quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Folha de Álbum (Conto), de Katherine Mansfield




Folha de Álbum

Era, verdadeiramente, um personagem impossível. Tímido demais, sem nada para dizer, absolutamente. E que peso! Uma vez instalado em vosso atelier, não sabia mais como sair, até que vos fizesse quase gritar; tínheis vontade, assim que ele se retirava afinal, encabulado, de atirar em cima dele qualquer coisa enorme — o fogão, por exemplo. Mas, o curioso é que, à primeira vista, ele parecia muito interessante. Todo mundo estava de acordo. Indo ao café, à tarde, podereis descobrir um jovem magro e moreno, vestido de uma camisa azul debaixo de um paletó cinzento abotoado, sentado num canto, em frente a uma xícara de café. De qualquer maneira, essa camisa azul e esse paletó cinzento de mangas curtas lhe dava ar de rapaz resolvido a suicidar-se mar e que, na realidade, se suicidaria. Daqui a pouco ele se vai levantar, dependurar na ponta da bengala o lenço amarrado contendo a camisola de dormir e o retrato de sua mãe, sair a afogar-se. Ele cairá mesmo da beira do cais dirigindo-se para o seu navio... Tinha os cabelos pretos cortados rente, olhos cinzentos de pestanas longas, faces pálidas e uma boca que fazia beicinho, decidida a não chorar... Haveria a possibilidade de resistir, pergunto eu? A sua presença apertava o coração e, como se isso não bastasse, havia ainda aquela mania de enrubescer... Todas as vezes que o rapaz se acercava de alguém, tornava-se escarlate.

— Que é isso, querida? Sabeis qualquer coisa?

— Sim, ele se chama Ian French. Dizem que é um pintor de muito talento.

E logo uma daquelas senhoras começou por lhe dispensar os enternecidos cuidados de uma mãe. Perguntou-lhe quantas vezes recebia notícias de sua casa, se tinha bastantes cobertas para a cama e quanto de leite tomava por dia. Mas, quando ela foi ao seu atelier examinar as meias, cansou-se de tocar a campainha: ninguém abriu a porta, apesar de que ela juraria ouvir alguém respirar no interior... Desesperador!

Uma outra decidiu que seria bom que ele se apaixonasse. Puxou-o para junto de si, chamou-o "meu pequeno", apoiou-se sobre ele, para fazê-lo respirar o perfume embriagador dos seus cabelos, pegou-lhe o braço e disse-lhe quanto a vida seria maravilhosa se tivessem coragem; afinal, resolveu passar no seu atelier uma noite. Cansou-se de tocar a campainha... Desesperador!

— Esse pobre rapaz tem sobretudo necessidade de ser estimulado — declarou uma terceira. — Foram juntos aos cafés e aos cabarés, nos lugares onde se bebe qualquer coisa com o gosto de sumo de abricó de conserva, mas que custa vinte e sete xelins a garrafa e que se chama champanhe. Depois, em outros lugares tão excitantes que nem se pode dizer. A gente se senta numa escuridão horrível: justamente no lugar onde alguém foi assassinado na noite da véspera. Nem um cabelo de Ian se mexeu. Somente uma vez ele se embebedou bastante, mas em vez de se animar, conservou-se sentado, imóvel como um poste, duas manchas vermelhas nas faces, uma verdadeira imagem do "ragtime" que se tocava, a "Boneca Quebrada". Mas quando a sua companheira o acompanhou ao atelier, de volta, ele já recobrara os sentidos e despediu-se em baixo, na rua, com um "boa-noite" indiferente como se voltassem juntos da igreja... Desesperador!

Só depois de uma infinidade de tentativas — porque o espírito de bondade morre dificilmente nas mulheres — renunciaram a ele. Naturalmente elas eram ainda perfeitamente encantadoras, convidavam-no para as suas exposições, brincavam nos cafés, mas não passava disso. Quando se é artista não se tem tempo a perder com as pessoas que não correspondem às tentativas da gente, não é mesmo?

— E depois, creio sinceramente que existe nisso tudo qualquer coisa de suspeito... Você não acha? Isso não pode ser tão inocente quanto parece. Para que vir a Paris se ele quer conservar-se como um lírio nos campos? Não, eu não sou desconfiada, mas...

Ele morava num desses grandes edifícios que parecem tão românticos nas noites de chuva ou de luar, quando estão fechadas as janelas e a pesada porta e que a tabuleta “pequeno apartamento para alugar" se lê com uma inexprimível melancolia. Um desses edifícios cujo cheiro se conserva tão prosaico de um começo de ano a outro! A encarregada habita uma caixa de vidro no rés-do-chão; envolvida em um xale sórdido, remexe com a colher qualquer coisa em uma caçarola, uma espécie de erva, que ela dá ao velho cão inchado, estendido numa almofada de pérolas... Do atelier, dependurado no ar, tem-se uma vista maravilhosa. As duas grandes janelas se abrem para o rio. Ian pode ver os navios balançando-se e olhar a extremidade de uma ilhota plantada de árvores, como um buquê redondo. A janela do lado dá para outra casa ainda menor e embaixo se acha um mercado de flores. Podereis examinar as barracas em que se vendem plantas em caixas e palmas úmidas, luzentas, em potes de terra cota. Mulheres velhas andam de um lado para o outro, como tartarugas, entre flores. Certamente não havia necessidade de sair; ele poderia ficar lá, em sua janela, anos e anos, o tempo necessário para que sua barba branca caísse sobre o peitoril, e achando ainda qualquer coisa para desenhar...

Que espanto para essas ternas mulheres se elas chegassem a forçar a porta! Porque Ian French tinha o seu atelier limpo como um níquel novo. Todo ele era arranjado como para formar um desenho, uma pequena natureza morta, se preferem; as caçarolas arrumadas atrás do forno de gás, com suas tampas; a terrina de ovos, o pote de leite e o bule de chá sobre a prateleira; os livros e a lâmpada, com seu abajur de papel ondulado, em cima da mesa. Uma cortina de tecido da Índia, sobre a qual corriam leopardos vermelhos, cobria o leito de dia, e, na parede, ao lado, ao nível dos olhos quando se estava deitado, pendia um letreiro cuidadosamente impresso: “Levanta-te logo".

Quase todos os dias se pareciam uns com os outros. Enquanto a luz estava boa, ele pintava. Depois, cozinhava sua comida e punha tudo em ordem. À noite ia ao café ou então ficava em casa lendo ou fazendo orçamentos de despesas complicadas com o seguinte título: "Dinheiro com que eu devia contentar-me" e esta promessa: "Juro não gastar este total no próximo mês". Assinado: Ian French.

Nada de comprometedor nisto tudo, mas aquelas mulheres astuciosas tinham razão: havia outra coisa.

Uma tarde, sentado perto da janela lateral, ele comia ameixas, jogando os caroços sobre os enormes guarda-chuvas do mercado das flores deserto. Tinha chovido. A primeira chuva verdadeira da primavera acabava de desabar. Tudo estava salpicado de lantejoulas: o ar cheirava a brotos verdes de terra úmida. Vozes calmas, satisfeitas, ressoavam no crepúsculo. As pessoas que vinham fechar as venezianas trocavam ideias e se debruçavam para fora. Embaixo, no mercado, tudo se coloria de verde-novo. O acendedor de lampiões se aproximava. Ian reparou na casa em frente, pequena, em ruínas. De repente, como resposta ao seu olhar, duas folhas da janela se abriram e uma moça, carregando um vaso de narcisos, apareceu na minúscula sacada. Extremamente magra, vestia um avental escuro; um lenço cor de rosa envolvia-lhe a cabeça e as mangas, arregaçadas até perto dos ombros, deixavam-lhe à mostra os braços franzinos, contrastando com o pano escuro.

— Sim, está fazendo muito calor, isso vai fazer-lhes bem! E, depositando o vaso de flores, voltou-se para alguém que estava no interior, levantando as mãos para prender os cabelos no lenço. O seu olhar correu pelo mercado embaixo, depois pelo céu, sem reparar na casa da frente. Poderia não existir o lugar onde Ian French estava sentado. Depois, ela desapareceu.

O coração de Ian despencou da janela do atelier para a sacada e mergulhou no vaso de narcisos no meio de botões entreabertos e as hastes verdes. O quarto com a sacada era a sala de estar e o outro ao lado era a cozinha. Ele ouvia o barulho da louça que se lavava depois do jantar. Depois a moça se aproximava da janela, sacudiu o esfregão da louça e o dependurava num prego para secar. Nunca foi vista soltando os cabelos, cantando ou estendendo os braços para a lua, como fazem sempre as donzelas. Vestia sempre o mesmo avental escuro, o mesmo lenço cor de rosa na cabeça. Com quem vivia? Ninguém, senão ela, aparecia naquelas duas janelas. E, no entanto, ouvia-se que falava continuamente com alguém. Ele imaginou que a mãe dela estava doente, que as mulheres faziam costura, que o pai tinha morrido... Tinha sido jornalista, muito pálido, com longos bigodes; uma placa de cabelos pretos caía-lhe sobre a testa.

Trabalhando todos os dias, elas tinham continuamente com que viver, mas nunca saíam e não tinham amigos. Ultimamente, quando Ian se sentava à mesa, tomava nota de uma longa série de promessas; "Não ir à janela do lado antes de uma certa hora”. Assinado: Ian French. "Não pensar nela antes de guardar os seus pincéis no fim do dia". Assinado: Ian French.

Era bem simples: essa pessoa era a única que ele desejava conhecer, o único ser vivo do mundo, decerto que tivesse exatamente a sua idade. Não suportava as moças caçoístas e não sabia o que fazer com as mulheres feitas... ela tinha a sua idade... ela era... exatamente como ele. Sentado no seu atelier escuro, cansado, um braço caído sobre o espaldar da cadeira, olhava fixamente para a janela debaixo e se sentia junto dela. Às vezes brigavam seriamente, pois ela tinha caráter violento, uma maneira de bater os pés e de torcer as mãos no avental... furiosa! O seu riso, muito raro, só se ouvia quando contava histórias do seu absurdo gatinho que se zangava pretendendo ser um leão, quando se lhe dava carne para comer — ou outras histórias desse gênero... Mas habitualmente estavam juntos, bem sossegados, ele, sentado como está agora, e a moça, as mãos cruzadas no colo e os pés para trás. Conversavam baixinho, silenciosos e cansados, depois trabalho diário. Certamente nunca se cogitava dos seus quadros e ela detestava os seus maravilhosos retratos feitos por ele, achando que estava muito magra e muito escura... Mas como chegaria a conhecê-la? Isso poderia durar anos do mesmo jeito...

Ian descobriu então que uma, vez por semana, à tarde, ela saía para fazer suas compras. Duas quintas-feiras viu-a à janela, com uma capa fora da moda, carregando um cesto. Do lugar onde estava, era impossível ver a porta, mas, quinta-feira seguinte, à mesma hora, tomou o boné e desceu as escadas correndo. Uma luz rósea envolveu tudo, o rio estava cor de brasa e a gente, que caminhava em sentido contrário, tinha caras e mãos róseas.

Esperou-a encostado à parede da casa onde morava sem a menor ideia do que faria ou diria. "Ela vem vindo!” murmurou-lhe uma voz interior. Ela andava depressa, com passos curtos, leves; com uma das mãos carregava os cestos, com a outra segurava a capa... Não havia outra coisa senão segui-la. Ela começou por entrar no armazém e ali ficou muito tempo, depois no açougue, onde fez cauda esperando a sua vez. Ficou uma eternidade numa loja, depois comprou um limão num fruteiro. Quanto mais Ian examinava a moça, mais necessidade tinha de conhecê-la imediatamente. O seu sangue frio, o seu ar sério, a sua solidão, e até o seu de jeito de andar, como se tivesse pressa ir para longe daquela gente, tudo parecia a Ian muito natural, inevitável.

— Sim, ela é assim, pensou com orgulho. Nós nada temos de comum com essa gente.

A moça voltava agora para casa e Ian continuava sempre tão longe... Ela voltou-se bruscamente e entrou na leiteria. Através da vitrina, Ian viu-a comprar um ovo, escolhê-lo na cesta com tanto cuidado!  — um ovo avermelhado, admiravelmente formado, exatamente o mesmo que ele teria escolhido. Assim que ela saiu, ele entrou. Um instante depois, continuava a segui-la. Passaram a casa de Ian, atravessaram o mercado de flores, evitando os enormes guarda-chuvas, pisando as flores caídas e as marcas redondas deixadas pelos vasos... Ele foi seguindo de  perto, passou o umbral da porta, subiu pela escada, dando os passos ao mesmo tempo que a rapariga para não chamar a da atenção. Enfim, ela parou no patamar da escada e tirou a chave da bolsa. No momento em que a colocava na fechadura, ele saltou e postou-se diante dela. Corando, mais escalarte do que nunca, disse-lhe com um olhar duro, quase num tom de raiva:

"Desculpe-me, mas a senhorita deixou cair isto".

E apresentou-lhe um ovo.


---

Tradutor desconhecido, in: Revista Vamos Ler!, 29/12/1938 (Desenho de Jerônymo)Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...