpa dos santos deveres, insinuando-lhe tendências perigosas na impetuosa insolência de uma poesia animal, balda de prazer para o público sensato, e sorrateiramente prejudicial à sociedade. Com efeito ao homem sério, que tem o gosto do belo e do bom, nada importam, nada deleitam versos que só tem beijos, que falam de mais beijos do que os milhares e centos de milhares que Catulo pedia à sua Lésbia. Da mi basia mille, deinde centum. Vemos, destarte a poesia prestar-se aos apetites vergonhosos. Desejos que degradam, palpitações criminosas exprimem-se com toda a audácia da libertinagem. O bom senso indigna-se de ver a mais bela das artes, a mais doce das linguagens, demitida do seu mister honroso e sublime.

Seja qual for o vigor de seu talento, e seja qual for a grandeza de suas concepções, o poeta é sempre um homem, e como tal sujeito às leis que regem a natureza humana.

Observa-se, entretanto, que na época atual quem faz uma quadra, uma tirada dessas bagatelas que por aí facilmente correm com o nome de poesia, crê-se logo revestido de uma certa imunidade moral. E é possível chegar um dia em que os gênios reclamem também a imunidade legal —, por que não?

Quando se lhes desculpam as suas tolices, porque são poetas, a sua desonestidade, porque são poetas, é de esperar que muito breve se lhes desculpe também o furto, porque são gênios, defloramento, porque são gênios, e até o assassinato, porque são gênios. Falemos franco.

A poesia rotineira dos nossos dias é a deserção dos princípios morais, é Deus tratado com um certo tom de atrevida familiaridade; é a mulher metricamente seduzida, convidada para presidir ao grande banquete da vida licenciosa, é a criação representada como uma cortesã imensa, cambaleando bêbada no espaço, de taça em punho, atirando ao infinito a gargalhada do deboche.

O poeta, fazendo o inventário da natureza de que ele se mostra rei e senhor, não esquecendo nunca – a brisa que suspira, a florinha que se inclina, o regato que murmura, a onda que beija a praia, etc., etc., tem o ar de dizer a qualquer bela que se lhe antolhe, como Satanás a Jesus: Tudo isto é meu, e eu to dou se te curvares aos meus desejos. É o requinte do desaforo; não tem outro nome. No livro de um poeta deve-se tomar as dimensões de seu crânio e palpar as dores do seu coração. É bem pequenina a cabeça que não aguenta uma ideia nova, grandiosa e aproveitável; bem acanhado o peito que apenas pode conter a mesquinhez de triviais amores. Sufocar, no curso da vida, todas as paixões aviltantes, e deste tormento, dignamente doloroso, fazer brotar os sentimentos nobres que determinam as nobres ações; provocar, interpelar a natureza, cobri-la com um olhar indagador, exigindo-lhe os segredos da sabedoria, e ter em resposta o que outrora ao santo leproso da Idumeia o abismo respondia – non est in me –; amar, procurar unir-se, purificar-se diante de Deus na chama celeste de uma alma de mulher, tudo isto é o assunto da grande, da verdadeira poesia, porque é ao mesmo tempo o assunto da vida do homem de bem.

É de notar a maldição contínua lançada pelos poetas contra os homens positivos. E quem são os homens positivos? Serão aqueles que, ocupados no seu trabalho, não se demoram um instante para escutar as harmonias fantásticas de algum sonhador alemão, para ler uma página de A. Musset e apreciar poeticamente descritos os trejeitos e coleamentos de alguma espanhola voluptuosa, querendo morder como uma fera na estação da berra; para medir com Goethe os pés do hexâmetro no dorso nu de cortesã romana, tudo isto em verso, tudo isto em livros que se espalham, que se louvam, que se animam, que se beijam... serão esses? Oh! então os homens positivos são os homens honestos.”

É uma de suas boas páginas de prosa; o poeta foi sempre mais ou menos fiel a este programa. Bem se vê, que ele nada tinha da languidez e do epicurismo burguês da poesia imoral. Sua musa nunca teve necessidade de desenhar-nos alcances, barregãs, crimes esverdeados, erotismos perpétuos, afrodisíacas pinturas.

Andava distraído com o entusiasmo estético, o sentimento da natureza, o patriotismo e o amor. Dos poetas portugueses, parece-se com João de Deus, de quem tem mais de um traço, e dos brasileiros, com Luís Delfino, de quem tem a elevação das notas, ainda que os exceda a ambos.

É um cantor altíloquo.

Em 1835, escrevia ele as palavras transcritas, condenando as imoralidades do Romantismo. Dez anos depois Guerra Junqueiro, como prólogo da Morte de D. João, pôs alguma coisa de parecido e como quem fazia uma grande revelação.

Tenho sempre associado o nome de Castro Alves ao de Tobias Barreto. Importa mostrar as diferenças entre ambos. Considero-os os dois melhores representantes do lirismo hugoíno no Brasil; ambos têm o tom elevado, que os fez denominar de chefes da escola condoreira. A verdade, porém, deve ser dita com franqueza: tal gênero de poesia nas mãos dos medíocres transformou-se num gongorismo petulante e incorrigível, numa cascata de palavras retumbantes. Era um coaxar incômodo para o ouvido, esterilizador para as ideias. Tobias, nas suas poesias naturalistas, nas amorosas, e nas inspiradas pelo sentimento artístico foi sempre elevado, mas simples; nas ditadas pelo sentimento patriótica, às vezes, foi um pouco exagerado por exigência do assunto.

Castro Alves o foi ainda mais; Tobias o excede na simplicidade e naturalismo.

Um inspirou-se em a natureza, o outro mais no estado de nossa vida social; um cantou os Trovadores das Selvas e o outro o Navio Negreiro, um o Gênio da Humanidade e a Lenda Rústica, o outro o Livro e a América e Pedro Ivo. Não quer isto dizer que Tobias não se inspirasse também no Brasil; inspirou-se e muito, como nos Tabaréus e na Vista do Recife, mas pelo lado popular e patriótico.

Tobias é mais lírico, mais suave, mais terno, quando é amoroso; mais crepitante, quando encara os grandes assuntos. Castro Alves mais incorreto, mais palavroso, mais afetado; este dirige-se aos míseros cativos de preferência; aquele aos homens livres, principalmente. As poesias de Castro são mais para serem recitadas e as de Tobias para serem lidas.

Um é o segundo elo da cadeia, de que o outro foi o primeiro e Vitoriano Palhares o terceiro. O poeta das Espumas Flutuantes foi tido por chefe, por dois motivos principais: o passar-se para o Rio e São Paulo e o ter publicado logo o seu livro. Não esqueçamos, porém, que ele nada teve de inovador, não passando de um sectário de Tobias. Esta é a justiça da história.

Tenho todas as provas deste fato no exame das produções dos dois poetas anteriores a 1862. Tobias começou antes e continuou ainda depois; porquanto, quando ele veio a romper com o Victor Hugo da decadência transformado em profeta, filósofo e político, Castro Alves já dormia o sono do sepulcro. O Victor Hugo das Odes e Baladas e das Orientais continua a ser ainda hoje o mesmo aos olhos do poeta do Ainda e Sempre. O rompimento foi muito posterior à guerra alemã, quando o sergipano dedicou-se ao germanismo. Foi limitado às extravagâncias do vidente como se pôde ver no artigo Auerbach e Victor Hugo. Com estas considerações tenho em mira firmar a verdade dos fatos e não menosprezar, veja-se bem, o merecimento do poeta baiano em quem sempre verei um grande talento, que muito fez, e ainda mais se teria avantajado, se a morte o não houvesse retirado da arena de nossas lutas e se ele quisesse estudar. Deve ser julgado com a verdade e não precisa de ser cercado de uma auréola falsa para ter valor aos nossos olhos. E oxalá todos lhe rendessem o preito desinteressado da justiça. Desta é que precisamos todos, os mortos ainda mais que os vivos.

Tobias Barreto que, como poeta, tem trabalhado no vasto período de vinte e oito anos, não tem convenientemente defendido o seu lugar, e, nem sequer, reuniu jamais suas produções em livros. Os que, porém, vivem em Pernambuco sabem perfeitamente que ele tem sido um trabalhador infatigável no jornalismo e tem tomado parte ativíssima em todas as lutas literárias ali travadas... Castro Alves representou, no terreno da poesia, um papel que foi dele: o de propagador na Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, onde criou adeptos, do movimento iniciado por Tobias no Recife.

Tal a sua missão histórica que deve ser consignada e que ninguém se lembra de lha tirar.

***

Vejamos por último a natureza íntima do talento poético do solitário da Escada. O livro que sai agora dos prelos, divide-se em cinco partes, contendo cinco categorias diversas de inspirações: naturalistas, amorosas, patrióticas, estéticas e satíricas. Esta divisão não é caprichosa; origina-se da qualidade mesma das composições. O poeta nunca teve a poesia como uma profissão de vida. Têm-na como tal, certos monomaníacos, que entendem, lá de si para si, que são poetas, por graça de Deus ou do diabo; que julgam ter necessidade de fazer versos, como outros julgam que não podem viver sem purgar-se a miúdo. É uma coisa terrível a mania do versejador de profissão, que se concentra para acumular rimas e rimas e compor longas máquinas de martírio, verdadeiras polés para o leitor, como a Independência do Brasil ou a Confederação dos Tamoios. Tobias Barreto nunca fez planos, nem cogitou em vastas obras. A poesia para ele era uma questão de festa, de alegria, de divertimento.

Nessas ocasiões poetava, como um pássaro canta ao clarão matinal. Tal o verdadeiro poeta, aquele que só escreve para vazar no papel alguma coisa que nele trasborda, ou seja a tristeza, ou o entusiasmo. Tobias Barreto é um desses destemidos

Corações acrisolados
No brasileiro sentir...

é um desses meridionais, sonhadores, descuidosos, que pegam fogo por qualquer coisa.

Qualquer que seja a doutrina que se professe sobre a natureza da poesia, não se lhe pode negar que ela é a vida em geral, a natureza e o homem, interpretados pelo sentimento. As grandes criações da humanidade não passam de quatro: a ciência, a filosofia, a religião e a arte.

A ciência é o universo interpretado pelo raciocínio e pela observação; a filosofia e a sua síntese racional; a religião é a origem, a causa primeira, o desconhecido em face de nossa pequenez e do acanhado de nossos conhecimentos; a arte em geral e a poesia, em particular, vem a ser tudo isso de que se ocupam as outras, mas tudo diante das emoções que em nós se despertam pelo espetáculo das coisas, pelas peripécias da vida. A poesia é isto. Como tal, ninguém a sentiu melhor do que o poeta dos Dias e Noites.

Dessa sua qualidade essencial originou-se justamente o seu maior defeito, que consistiu sempre e sempre em baratear o seu talento. E para impressionar o entusiasmo enorme de que Tobias deixava-se apoderar diante de uma atriz ou de um cantor medíocre. A fonte perene do sentimento é nos poetas, às vezes, um inconveniente: o arderem não raro por uma coisa insignificante. Em tudo acham um encanto, um motivo para um trasbordamento. Tobias é destes; tudo a seus olhos toma proporções excepcionais.

O Brasil e a jovem pátria de heróis, a Tamborini tem frases de ouro na boca; o rebequista Muniz Barreto é o gênio que ser maior e morrer; o Recife é a cidade das galhardias, da raça das Romas tombadas e das Babilônias em pó...

Ao través do sensório do poeta as coisas e os fatos se avolumam; o inspirado só pode cantar o que é grande, e, quando o objeto é pequeno e vulgar, a imaginação supre o que lhe falta em grandeza.

É um exagero sublime; mas sempre um exagero. Bem haja aos poucos que dele são capazes; porque são os verdadeiros poetas. A arte só é possível sendo vaga, geral, indeterminada, e, para tudo dizer numa palavra, sendo em certo sentido falsa. A poesia é sempre falsa cotejada com a realidade, que lhe está sempre abaixo ou acima; mas é sempre verdadeira cotejada com o estado emocional do poeta, que é, até certo ponto, um visionário.

Tobias Barreto, eu o julgo admirável nas suas poesias gerais e naturalistas, como o Gênio da Humanidade, a Caridade, a Lenda Rústica, os Tabaréus, os Trovadores das Selvas, Oito Anos, a Polca, e outras. Aí seu talento é realista, objetivista.

Nas poesias amorosas, ainda o aprecio quase tanto por ser sempre lúcido e verdadeiro.

As inspiradas pelo sentimento estético desperto pelos espetáculos e festas, a que assistia, me agradam especialmente como modelos de força e de graça, como tipos de metrificação.

Os cânticos patrióticos são alguma coisa de original, que não encontra muitas congêneres em todas as literaturas. Aquele falar tem algo de desusado; são frases vibrantes, que se enterram como dardos acerados; ali há a limpidez das espadas, o silvo das balas e o troar dos canhões. Tobias criou e matou este gênero; depois dele é uma inocência querer tentá-lo de novo. E, todavia, não são para mim as suas melhores produções; acho-o ainda superior nas primeiras.

As satíricas são em pequeno número; o poeta devia cultivar mais amiúde o gênero; porque pelo Rei reina e não governa se conhece que ele pôde fazer muito ali.

As artes vivem essencialmente pelo prestígio da forma; o estilo é quase tudo em poesia. Neste ponto, o poeta da Lenda Rústica tem uma feição própria, consistente em um certo laconismo forte e rútilo. Pode-se bem vê-lo na seguinte estrofe de 1861 de um Quadro Histórico sobre a guerra holandesa; cito de propósito esse tópico tirado das composições mais antigas:

Barreto diz: — Somos poucos
De encontro ao troço holandês;
Que vamos fazer, oh loucos?!
Morrer inglórios, talvez!
— General, brada Vieira,
Foi minha a ideia primeira,
O passo primeiro, é meu...
Morreremos neste extremo...
— Camarão ruge: não temo!
Henrique Dias: nem eu!

Eis aí todo um complicado diálogo comprimido numa estrofe. Em todas as suas poesias, além de tudo, o nosso autor nunca usou de uma só palavra peregrina, cujo significado se tenha de ir procurar no dicionário; seus termos são simples e vulgares; é a língua singela e rutilante do povo.

Sílvio Romero
Da Edição de 1881, publicada pela Imprensa Industrial Editora.
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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