terça-feira, 27 de novembro de 2018

Euforia (Conto), de Katherine Mansfield



Euforia

Embora Berta Young tivesse trinta anos, tinha ainda desses momentos em que se quer correr em vez de andar, sair dançando pelas calçadas, atirar um arco, jogar qualquer coisa no ar e tornar a pegá-la, ou ficar quieta e rir — de nada — de nada, simplesmente.

Que se pode fazer quando se tem trinta anos e, ao dobrar a esquina da rua, se é vencida, subitamente, por um sentimento de euforia — euforia absoluta! — como se se tivesse engolido de repente um brilhante pedaço do sol da tarde e ele ardesse dentro do peito da gente, mandando para fora um pequeno chuveiro de faíscas em cada partícula, em cada dedo dos pés ou das mãos?

Oh, haverá um meio de exprimir essa sensação, fora do "bêbado e desordenado"? Como é idiota a civilização! Para que dar-nos um corpo se temos que conservá-lo fechado num estojo como um violino muito raro?

— Não, violino não é bem o que eu quero dizer, pensou ela, subindo os degraus e remexendo na bolsa à procura da chave — esquecera-a, como sempre — e batendo na caixa do correio. — Não é o que eu quero dizer, porque... — Obrigado, Maria — entrou no vestíbulo. A ama já voltou?

— Sim, senhora.

— E as frutas vieram?

— Sim, senhora. Veio tudo.

— Traga as frutas para a sala de jantar, está bem?

— Vou arrumá-la antes de subir.

Estava escuro na sala de jantar e um tanto frio. Mesmo assim, Berta tirou o capote; não podia suportá-lo, pois apertava-a, e o ar frio caiu-lhe nos braços.

Mas conservava ainda no peito aquele ponto brilhante — e o chuveiro de faiscazinhas que dele saíam. Era quase insuportável; quase nem ousava respirar com receio de, abanando-o, aumentá-lo; no entanto, respirou fundo, fundo. Quase nem ousava olhar-se no espelho frio — mas olhou, e ele lhe devolveu a imagem de mulher radiante, de lábios trêmulos e sorridentes, olhos grandes e escuros e um ar de quem escuta, à espera de alguma coisa... uma coisa divina que vai acontecer... que se sabe que deve acontecer... infalivelmente.

Maria trouxe as frutas numa bandeja, uma tigela de vidro e um prato azul, lindo, com estranho brilho, como se tivesse sido mergulhado no leite.

— Devo acender a luz, Madame?

— Não, obrigada. Vejo muito bem.

Havia tangerinas e maçãs com molho cor-de-rosa, de morangos. Algumas peras amarelas, macias como seda, algumas uvas cobertas de florescências prateadas e um grande cacho de uvas vermelhas. Estas últimas ela comprara a fim de combinar com o novo tapete vermelho da sala. Sim, isso até parecia absurdo, mas fora por esse motivo que as comprara. Pensara, na quitanda: — Preciso de umas bem vermelhas para fazer com que o tapete suba até a mesa. — E, naquele momento isso lhe pareceu bastante razoável.

Após ter feito duas pirâmides dessas fulgentes formas redondas, afastou-se da mesa para aquilatar o efeito — e na verdade era dos mais curiosos. Pois que a mesa escura parecia derreter-se na luz penumbrosa e o prato de vidro e tigela azul pareciam vogar no espaço. Isso, no seu estado de espírito, é claro, era tão incrivelmente belo... Começou a rir.

— Não, não. Estou ficando histérica. — E tomou da bolsa e do capote e subiu as escadas depressa, para o quarto da filha.

A ama escaca sentada a uma mesinha pequenina dando à Bezinha o seu jantar, depois do banho. A criancinha trazia um vestido branco de flanela e um casaquinho de lá azul, e o seu belo cabelo escuro estava preso no alto da cabeça. Ergueu os olhos à entrada da mãe e pôs-se a dar saltinhos.

— Vamos, queridinha, coma como uma mocinha, — disse a Ama, movimentando os lábios de um modo que Berta bem conhecia, e que significava que ela entrara no quarto da menina em má hora.

— Ela se comportou bem, Babá?

— Foi um amor a tarde inteira, murmurou Babá. Fomos ao parque e eu fiquei sentada numa cadeira, tirei-a do carrinho, veio um cachorro enorme e pôs a cabeça no meu joelho; e eia segurou nas orelhas dele e acariciou-o. Oh, a senhora precisava ver.

Berta quis perguntar se não era perigoso deixar a menina acariciar um cachorro desconhecido. Mas não ousou. Ficou-se a olhá-las, com as mãos caídas, como a meninazinha pobre diante da meninazinha rica que tem a boneca.

A criancinha tornou a olhar para ela e sorriu de modo tão encantador que Berta não pôde deixar de exclamar:

— Oh, Babá, deixe que eu acabo de dar o jantar a ela enquanto você vai recolher as coisas do banho.

— Bem, Madame, não se deva trocar de mão enquanto ela está comendo, disse Babá, ainda em murmúrio. — Isso a põe nervosa; tenho a certeza. — Que absurdo! Por que ter uma filha se ela tem que ser conservada não num estojo como um violino muito raro — mas nos braços de outra mulher?

—Oh, não: disse ela.

Muito ofendida, Babá entregou- lhe a menina.

— Agora, não vá excitá-la depois da refeição. A senhora sabe que a excita, Madame. E depois eu é que tenho o trabalho de acalmá-la!

— Graças a Deus! Babá saiu do quarto com as toalhas de banho. — Agora tenho você só para mim, minha preciosidadezinha, — disse Berta, e a criança atirou-se para ela.

Comeu com delícias, estendendo os labiozinhos para a colher e agitando as mãozinhas. Algumas vezes não deixava a colher sair; e, de outras, quando Berta tinha acabado de enchê-la, jogava-lhe o conteúdo longe, aos quatro ventos. Quando a sopa terminou, Berta foi para a lareira.

— Você é um encanto, um verdadeiro encanto disse, beijando a meiga filhinha. Eu adoro você.

E, na verdade, adorava tanto a sua Bezinha — o pescocinho dela, quando ela o esticava para a frente, os dedinhos do pé, tão delicados, parecendo transparentes à luz do fogo — que toda aquela sua sensação de euforia lhe voltou, e novamente não soube como exprimi-la — e que fazer dela.

— Estão chamando a senhora ao telefone, disse Babá, voltando triunfante e agarrando a "sua" Bezinha.

Correu para baixo. Era Harry. — Oh, é você, Ber? Olha aqui, vou chegar atrasado. Tomarei um táxi e correrei o mais que puder, mas atrase o jantar de uns dez minutos, está bem? Combinado?

— Está bem, sim, oh Harry!

— Que é que há? 

Que tinha a dizer? Nada. Queria apenas entrar em contato com ele, por um momento. Não podia gritar absurdamente: — Não achou divino o dia de hoje?

— Mas que é que há? insistiu a voz do marido.

— Nada. Está combinado, disse Berta, e desligou o aparelho, pensando no quanto a civilização era mais que simplesmente estúpida.

***

Tinham visitas para jantar. Os Norman Knights — um casal muito simpático — ele ia abrir um teatro, e ela entendia muito de decoração de casas, — um rapaz, Eddie Warren, que acabara de publicar um livro de versos e que todo mundo convidava para jantar, e uma "descoberta" de Berta, chamada Pérola Fulton. O que Miss Fulton fazia, a própria Berta não sabia. Tinham-se conhecido no clube e Berta apaixonara-se por ela, como sempre o fazia com as mulheres bonitas que tinham qualquer coisa de estranho.

O ponto mais provocante do caso é que, embora tivessem estado juntas e se tivessem encontrado inúmeras vezes e conversado muito, Berta ainda não sabia bem como classificá-la. Até certo ponto, Miss Fulton era extraordinária e maravilhosamente franca, mas a questão era esse ponto, para além do qual ela não oferecia acesso.

Haveria alguma coisa para além desse ponto? dissera Harry. — Não. Ele achara-a pesadona e fria "como todas as mulheres loires, talvez ligeiramente atacada de anemia cerebral." Mas Berta não concordara com ele; de modo nenhum.

— Não, aquele modo que ela tem de se sentar com a cabeça um pouco de lado e sorrir, há qualquer coisa por detrás daquilo, Harry, e eu preciso descobrir o que é.

— O mais provável é que seja um bom estômago, respondeu Harry.

Ele insistia em responder aos comentários de Berta assim... "passa mal do fígado, meu bem..." ou "deverá ser gases" ou “está com o fígado podre" e daí ror diante. Por algum motivo estranho, Berta gostava destas observações, e quase o admirava mais por isso.

Foi até a sala de visitas e acendeu o fogo; depois, recolhendo as almofadas uma a uma, que Maria dispusera com tanto cuidado, atirou-as de novo nas cadeiras e nos sofás. Que diferença! a sala pareceu viva, depois disso. Ao atirar a última surpreendeu-se acariciando-a de repente, apaixonadamente, apaixonadamente. Mas isso não esmoreceu o fogo que trazia no peito. Oh, ao contrário!

As janelas da sala de visitas davam para um terraço que dominava o jardim. Na extremidade, afastada, junto ao muro, havia uma pereira alta toda cheia de flores; ali estava, perfeita, serena de encontro ao céu verde-jade. Berta não pôde deixar de observar, mesmo à distância, que ela não tinha um único broto ou pétala murcha. Mais para baixo, nos canteiros do jardim, as tulipas vermelhas e amarelas, carregadas de flores, pareciam curvar-se ao crepúsculo. Um gato cinzento, arrastando a barriga, passou pelo gramado, e um outro, preto, como sombra acompanhou-o. A visão de ambos, tão intensa e rápida, deu a Berta um curioso arrepio.

— Como os gatos rastejam: observou ela, e saiu da janela e pôs-se a andar dum lado para o outro.

Como os junquilhos perfumavam a sala quente! Demais? Oh, não! E então, como subjugada, atirou-se a um sofá e apertou os olhos com as mãos.

— Estou feliz demais... demais! murmurou.

E pareceu-lhe ainda ver a adorável pereira com as suas largas flores abertas como um símbolo de sua própria vida.

Na verdade... na verdade... ela tinha tudo. Era moça. Harry e ela continuavam amando-se como sempre, viviam esplendidamente e eram ótimos companheiros. Tinham uma filhinha adorável. Não precisavam preocupar-se em matéria de finanças. Possuíam aquela casa e aquele jardim inteiramente satisfatórios. E amigos — modernos, empolgantes, escritores, pintores, poetas, gente entendida em questões sociais — o tipo dos amigos de que eles gostavam. E havia livros, e música, e ela descobrira uma costureirazinha maravilhosa, e iam para fora no verão, e a sua nova cozinheira fazia as omeletes mais formidáveis...

— Estou absurda. Absurda! Levantou-se; mas sentiu-se estonteada, inteiramente bêbada. Devia ser a primavera.

Sim, era a primavera. Agora sentia-se tão cansada que não aguentava arrastar-se pelas escadas para ir vestir-se.

Um vestido branco, um colar de contas de jade, sapatos verdes e meias. Não era de propósito. Pensara nesse conjunto horas antes de ficar parada no terraço da sala de visitas. 

As pétalas do seu vestido roçavam maciamente o chão pelo vestíbulo, ela beijou a Sra. Norman Knight, que chegara com o mais divertido dos casacos cor de laranja, com uma procissão de macaquinhos pretos em volta da barra e na frente.

Por quê? por quê? por que será que a classe média é tão Indigesta — tão — altamente desprovida de senso de humor? Meu bem, estou aqui mesmo por milagre — milagre de Norman! Pois os meus macaquinhos agitaram o pessoal do trem e um homem chegou quase a me comer com os olhos. Não ria, não estava achando graça; se ele achasse eu não importaria. Não, ficava só olhando, e isso me aborreceu horrivelmente.

— Mas o melhor de tudo, — disse Norman, ajustando um grande monóculo de aro de tartaruga no olho, — você não se importa que eu diga, hein. Face? (Em casa e entre os chamavam-se um ao outro Face e Mug). O melhor de tudo foi quando ela, sem aguentar mais, voltou-se para a mulher que ia ao lado e disse: Nunca viram um macaco antes?

— É, sim, — e a Sra. Norman Knight juntou-se à risada geral. — Não foi mesmo formidável?

Porém ainda mais formidável era o fato de que, agora que ela tirara o casaco, parecia igualzinha a um macaco muito inteligente — como se aquele vestido de seda amarela fosse feito de cascas de bananas. E os seus brincos de âmbar pareciam nozes penduradas.

A campainha tocou. Era o magro e pálido Eddie Warren (como de hábito), em estado de agudo desespero.

— É aqui, mesmo a sua casa, certo?

— Oh, acho que sim, espero que seja, disse Berta sorrindo.

Tive uma experiência tão pavorosa com um chofer de táxi! Ele era o tipo sinistro! Não conseguia fazê-lo parar. Quanto mais eu batia e chamava, mais ele corria. E aquela bizarra figura de cabeça chata abaixada sobre o volante...

Estremeceu, tirando uma imensa “echarpe” de seda branca. Berta observou que as suas meias também eram brancas, encantadoras, aliás.

— Mas que horror! exclamou ela.

— Foi mesmo, um horror! disse Eddie, acompanhando-a à sala de visitas. Vi-me viajando para a Eternidade num táxi fora do tempo.

Ele conhecia os Norman Knight. Ia até escrever uma comédia para N. K., na ocasião em que se tratou da aberto teatro.

— Então, Warren, que é da peça? disse Norman Knight, deixando cair o monóculo.

E a Sra. Norman Knight: — Oh, Mr. Warren! que melas lindas!

— Que bom que a senhora gostou delas! disse ele, olhando os próprios pés. — Estão parecendo muito mais brancas, depois que a lua apareceu! — E voltou o rosto magro, triste e jovem para Berta. — A senhora sabe, hoje temos lua.

Ela desejou exclamar: — Estou certa de que temos, sim, sempre, sempre!

Ele era mesmo um homem encantador. Mas Face também era encantadora, curvada sobre o fogo com o vestido cor de banana, e Mug também era, fumando um cigarro e dizendo, enquanto batia a cinza com o dedo: — Por que será que o noivo está demorando?

— Ei-lo que chega.

Bum, e a porta da frente abriu-se e fechou-se. Harry gritou: — Alô, pessoal! Desço em cinco minutos. — E ouviram-no subindo as escadas. Berta não pôde deixar de sorrir: sabia quanto ele gostava de fazer as coisas a toda velocidade. Que importava, afinal, uma diferença de cinco minutos a mais? Mas ele afirmaria que aquilo tinha uma importância enorme. E faria questão de entrar na sala de visitas, extravagantemente frio e calmo.

Harry tinha tanto gosto pela vida! Oh, como ela apreciava isso nele! E a sua paixão pela luta — procurando sempre em tudo que lhe acontecia de adverso outro teste de seu poder e de sua coragem — aquilo ela também compreendia. Mesmo quando isso o tornava, aos olhos de quem não o conhecia bem, um tanto ridículo. talvez... Pois que havia momentos em que ele entrava em luta onde não havia luta de todo... Ela conversou e riu, e positivamente esqueceu-se, até o momento em que ele entrou, que Pérola Fulton não tinha ainda aparecido.

— Quem sabe se Miss Fulton se esqueceu?

— Espero que tenha esquecido, disse Harry. Não telefonou?

— Ah! está chegando um táxi agora. — E Berta sorriu com aquele arzinho de proprietária que assumia enquanto as suas "descobertas femininas" eram novas e misteriosas. — Ela vive em táxis.

— Ficará muito gorda se continuar, — disse Harry friamente, tocando a sineta para o jantar. — Isso é um perigo para mulheres loiras.

— Harry, não faça isso... avisou Berta, rindo.

Outro momento pequenino, em que eles esperaram, rindo e conversando, à vontade demais, desprevenidos demais... E então Miss Fulton, toda de prata, com uma rede de prata prendendo-lhe os cabelos de um loiro pálido, entrou sorrindo, com a cabeça um pouco de lado.

— Estou atrasada?

— Não, absolutamente, — disse Berta. Venha! — Tomou-lhe do braço e foram para a sala de jantar.

Que havia naquele contato daquele braço fresco que parecia abanar, abanar, e aumentar o calor, aumentar o calor, daquele fogo de euforia com o qual Berta não sabia o que fazer?

Miss Fulton não olhava para ela; mas é verdade que ela raramente olhava para as pessoas diretamente. As pesadas pálpebras caíam-lhe sobre os olhos, e o estranho meio-sorriso vinha e ia de seus lábios, como se ela vivesse ouvindo mais do que vendo. Mas Berta sentiu, de repente como se o mais longo e mais íntimo dos olhares tivesse sido trocado entre elas, como se uma tivesse dito à outra: Você também? que Pérola Fulton enquanto agitava a bela sopa vermelha no prato cinzento, estava sentindo exatamente o mesmo que ela.

E os outros? Face e Mug, Eddie e Harry, as colheres subindo e descendo, encostando de leve os guardanapos nos lábios, fracionando o pão, tocando de leve nos garfos e copos e conversando.

— Encontrei-a no show Alfa, aquele diabinho! Ela não só cortou o cabelo, como também parece ter cortado uma boa parte das pernas, dos braços, do pescoço e do pobre narizinho também.

— Ela não está muito ligada a Miguel Oat?

— O homem que escreveu "Amor com dentes postiços"?

— Ele quer escrever uma peça para mim. Um ato. Um homem. Resolve cometer suicídio. Explica todas as razões porque devia e porque não devia suicidar-se. E bem no momento em que ele resolve se deve ou não — cai o pano. A ideia não é má.

— Como vai chamar a peça: Perturbação de estômago?

— Acho que encontrei ideia semelhante a essa numa revistazinha francesa, desconhecida na Inglaterra.

Não, eles não compartilhavam com ela. Eram uns amores, uns amores, e ela adorava tê-los ali, na mesa, dando-lhes comida e vinho deliciosos. Ansiava por poder dizer-lhes o quanto eram adoráveis, e que grupo decorativo compunham, como combinavam bem uns com os outros e como lhe lembravam uma peça de Tchekhov!

Harry estava gostando do jantar. Era bem dele, aquilo de falar sobre comida e exaltar a sua "paixão sem-vergonha pela carne branca da lagos ta" e "pelo verde dos sorvetes de pistache, — verdes e frios como as pálpebras das dançarinas egípcias".

Quando olhou para ela e disse: Berta, este suflê está admirável! ela quase chorou de prazer como uma criança.

Oh, porque se sentia nessa noite tão terna para com todo mundo? Tudo era bom e estava certo. Tudo o que acontecia parecia encher ainda mais a sua taça transbordante de felicidade.

E no fundo do pensamento estava-lhe aquela pereira. Estaria agora prateada, sob a luz da lua daquele querido Eddie, prateada como Miss Fulton, que ali estava sentada girando uma tangerina nos dedos compridos, tão pálidos que pareciam emanar claridade.

O que ela não conseguia compreender — e que era milagroso — era como podia adivinhar o estado de espírito de Miss Fulton tão exata e instantaneamente. Pois nem por um momento duvidou de que estivesse certa a esse respeito, e em que se baseava? Um menos que nada.

— Acredito que isso aconteça muito, muito raramente entre mulheres. Nunca entre homens, — pensou Berta. — Enquanto estiver fazendo o café na sala de visitas, talvez ela "dê a sinal”.

O que queria dizer com isso ela mesma não sabia, e o que podia acontecer depois disso não podia imaginar.

Enquanto pensava assim viu-se conversando e rindo. Precisava falar porque estava louca de vontade de rir.

— Preciso ou rir ou morrer.

Mas quando notou o curioso habitozinho de Face, de puxar o vestido na frente, no corpete, como se guardasse ali uma secreta provisão de nozes, Berta teve que enterrar as unhas nas mãos para não ri demais.

Tinha acabado, afinal. — Venham ver agora a minha nova máquina de fazer café, disse Berta.

— Nós só temos uma nova máquina de fazer café uma vez em quinze dias, disse Harry. Face tomou do braço de Berta, dessa vez; Miss Fulton curvou a cabeça e acompanhou-as.

O fogo abatera-se na sala de visitas, até o ponto de tornar-se "um ninho de pequeninos fênix”, vermelho e brilhante, como disse Face.

— Não acenda a luz já. Está tão bom assim. — E abaixou-se novamente sobre o fogo. Estava sempre fria... sem o seu casaquinho de flanela vermelha, é claro, pensou Berta.

Nesse momento Miss Fulton "deu o sinal”.

— Você tem Jardim? disse a voz fria e sonolenta.

Era dito de uma maneira tão fina que tudo o que Berta podia fazer era obedecer-lhe. Atravessou a sala, afastou as cortinas, e abriu as compridas janelas.

— Veja! murmurou.

E as duas mulheres ficaram em pé uma junto da outra, olhando para a árvore delgada e florida, que, embora permanecesse tão tranquila, parecia, como a chama de uma vela, estirar-se para o alto, apontar, estremecer no ar brilhante, crescer cada vez mais enquanto elas a olhavam — quase a tocar o bordo da lua redonda e prateada.

Quanto tempo ficaram ali? Ambas presas naquele círculo de luz sobrenatural, entendendo-se perfeitamente, criaturas de um outro mundo, imaginando o que deviam fazer neste com todo esse tesouro eufórico que lhes queimava o peito e lhes caía, em flores douradas, de seus cabelos e de suas mãos?

Para sempre — por momento? E Miss Fulton murmurou: — Sim. É bem "isso".

Ou será que Berta sonhou?

Então acenderam a luz e Face fez o café, e Harry disse:

— Minha cara Mrs. Knight, não me faça perguntas acerca da minha filha. Nunca a vejo. Não me interesso nem um pouco por ela, até o momento em que ela tenha um amante. — E Mug retirou por um momento os olhos da estufa para plantas, repondo-os sob os óculos, e Eddie Warren tomou o café e depôs a xícara com uma expressão de angústia.

— O que eu quero é dar ao rapaz um espetáculo. Londres está cheia de peças novinhas em folha, ainda não escritas. O que eu quero dizer a eles é: Isto é teatro. Teatro à vista!

— Você sabe, meu caro, vou decorar uma sala para Jacob Nathans. Oh, estou tão tentada a fazer um esquema tipo peixe-frito, com os espaldares das cadeiras em forma de frigideiras e adoráveis batatas, muito chiques, bordadas nas cortinas.

— O mal dos nossos jovens escritores é que eles ainda são muito românticos. Não se pode viajar por mar sem sentir enjoo e precisar de uma bacia. Por que é que eles não têm a coragem dessas bacias?

— Um poema terrível, de uma moça violada por um mendigo sem nariz, num bosquezinho...

Miss Fulton afundou na poltrona mais baixa e mais funda e Harry ofereceu cigarros a todos. Pela maneira com que ele parou em frente dela sacudindo a caixinha de prata e dizendo asperamente: "Egípcios? turcos? da Virgínia? Estão todos misturados". Berta compreendeu que Miss Fulton hão só o aborrecia, mas que ele não gostava positivamente dela. E pelo modo com que Miss Fulton disse: "Não, Obrigada, não fumo", decidiu que ela compreendeu isso e ficou ofendida.

— Oh, Harry, por que não gosta dela? Você não tem razão. Ela é uma maravilha, uma maravilha. Além disso, como é que você pode deixar de gostar de uma pessoa que para mim significa tanta coisa? Vou tentar, logo mais, quando estivermos deitados, explicar-lhe o que está acontecendo. Aquilo de que ela e eu compartilhamos.

A essas últimas palavras algo de estranho e quase aterrorizador surgiu no cérebro de Berta. E essa coisa cega e sorridente murmurou-lhe: Dentro em pouco toda essa gente vai embora. A casa ficará quieta, quieta. As luzes estarão apagadas. E você e ele ficarão sozinhos, juntos, no quarto às escuras, a cama quente...

Ergueu-se da poltrona e correu para o piano.

— Que pena que ninguém toque! exclamou. Que pena que ninguém toque!

Pela primeira vez de sua vida Berta Young desejou seu marido.

Oh, amava-o, tinha-o amado, sem dúvida, de todas as outras maneiras, mas daquele modo não. Sempre compreendera que ele era diferente. Discutiram isso tantas vezes. A princípio ela ficara apavorada verificando que era tão fria, mas depois aquilo pareceu não ter importância. Eram tão francos um com o outro, tão bons companheiros. E isso é que havia de bom em ser um casal moderno.

Mas agora, ardentemente! ardentemente! A palavra doía-lhe no corpo ardente! Era a isso o que aquela sensação de euforia a tinha levado? Mas então...

— Minha querida, disse Mrs. Norman Knight, você sabe bem qual é a nossa vergonha. Somos as vítimas do tempo e do trem. Moramos em Hampstead. A noite foi ótima.

— Vou acompanhá-los até o vestíbulo, disse Berta. Foi ótimo vocês terem vindo. Mas não devem perder o último trem. Que horror, não é mesmo?

— Quer mais um uísque, Knight, antes de ir? perguntou Harry.

— Não, obrigado, meu velho.

Berta apertou-lhe um pouco a mão, por isso, ao despedir-se dele.

— Boa noite, adeus — gritou do degrau de cima, sentindo que esse ser que ela estava vendo despedia-se deles para sempre.

Quando voltou à sala de visitas, já todos estavam de pé para se retirarem.

— ... Então você pode ir no mesmo táxi conosco.

— Ficarei muito grato, porque assim não terei que andar de automóvel sozinho, depois da minha terrível experiência de hoje.

— Há um ponto de táxis no fim da rua. Vocês não terão que andar muito.

— Ainda bem. Vou vestir meu casaco.

Miss Fulton dirigiu-se para o vestíbulo e Berta ia segui-la quando Harry passou-lhe à frente.

— Deixe-me ajudá-la, Miss Fulton.

Berta sabia que ele devia estar arrependido pela sua rispidez, e deixou-o ir. Era um verdadeiro menino, tão impulsivo, tão simples...

Eddie e ela ficaram junto ao fogo.

— Você já leu o novo poema de Bilks, chamado "Mesa de hóspede"? disse Eddie com o seu tom macio. É formidável! Está na última Antologia. Você tem? Gostaria tanto de mostrar-lhe! Começa com um verso incrivelmente belo: "Por que há de ser sempre sopa de tomate"?

— Sim, disse Berta. E caminhou silenciosamente para uma mesa junto à porta da sala de visitas e Eddie deslizou também silenciosamente atrás dela. Tomou do livro e deu-Iho: tudo sem dizerem uma palavra.

Enquanto ele erguia o livro nas mãos, ela virou a cabeça para o vestíbulo. E viu... Harry com o casaco de Miss Fulton nos braços e Miss Fulton de costas voltadas para ele e com a cabeça curvada. Ele empurrou o casaco, pôs as mãos nos ombros dela e fê-la voltar-se violentamente. "Adoro-a", diziam seus lábios, e Miss Fulton passou-lhe os dedos de luar nas faces e sorriu-lhe aquele seu sorriso sonolento. As narinas de Harry tremeram; seus lábios encresparam-se em detestável sorriso, enquanto murmuravam: "Amanhã", e com as pálpebras Miss Fulton disse: "Está bem."

— Aqui está, disse Eddie. "Por que há de ser sempre sopa de tomate?" É uma coisa tão profunda, não acha? Sopa de tomate é tão terrivelmente eterna!

Se preferir, disse a voz de Harry, muito alto, do vestíbulo, posso chamar um táxi pelo telefone.

— Oh, não. Não é preciso, disse Miss Fulton, e veio para Berta e estendeu-lhe os dedos finos.

— Adeus. Muito obrigada, hein?

— Adeus, disse Berta.

Miss Fulton reteve-lhe a mão por um momento mais longo.

— A sua encantadora pereira! murmurou.

E saiu, seguida por Eddie, como o gato preto seguido pelo gato cinzento.

— Está na hora de fechar o estabelecimento disse Harry, extravagantemente frio e calmo.

— A sua encantadora pereira, pereira, pereira!

Berta correu simplesmente para as janelas compridas.

— Oh, que será que vai acontecer agora? exclamou.

Mas a pereira estava encantadora e cheia de flores e tranquila como sempre.


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Tradução de Lasinha
Revista Fon-Fon, edição de 29/12/1951.

Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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