terça-feira, 27 de novembro de 2018

O Pai (Conto), de Katherine Mansfield


O Pai

Para a meninazinha ele era um ente temido e respeitado. Todas as manhãs, antes de ir para o trabalho, vinha ao quarto e dava-lhe um beijo formal, que era retribuído com um “até logo, pai!” E que sensação de alívio, de alegria ao ouvir os passos que se afastavam!

À tarde, ela ouvia na saleta a voz grossa:

— "Traga o meu chá no fumoir. Não tinham chegado os jornais? Mãe, vá procurá-los e traga as minhas chinelas.

— Kégia — dizia a mãe — se é uma boa menina venha tirar as botas do pape.

Devagar a pequena descia as escadas, mais devagar ainda atravessava a saleta e abria porta do fumoir. Ele tinha posto os óculos e olhava-a aquele olhar que ela tanto temia.

— Tire-me as botas, Kégia. Portou-se bem hoje?

— Não... sei... pai.

— Não sabe? Se gaguejar assim, irá ao médico.

Não gaguejava senão quando falava com o pai, porque estava sempre procurando as Palavras.

— Que tem? Por que está tão assustada? Mãe, faça esta menina ter outra aparência. Vamos Kégia retire a minha xícara. Cuidado! Suas mãos tremem como se fossem as de uma velha. E guarde o lenço no bolso!

— S... i... m..., pai...

Aos domingos, na igreja, sentava-se com ele no mesmo banco, ouvia-o cantar numa voz surda e tomar com um lápis notas do sermão. Dizia as orações numa voz tão grossa que pensava a meninazinha: “'Deus devia assustar-se"...

E ele era tão grande, tinha as mãos e as pernas tão compridas, que, quando entrava no quarto parecia um gigante.

Nos domingos à tarde, vovó mandava-a para o salão paramentada num vestido de veludo, para "conversar bem bonita com papai e mamãe." Mas mamãe lia "The Sketch" e papai, estirado no sofá, um lenço sobre os olhos, ficava a dormir. Ela sentava-se gravemente no banco do piano e ali ficava a bocejar até que ele acordasse e perguntasse a hora.

— Não boceje assim, Kégia. Que coisa tão feia!

Um dia em que ela estava presa no quarto com um resfriado, disse-lhe vovó que o aniversário de papai era na próxima semana e que ela devia bordar-lhe um marcador de livros numa bonita fita. Dócil, a pequena tomou a fita sobre a qual pregou um pedaço de talagarça. Mas com que bordar? Vovó fora ao jardim.

Kégia dirigiu-se então ao quarto da mamãe à procura de lãs. Na mesa de cabeceira ela descobriu umas tiras de um bonito papel, tomou-as, cortou-as bem fininhas e foi-se muito satisfeita.

Naquela noite houve em casa um grande barulho. Tinham-se perdido as amostras de papai para o Port Authority. Procurou-se por toda a parte. Os criados foram interrogados. Por fim, mamãe foi ao quarto:

— Kégia, você não tirou uns papéis na mesa do meu quarto?

— Tirei, sim, e cortei-os.

— Quê?! Venha já à sala de jantar.

E foi levada à presença do pai que passeava agitado de um lado para o outro.

— Então?

A mãe explicou.

— Foi você? — gritou, parando em frente a criança.

—Não! Não! soluçou ela.

— Lucy, vá buscar os papéis e que esta pequena vá já para a cama.

Soluçando demais para poder explicar-se, Kégia deitou-se.

Depois o pai veio ao quarto, com uma régua ameaçadora.

— Você vai apanhar!

— Não! Não! — gritou escondendo-se entre os lençóis.

— Sente-se — disse ele, puxando-a. — Estenda as mãos. — Vai aprender a não tocar no que não lhe pertence.

— Mas... era para... o seu aniversário!

Mas a régua tombou sobre as róseas palminhas.

Horas mais tarde, enquanto vovó consolava Kégia, sentada com ela na cadeira de balanço, a garota chorava ainda.

— Para que Jesus faz os pais? — soluçou ela.

— Vamos dormir, querida! Amanhã estará tudo esquecido. Já expliquei a papai. Mas hoje ele está muito irritado para compreender.

Mas a menina não esqueceu. Quando veio o pai, escondeu as mãos atrás das costas e fez-se vermelha.

Os McDonalds viviam na casa ao lado. Tinham cinco filhos. Do jardim a meninazinha via as crianças brincando à tarde.

O pai tinha o bebê ao colo enquanto corria a rir, com os mais velhos. Então, ela decidiu que haviam diferentes espécies de pais.

Um dia mamãe adoeceu de repente e partiu com vovó num carro fechado.

A pequena ficou só com a governante. Durante o dia foi tudo bem.

Mas à hora de dormir teve medo.

— Se eu tiver pesadelo? Quando os tenho, vovó leva-me à sua cama. Não quero ficar sozinha no escuro!

— Não haverá nada. Durma quietinha e não acorde seu pai.

Mas veio o pesadelo.

Kégia via um homem com uma faca que se aproximava dela com um terrível sorriso.

—Vovó! Vovó!

Acordou. Viu o pai juro ao leito.

— Que há?

— Um homem mau! Quero vovó!

Papai tomou Kégia nos braços levou-a para o seu quarto. Na cama havia um jornal; no cinzeiro muitos cigarros. Papai retirou o jornal, lançou os cigarros na chaminé. Docemente, acomodou a criança e deitou-se ao seu lado.

Meio adormecida ainda, na impressão do pesadelo a garota aproximou-se bem, tomou uma das mãos do pai. Então sentiu-se tranquila, sem medo do escuro.

— Assim, Kégia... Aqueça seus pés nas minhas pernas.

E, cansado, adormeceu antes da filha. "Pobre papai! — pensou a meninazinha. Afinal não era tão grande assim e não tinha ninguém a olhar por ele.”

Trabalhava tanto que não podia brincar, como o vizinho. E ela estragara todos os seus bonitos papéis!

Kégia sentou-se na cama. Suspirou.

— Que há? — fez o pai. Outro sonho?

— Oh! disse a meninazinha —Minha cabeça está sobre o seu coração. Ouço-o, bater, bater... grande você tem agora, papai querido!+


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Tradutor desconhecido, in: Revista Fon-Fon, 28/03/1936.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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