sexta-feira, 23 de novembro de 2018

As confissões do Pastor Matias (Conto), de Iba Mendes



As confissões do Pastor Matias
Tinha Matias vinte e cinco anos quando se converteu à religião evangélica, tornando-se logo um fervoroso pentecostal e um rígido defensor do que chamava de “sã doutrina”. Não usava bermuda nem outras roupas que tomava por “mundanas”. Desfez-se da televisão e quebrou todos os seus velhos LPs de rock, incluindo sua tão cobiçada coleção de Pink Floyd.
— É o diabo encaixotado! dizia, referindo-se ao aparelho de TV.
Parou de fumar e não frequentava mais os botecos. O futebol, que sempre fora sua grande paixão, também foi deixado de lado, e o sexo ficou só para depois do casamento.
Debalde tentou converter a namorada, que temia abandonar o terreiro de Umbanda e ser punida pelos orixás. Em consequência disso rompeu ele o namoro, alegando que não podia haver comunhão entre a luz e as trevas. Ia procurar uma mulher santa e submissa à palavra de Deus.
— O Senhor vai preparar outra, tentava legitimar assim sua atitude aos parentes, que não se conformavam com tão brusca e extremada conduta.
Dois anos depois de convertido, foi consagrado ao posto de Diácono. A essa altura já tinha encontrado sua “Rebeca”, termo que, no jargão evangélico, identificava a mulher “preparada por Deus”. Seu nome era Sabrina.
Sabrina era virgem e orçava pelos seus trinta anos de idade. Foi Matias seu primeiro namorado. Conheceram-se num culto de vigília. Oraram, olharam-se e amaram-se. Casaram um ano depois, com a bênção de Deus e do pastor Jaime.
Já no início do consórcio Matias mostrou-se obstinado e exigente para com a mulher, proibindo-lhe o uso de qualquer roupa ou objetos considerados por ele como vaidosos ou mundanos, incluindo aí calças, brincos, pulseiras, colares, anéis e outras bijuterias. Não lhe permitia ainda que fizesse uso de anticoncepcional ou seja lá qual fosse o método contraceptivo, e justificava tudo recorrendo à Bíblia.
— Ora, não diz a Palavra de Deus “crescei e multiplicai?”
Pela rigorosa doutrina do Matias, não era ainda permitido à mulher depilar as pernas ou fazer as sobrancelhas. O uso de esmaltes também não era tolerado. A estas regras seguiam-se outras, como a proibição do salto alto e das botas até o joelho.
— A mulher de Deus tem de ser santa. Está na Bíblia!
Concomitantemente ao nascimento do primeiro filho, foi ele por fim ordenado pastor. Consta dessa data seu estranho hábito de dormir de paletó e tomar banho de camiseta e bermuda. Os outros cinco filhos vieram logo a reboque, num espaço quase linear de dez anos. Completava-se aí o mandamento bíblico da procriação.
Aos cinquenta anos Matias decidiu fundar sua própria denominação, construindo um pequeno salão num terreno cedido pelo sogro, o qual fora erguido em mutirão pelos próprios membros, cujo número, à época, chegava a quarenta pessoas, entre homens e mulheres.
Foi num culto de domingo que Matias apresentou os primeiros sintomas de uma grave enfermidade que rapidamente o levaria a morte. Sentiu um calafrio na espinha, que veio acompanhado de uma dor intensa e um desmaio alucinante.
O médico deu-lhe o diagnóstico e o tempo que lhe restava de vida:
— Dou-lhe num máximo um mês de vida. Aproveite-a da melhor forma. A medicina não poderá curá-lo. Lamento!...
Foram dias difíceis e angustiantes. Não obstante acreditasse e buscasse por meio da fé a cura para seu corpo, sentia este definhando lentamente aos poucos. Nem sequer podia pregar. Ficava quase todo o tempo numa cama, orando e lendo a Bíblia.
Sentindo a proximidade da morte, deliberou escrever uma carta. Chamou então a companheira e recomendou-lhe em prantos que esta fosse aberta e lida apenas no seu velório, mas não por ela.
— Promete-me, promete?
Comovida e visivelmente abatida, ela o abraçou e, entre lágrimas, prometeu-lhe tudo que quisesse.
Morreu Matias aos cinquenta e cinco anos de idade, de terno e gravata e com a Bíblia aberta no Salmo 91 sob o peito.
Deu-se o velório na igreja, às nove horas de uma fria noite do mês de junho. Realizada a cerimônia fúnebre, tem-se a leitura da carta, que se encontrava devidamente lacrada e em cujo verso se via escrito: “Minhas confissões”.
— Prezados irmãos, a pedido do meu querido esposo não abrir esta carta nem sei absolutamente nada do seu teor. Desta forma, para cumprir sua vontade e para selar a promessa que fiz com ele, entrego-a ao nosso irmão Jônatas, a fim de que proceda sua leitura. Peço silêncio e reverência a todos os presentes.
Ela chora. O homem então começa a leitura da carta:
“Pequei, Senhor! Sim, pequei!...
E foi a gravidade dos meus pecados que fez dissipar de mim toda disposição em querer confessá-los ainda em vida. O perdão de Deus eu já o obtive, agora só peço o vosso.
Perdoai-me irmãos!
Não me condenai pelos meus pecados, pois Davi também pecou e ainda assim vós o amais com todo o vosso ímpeto. Eu não fui Davi, mas fui humano.
Perdoai-me irmãos!”
A esta altura nota-se muitas faces apreensivas e outras completamente tomadas de angústia e pavor. Algumas mulheres buscam sair às ocultas do templo, mas de pronto são impedidas pelos seus maridos. Uma senhora aparentando lá seus cinquenta anos sente um mal-estar, fazendo cessar momentaneamente a leitura da misteriosa epístola.
Os ânimos são acalmados e dá-se prosseguimento à leitura da carta:
“Qual de vós não cometeu pecado atire a primeira pedra neste defunto que vos escreveu. Se a minha carne foi fraca, lembrai-vos de que sois também carne e de que sereis também defuntos.
Perdoai-me irmãos!
Se fui um descomedido amante da vida e dos prazeres, e se para usufruí-los servir-me do vosso suado dízimo e ofertas, lembrai-vos que em troca recebestes palavras de conforto e abundantes conselhos.
Perdoai-me irmãos!
Quantos de vós, no mais íntimo de vossos corações, não daríeis tudo por uma delirante noite de excitação e prazer? Se exerceis restritivas ações sobre vossos impulsos e desejos, certamente não o fazeis por deliberado amor a Deus. Em vez disso, porém, fazeis porque temais o julgamento final e as labaredas ardentes do inferno.
Perdoai-me irmãos!
Fui ator de uma comédia trágica. E vós que assistis a este fúnebre espetáculo e que vedes temerosos este desagradável esquife, contai vossos anos, calculai vossos dias, pois são como a sombra de um pássaro que nos sobrevoa. O que é a vida senão uma peça de teatro em que cada um, sob sua própria máscara, vive seu próprio personagem até que o supremo diretor o venha tirar da cena?
Perdoai-me irmãos!
Fui santo e devasso; fui crente e profano; fui sincero e hipócrita; fui humano, demasiadamente humano...
Perdoai-me irmãos!
Confesso, minha doce e querida Sabrina, que não fostes tu minha única mulher, nem foram únicos os nossos três filhos. Em várias camas deitei e com muitas mulheres fiz gerar outros filhos, alguns dos quais aqui estão a velar o pai defunto. Olhai bem o Giovane, o Miguel e a Selma... Vede bem as cores de seus olhos, suas testas largas, seus cabelos pretos e, principalmente, os narizes aduncos de todos eles. Sim, são todos filhos meus, de outras mulheres que muito amei... Lúcia, Márcia e Valéria. Não as condenem irmãos, pois seus maridos de tudo tinham conhecimento e tudo aprovavam.
Perdoai todos nós, irmãos!”
Grande burburinho se faz ouvir no recinto. Algumas mulheres choram; outras desmaiam e agridem-se com tapas e puxões de cabelos. A confusão é generalizada. Homens batem-se corpo-a-corpo e insultam-se mutuamente. Enquanto isso, um grupo de cerca de vinte pessoas aproxima-se do caixão e encara o morto como se lhe quisesse trazer de volta sua alma, apenas para ter o prazer de mandá-la às profundezas do inferno.
Em meio ao imenso alvoroço, chegam dois agentes funerários devidamente acompanhados de uma viatura policial. Acalmam-se novamente os ânimos. Metem-se o féretro no rabecão, que é conduzido imediatamente ao cemitério.
Prosseguem-se as confissões do pastor Matias...

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