quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A casa de bonecas (Conto), de Katherine Mansfield



A casa de bonecas

De volta a sua na cidade, depois do uma temporada em companhia dos Burnell, a velha o querida Mrs. Hay enviara às crianças uma casa de boneca — tão grande que o carregador a Pat tiveram de levá-la para o pátio onde ficou em cima de dois caixotes, ao lado da dispensa. Como era verão, ali ficaria livre de risco. E quando fosse trazida para dentro, talvez já tivesse perdido o cheiro de tinta fresca que, na opinião da Tia Beryl, era o bastante para deixar a uma pessoa seriamente doente, mesmo mantendo o presente embrulhado. Ao desembrulhá-lo, então... "Mas que gentileza! Que generosidade de Mrs. Hay!”

 A casinha era pintada, a óleo em tom verde-espinafre, salpicado de amarelo e as duas pequeninas chaminés, coladas ao teto, em branco e vermelho; a porta, reluzente de verniz amarelo, parecia de caramelo. Quatro janelas, janelas de verdade, como uma larga lista verde separando as almofadas. Tinha até uma varandinha amarela deixando ver, ao longo da grade, bolhas de tinta endurecida.

Era realmente perfeita a casinha! Ora! que importância tinha o cheiro? Era até um prazer e uma novidade a mais.

— Vamos abri-la já!

Pat levantou o ganchinho do lado com a ponta do canivete, e a frente da casa se abriu, mostrando todo o seu interior — a sala de visitas, a sala de jantar, a cozinha e os dois quartos. Assim é quo todas as casas se deveriam abrir! E por que não? Seria muito mais interessante do que espreitar pela fresta de uma porta para dentro de um modesto "hallzinho" com um porta-chapéus e dois guarda-chuvas. E é justamente isso que desejamos ver quando levamos a mão à campainha de uma porta, não é mesmo? Talvez até seja esta a maneira de Deus abrir as casas no silêncio da noite, quando sai para dar uma volta acompanhado de um anjo...

— Oh! Oh! — gritavam as garotas como se estivessem desesperadas.

O presente fora maravilhoso demais para elas. Nunca haviam visto coisa igual. Todas as paredes forradas de papel; e quadrinhos pintados sobre papel com molduras douradas e tudo. Um tapete vermelho, cobria todo o soalho, exceto o da cozinha; na sala de visitas, cadeiras estofadas de vermelho, e de verde, na sala de jantar; mesas, camas cobertas de colchas de verdade, um berço, um fogão, um armário com pratinhos e um jarro grande. Mas o que mais agradou a Kézia, o que ela achou mais lindo, foi a lâmpada no meio da sala de jantar; era um primor a lampadazinha cor de âmbar com o globo branco — já cheia; pronta para ser acesa, o que não se podia fazer, é claro; dentro havia um líquido semelhante a óleo que se mexia ao ser sacudido.

Os bonecos — pai e mãe — recostados muito tesos na sala de visitas, como se tivessem desmaiados, e seus dois bebês adormecidos no andar de cima, eram, sem dúvida, grandes demais para aquela casinha. Mas a lâmpada era sem tirar nem pôr... Parecia sorrir a Kézia, dizendo-lhe: "Eu moro aqui"... Era uma lâmpada de verdade.

Na manhã seguinte, ao dirigir-se para a escola, as, meninas não conseguiram andar tão depressa quanto desejavam. Ansiavam por, contar às colegas a novidade, descrever a casa — enfim, por se vangloriarem dela antes de soar a sineta.

— Quem vai contar sou eu disse Isabel — porque sou a mais velha. Vocês duas poderão dizer o que quiserem depois, mas eu serei a primeira.

Não valia a pena discutir. Isabel gostava de ser mandona, mas tinha sempre razão. Lottie e Kézia conheciam bem os privilégios conferidos à mais velha. Sem nada dizer, puseram-se a caminho apressadamente por entre os ramos de botões de ouro, que cresciam à beira da estrada.

— Eu é que vou escolher quem deve vir ver a casinha primeiro. Mamãe deu licença.

Tinha sido combinado que, enquanto a casa de boneca estivesse no pátio, elas convidariam as amigas, duas de cada vez, para virem vê-la, desde que não ficassem para o chá nem se pusessem a saltar pela casa; poderiam olhar quietinhas no pátio enquanto Isabel enumerava as maravilhas, e Lottie e Kézia contemplavam, encantadas...

Apesar de toda a pressa, porém, o som meio desafinado da sineta já se fazia ouvir no momento em que chegaram à cerca pintada de piche que separava o pátio aos meninos. Só tiveram tempo de arrancar os chapéus e entrar na fila antes de ser iniciada a chamada. Não fazia mal. Para compensar, Isabel tratou de assumir ares de importância e mistério, cochichando para as colegas mais próximas.

— Tenho grande novidade para contar na hora do recreio..

Chegou a hora da merenda e Isabel se viu rodeada. As companheiras de classe quase brigavam para abraçá-la, passear com ela, sorrir-lhe aduladoramente; enfim, parecerem amigas íntimas.

Formara-se verdadeiro cortejo sob os pinheiros, ao lado do pátio de recreio. Acotovelando-se, sacudidas por risadas infantis, as meninas fecharam um círculo apertado. Excluídas só ficaram as duas de sempre — as Kelvey; e elas sabiam que não convinha aproximar-se das Burnell.

O fato e que a escola frequentada pelas Burnell não era em absoluto a que seus pais teriam escolhido, se houvesse sido possível optar por outra. Era, porém, a única nas redondezas. Por Isso, todas as crianças da vizinhança, as filhinhas do juiz, as do médico, os filhos dos comerciantes, do leiteiro, eram forçados àquela convivência nem sempre muito recomendável. Isso para não falar nos meninos mal-educados e grosseiros. Mas era forçoso haver certo limite de tolerância — as Kelvey ficavam fora dessa linha divisória. Muitas das meninas não tinham permissão nem mesmo para falar com elas, as Burnell inclusive, e como eram estas que "davam a nota" em questão de conduta, todas as outras passaram a evitar as pobrezinhas. Até mesmo a professora tinha um modo especial de dirigir-se a elas, e um sorriso especial para as outras meninas, quando, Lil Kelvey se aproximava de sua mesa trazendo-lhe um ramalhete de flores horrivelmente vulgares.

Essas meninas eram filhas de uma mulher robusta e trabalhadora que andava de casa em casa lavando roupa. Como se isso não bastasse, havia ainda; Mr. Kelvey. Por onde andaria? Ninguém sabia ao certo, mas todos diziam que estava preso. Elas eram pois filhas de uma lavadeira e um presidiário. Que bela companhia para as outras crianças! E que figuras extravagantes! Ninguém compreendia porquê Mrs. Kelvey as vestia de maneira tão espalhafatosa. A verdade é que os vestidos das garotinhas eram feitos de retalhos dados pelas pessoas para quem a mãe trabalhava. Lil, por exemplo, menina feia e desenvolvida, cheia de enormes sardas, ia à escola com um vestido de uma sarja verde que sobrara de um pano de mesa dos Burnell, com mangas de pelúcia vermelha, das cortinas dos Logan. Seu chapéu, colocado no alto da testa, era um chapéu de senhora que pertencera a Miss Lecky, a agente do correio. Tinha a aba dobrada atrás, e como enfeite uma grande pena escarlate. Que criaturinha grotesca! Era impossível conter o riso. E sua irmãzinha, a nossa Else, metida num vestido branco muito comprido que uma camisola de dormir e numas botas de menino dava a mesma triste impressão. Aliás qualquer coisa que nossa Else usasse, seu aspecto seria sempre, bisonho. Era uma criança miudinha, o peito saliente, os cabelos rentes e um par de olhos enormes e solenes — uma verdadeira corujinha branca. Nunca a viram sorrir e quase nunca falava. Segurando a sala de Lil, seguia-a por toda parte. Onde quer que Lil estivesse, era sempre acompanhada de nossa Else. No recreio, na estrada, indo e voltando da escola, lá ia Lil na frente e Else atrás, segurando-a pela saia. Quando esta desejava alguma coisa ou se sentia cansada, dava um puxão em Lil e esta parava e se virava. As Kelvey sempre se entenderam muito bem.

Enquanto as meninas conversavam animadamente, as duas rondavam por ali; não se podia evitar que ouvissem. Se uma ou outra se voltava, olhando-as desdenhosamente, Lil respondia com seu sorriso apalermado e humilde; nossa Else limitava-se a olhar.

E a voz de Isabel, tão cheia de orgulho, continuava descrevendo. O tapete causou grande sensação, assim como as camas com colchas verdadeiras e o fogão com ama portinha no forno.

Quando ela terminou; Kézia aparteou:

— Você se esqueceu da lâmpada, Isabel.

— Ah! sim, — disse Isabel — há ainda uma pequenina lâmpada amarela com um globo branco, em cima da mesa da sala de jantar, igualzinha a uma lâmpada de verdade.

— O melhor da casa é a lâmpada. — exclamou Kézia. Na sua opinião, Isabel não estava fazendo justiça à lâmpada, mas ninguém lhe dava mais atenção; Isabel já tinha passado à escolha das duas que deviam voltar com elas naquela tarde para ver a casa. Emmie Cole e Lena Logan foram as escolhidas; mas, quando as outras souberam que também teriam a sua vez, desdobraram-se em gentileza com Isabel. Uma por uma passavam o braço ao redor de sua cintura e a atraíam para um canto segredando-lhe.

— Sou sua amiga, Isabel.

Só as Kelvey continuavam à parte, esquecidas; nada mais havia que elas pudessem ouvir.

Passaram-se dias e quanto maior o número de meninas levadas a ver a casa mais se espalhava sua fama. Fez furor, tornou-se o único assunto. Em todas bocas, a mesma, pergunta:

— Já viu a casa de boneca das Burnell? Não é linda?

— Ainda não viu? É pena!

Até mesmo a hora do jantar era dedicada aos comentários sobre a casa de boneca. As meninas, sentadas à sombra dos pinheiros, comiam grossos sanduíches de carne de carneiro e grandes fatias de bolo com manteiga. Como sempre, tão perto quanto possível, lá estavam as Kelvey; nossa Else sempre agarradinha a Lil, ouvindo atentamente e mastigando seus sanduíches de geleia embrulhados em jornal cheio de manchas vermelhas...

 — Mamãe — perguntou Kézia certo dia — posso convidar as Kelvey só uma vez?

— Claro que não, Kézia.

— Mas por quê?

— Deixe de perguntas, menina. Você sabe muito bem qual a razão.

Por fim, todas haviam visto a casa, com exceção das duas. Naquele dia o assunto já tinha perdido em parte o seu encanto. Era a hora do jantar. As meninas achavam reunidas debaixo dos pinheiros e, de repente, ao verem as Kelvey comendo, como de costume, os sanduíches que traziam embrulhados em papel, sempre arredias, sempre de ouvido atento, sentiram-se tentadas a fazer-lhes uma tremenda maldade.

Emmie Cole, começou a cochichar:

— Lil Kelvey vai ser uma criada quando do crescer.

— Ih! que horror! disse Isabel Burnell, olhando significativamente para Emmie, que fez com a boca um trejeito expressivo, sacudindo a cabeça para Isabel, tal qual sua mãe fazia em circunstâncias semelhantes.

— É verdade; é sim — disse: ela.

Com os olhinhos lampejantes de sarcasmo, Lena Logan disse em voz baixa:

— Vocês querem que eu pergunte a ela?

— Aposto como você não tem coragem — desafiou Jessie May.

— Ora essa! eu não tenho medo delas — respondeu Lena que deu de repente um grito fino e começou a dançar defronte das outras meninas. — Olhem para mim! Olhem para mim agora! — E deslizando, escorregando, arrastando um pé e rindo com a mão na boca, foi até onde estavam as Kelvey.

Lil olhou-a e tratou de embrulhar rapidamente o resto de seu jantar. Nossa Else parou de mastigar. Que iria acontecer?

— É verdade que você vai ser uma criada quando crescer? — gritou Lena
com voz fina.

Silêncio de morte. Em vez de responder, Lil sorriu o seu sorriso triste e apalermado. A pergunta não pareceu afetá-la. Que decepção para Lena. Ela não podia suportar aquilo. Pondo as mãos nas cadeiras, atirou-lhes em rosto, com desprezo;

— Seu pai está na prisão.

Era tão maravilhoso haverem tido a coragem de dizer aquilo, que as meninas se retiraram todas juntas, profundamente excitadas, tomadas de uma alegria maldosa. Uma delas encontrou uma corda e começaram a pular. Nunca pularam tão alto, correram tão depressa, nem fizeram coisas tão ousadas como naquela manhã.

À tarde, Pat levou as Burnell para casa no tílburi. Havia visitas. Isabel e Lottie, que gostavam de visitas, subiram para mudar de roupa e Kézia escapuliu pelos fundos. Não havia ninguém; a pequena começou-a balançar-se no portão do pátio, quando viu aproximando-se, pela estrada, dois pequenos pontos. Foram crescendo e vinham na sua direção. Já mais próximos, pôde ver que um vinha na frente e outro atrás e reconheceu enfim as Kelvey. Kézia parou de balançar e bateu o portão como se fosse fugir. Depois parou, indecisa; As Kelvey estavam cada vez mais perto; ao seu lado, suas sombras muito compridas se estendiam pela estrada indo até aos galhos de botões de ouro. Kézia agarrou-se de novo ao portão; estava decidida; acenou para as meninas que passavam, gritando.

— Olá!

A surpresa foi tão grande que elas estacaram subitamente, Lil com o perene sorriso atoleimado, a pequena Else olhando atônita.

— Vocês podem entrar para ver nossa casa de boneca, se quiserem — disse Kézia, arrastando no chão um dos pés. Mas Lil, enrubescendo, sacudiu logo a cabeça negativamente.

— Por que não? — indagou Kézia.

Lil, prendendo a respiração, emocionada, respondeu:

— Sua mãe disse a nossa mãe que vocês não podem falar conosco.

— Ora! exclamou Kézia, sem saber o que responder. —Não faz mal. Isso não impede que vocês venham vê-la. Entrem. Ninguém está vendo.

Mas Lil sacudiu a cabeça ainda com mais violência.

— Não querem mesmo?

De repente, um puxão sacudiu a saia de Lil, que se virou. Nossa Else olhava-a implorando com seus grandes olhos, numa expressão de zanga; ela queria entrar. Por um momento, Lil olhou para a irmã, dominada por uma dúvida, mas Else sacudiu-lhe de novo a saia e ela resolveu entrar. Kézia foi na frente, seguida pelas duas, que mais pareciam dois gatos sem dono; assim atravessaram o pátio na direção da casa de boneca.

— Vejam!

Houve uma pausa. Lil respirava alto, quase bufava, enquanto Else permanecia muda como uma pedra.

— Vou abri-la para vocês verem — disse Kézia com bondade. Levantou o ganchinho e elas olharam.

— Aqui está a sala de visitas, a gala de jantar e esta é...

— Kézia!

Chi! Que susto!

— Kézia!

Era a voz da tia Beryl. As três se voltaram. Na porta dos fundos estava a tia Beryl estupefata, como se não pudesse acreditar no que via.

— Como se atreveu a trazer as Kelvey ao pátio? — perguntou com voz fria e furiosa. — Você sabe tão bem quanto eu que não tem permissão para conversar com elas. Saiam daqui, crianças, imediatamente. E não me apareçam mais.

Vero para o pátio e enxotou-as como se fossem galinhas.

— Para fora, já! — gritou, fria e orgulhosa.

Não foi necessário repetira ordem. Envergonhadas e trêmulas, Lil, precipitada como sua mãe, e Else meio tonta, atravessaram o grande pátio e esgueiraram-se pelo portão branco.

— Menina desobediente e insuportável — disse Beryl a Kézia com azedame, fechando violentamente a casa de boneca.

Aquela tarde fora horrível. Recebera uma carta de Willie Brent, carta assustadora, ameaçando-a de, caso não prometesse encontrar-se com ele naquela tarde em Pulman’s Bush, viria a sua casa indagar qual a razão! Mas agora depois que ela havia expulsado as malditas Kelvey e repreendido Kézia severamente, sentia o coração mais leve. Aquela terrível pressão desaparecera. Voltou para casa cantarolando baixinho.

Quando as Kelvey estavam já bem longe da casa dos Burnell, sentaram-se para descansar num grande cano de esgoto vermelho, ao lado da estrada. Lil tinha da as faces ardendo; tirou o chapéu com as penas e colocou-o sobre o joelho. Como em sonho, olhavam por sobre as pastagens de feno, para além do riacho, para o grupo de virgultas onde as vacas do Logan esperavam para ser ordenhadas. Por onde andariam seus pensamentos? Nossa Else chegou-se à irmã, tocando-a mansamente. Já esquecera a brutalidade da moça. Pôs o dedo na pena do chapéu com um de seus raros sorrisos:

— Eu vi a lampadazinha — disse docemente.


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Tradução de: Marina Amaral Brandão.
Jornal Correio da Manhã, 2 de abril de 1950 (Ilustração de Yllen Kerr).
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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