quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Menino Jesus do Paraíso (Conto Natalino), de Fialho de Almeida



Menino Jesus do Paraíso

Um dos conventos pitorescos d’Évora, é sem dúvida alguma o Paraíso. O aspecto externo simula o duma destas casas de Tânger, misteriosas, de altas paredes encostadas umas às outras, sustadas a cunhais, caiadas, esfoladas, sem o menor sinal de vida de relação, nem portas, nem fachadas, nem mirantes, e só com umas gaiolas de ferro ressaindo em muscarabieh junto do teto, a cobrir, como máscaras de esgrima, minúsculas Incarnas que provavelmente dão luz para dentro daquele cárcere inquietante.

Vai o mosteiro entre as ruas de Mendo Estevens e de Machede, que o delimitam, convergindo, até lá diante se fundirem numa só, cujo título não sei; de sorte que observando a edificação do alto desta, tem-se a sensação dum poliedro tortuoso de três faces, truncado no vértice, e coberto de decrépitos telhados, que alteiam e amosendam de traves podres, a cada passo. Sob um céu de verão alentejano, azul candente, radiando oftalmias em cada corda solar zimbrada de alto, este sinistro casarão vedado ao burburinho da rua por muralhas, descendo a rua aos tropo-galhopos, em socalcos internos, expansões, retraimentos, avoca efetivamente estampas de cidades marroquinas, se não fora a ausência de certos detalhes clássicos daquelas... uma palmeira no fundo e um minarete, camelos por debaixo de um arco, e o inevitável árabe no primeiro plano, rebuçado fleumaticamente um albornoz.

Com o camelo e o árabe, seria uma paisagem tangerina. Substituindo porém o dromedário por um cônego, e o árabe por um aguadeiro vestido de saragoça, gritando quem merca a água! adiante dum burro com cântaros de cobre, numas cangalhas d'azinho, inesperadamente a feição muda, e não há Alentejo mais típico, nem gravura eborense mais avant la lettre. Entanto o Paraíso d’Évora é principalmente notável por três coisas: pelo seu aspecto exterior, pelo seu refeitório, e pelos doces.

O refeitório é um espécimen de salão Renascença, único em Évora, único por ventura no país, e suntuoso em toda a parte. É vasto, oblongo, o teto de carvalho esculpido, com pilastras de mármore branco, sustentando-o. Estas pilastras são um modelo de graça arquitetural, aladas, leves, com uma base relevada de medalhões e figurinhas, e meias canas abertas no corpo, para irem morrer alfim num elegantíssimo capitel.

Os doces do Paraíso são no Alentejo tão célebres, como entre Douro e Beiras, os de Celas; tão célebres como as rezas das suas freiras e milagres dos seus santos; tão celebres como a tradição dos seus bordados. Há-os de todas as frutas, massas, combinações, formas e espécies. Grandes, enchendo prato, feitos duma espécie de pão de ló de amêndoa e ovos, ligeiro como esponja, olorante ao olfato, e vaporoso e fresco ao paladar — cobertos de pasta de açúcar, com granulações vermelhas e rosadas, e chama-se bolo real, centro de mesa de todas as bodas ricas e pobres da província. Há-os pequenos, de amêndoa e açúcar, com um filão de compota, ou uma surpresa de licor escondida no bojo, e que imitam queijos (queijinhos do céu), presuntos, conchas, frutas, emblemas, ferramentas e edifícios.

Com estas três drogas simples do açúcar, farinha, e ovo, picadas dum ou outro extra de especiaria, ninguém sinfoniza o paladar mais finamente, ou sabe tirar desta efêmera sensação maior prodígio de delícias imortais.

Por que singular segredo a clausura, que proibia à mulher o convívio de todas as lubricidades, só esta do doce lhe deixou aberta, como válvula de segurança contra mais tinhosas práticas, e contaminadoras distrações?

Porque não é necessário ser adivinho arguto, para em certos doces diagnosticar receitas do demônio. No ano de 1470, relata o obituário da Misericórdia d'Évora nada menos do que quatro cônegos mortos de indigestão por trouxas de ovos. No mosteiro de Santa Mônica havia, pelos fins do século XVI, uma freira possessa, cujos bolos podres lançavam chamas de noite, vendo-se-lhe demoniozinhos a bailar por cima do tostado. As fatias de parida de São Bento, deram à abadessa D. Joana Peres Ferreirim, quatro anos antes da sua afrontosa morte, às mãos do povo, visões reveladoras quanto ao sinistro fim que havia de ter. E como diz um livro de milagres “a todos sirva isto de lição e ensinamento.”

A indústria da doçaria é nos claustros de freiras portuguesas, remotíssima, mas depurou-se e refilou de guloseima com as primeiras especiarias e receitas do oriente, até atingir nos reinados de D. João V e D. José, sutilezas e apuros que lhe valeram foros universais. Em Janeiro de 1729, passando D. João V em Évora, na ida e na volta da sua jornada ao Caia, para receber a infanta D. Maria Ana Vitória de Bourbon, filha dos reis de Espanha, como esposada do seu primogênito D. José, e entregar a infanta D. Maria Bárbara de Portugal, para consorte do príncipe das Astúrias, D. Fernando, mandou o senado eborense de presente aos monarcas, um rebanho de 24 vitelas com fitas nos cornos, 24 cargas de perus, galinhas, capões, pombos, leitões, perdizes e outras caças ; e assim um rancho de 24 meninas, levando caixas de excelentes doces “fabricados de tal forma, que pareciam as mesmas frutas de que se fizeram.” Estes doces  foram fabricados todos nos conventos, e há razões para supor que viesse do Paraíso a maior parte, atento o arremedarem frutas, e se conservar florente ainda naquele claustro a tradição da doçaria artística, reproduzindo toda a casta de pomos e fruteados.

Quem ainda não viu as caixas de doce do Paraíso, que ainda agora vão de volante às feiras e povoações do Alentejo, renegue a pretensiosa confeitaria francesa, insípida, mesquinha, sem variantes, e absorva-se devotamente nas gulodices geniais daquela santa casa!

Não é só a excelência das caldas, pastas, e cristalizações sacarinas dos doces mosteirais de Portugal, que cumpre lisonjear, mas a gracilidade mimosa de cada bom bocado e cada peça, a arte de exposição que leva os olhos, a quantidade de talento inventivo, de fantasia, de observação humorística e de ternura, que todas aquelas pequenas coisas ressumbram, restituindo ao mundo em escrituras de ameixas, uvas, maçãs, bananas, pomos, feitas de amêndoa e açúcar, ovo e baunilha, farinha e cheirosos sumos, a porção d'alma amorosa, de feminilidade compadecida, que as boas freiras não puderam gestar cá fora, no santo mister de mães e esposas.

Cá fora na rua, apontando uma casinha térrea onde trabalhava um sapateiro, o meu cicerone objetou-me: repare neste velhote!

Uma figureta japônica, gorducha, já um pouco alquebrada pelos anos, mas com seu olho azul muito expressivo, e uma boca humorística, onde alguns dentes riam satisfeitos. Vendo-se notado, convidou-nos a entrar cordialmente, acrescentando:

— Já agora, até morrer, hei de ser sempre uma das curiosidades do convento. Queiram-se cobrir e estar a seu gosto. O que me pesa, é recebê-los em casa tão pobre e desguarnecida. Ali, naquele cadeirão, esteve o Sr. Herculano sentado duas vezes, e o Sr. José Estevam além, com o Sr. Joaquim Filipe, em janeiro de 1838.

Fez uma pausa, e sorrindo:

— Pois é verdade, sou eu mesmo, Joaquim Constâncio, o menino Jesus do Paraíso. O caso foi soado, e até D. Pedro V e D. Luís quiseram ver um menino Jesus que se aposentou em sapateiro. Mas nem um nem outro parece que me acharam mores diferenças, e a prova é que nem menino Jesus da casa real fui nomeado. E a propósito: querem vossas senhorias uma pingoleta de aguardente?

Veio a pingoleta, talharam-se os cigarros, e sem dar tempo a perguntas, o velhote, adivinhando o fim da nossa estada, começou logo a fazer a história do seu título.

— Aqui no convento há um presepe, que até há quatro anos era o enlevo d'Évora, e armava-se no claustro em todas as vésperas de Natal. As figuras são todas de barro, maiores que humanas, mas expressivas que se alguma delas falasse, estou que ninguém levaria isso à conta de milagre, tanto parece estarem vivas, e respirando como qualquer criatura de Nos'Senhor. As freiras já não querem mostrar aos visitantes o presepe, desde que um barrote fez em bocados o rei preto, e deitou meia faceira abaixo a São José; mas acho que nem assim deviam ocultar obra tão rica, privando os entendidos dum gozo que me parece não tem igual cá na cidade.

Em 1826, veio de Monte-mor para o Paraíso uma freira, desterrada diziam que por se entregar mais aos amores dos homens, do que a Deus, e o certo foi que com a reputação de beleza trazia ela uma outra de estroinice, de tal maneira grave, que a abadessa mandou reforçar as gelosias das janelas, interdizer a grade à recém-vinda, e acautelar com ferrolhos novos todas as portas da cerca e mais serventias do mosteiro. Como a freira nova era riquíssima, e oriunda duma das melhores famílias da comarca, foi-lhe admitido um trem de cela por demasia ostentoso para a regra penitente da casa, e nesse trem vinha uma aia, açafata, ou confidente, que logo começou a ser notada por suas prendas de mãos, e engenhos de compor e armar toda a sorte de altares e painéis religiosos.

Ao contrário do que se esperava, a freira nova, apenas entrada no mosteiro, pretextando doença, nunca mais abandonou a sua cela; comia pouco, teimava em não ver a luz do dia, de sorte que vivia às escuras, levando horas a dar gemidos que enterneciam a comunidade, e pouco a pouco lhe foram criando lendas de martírio.

Véspera de Natal, ao cair da noite, em quanto as monjas se afadigavam a engalanar a igreja, a cobrir os altares de flores e carinhas, e a dispor no claustro as grandes figuras de roda do presepe, os gritos e gemidos da desterrada exprimiam, lá do fundo da cela um sofrimento excruciante, entre palavras de lástima que as mais beatas diziam repassadas de intensidade mística e contrição.

A poder dos grandes rogos da criada, deixaram-lhe ir o menino do presepe, para que sua ama o vestisse, conforme promessa feita a Nossa Senhora, — e o presepe já pronto, velas acesas, missa tocada, gente no adro, e o menino Jesus nada vir da cela de madre Ana!

Já o caso ia parecendo desusado à comunidade, várias noviças tinham chineleado nos corredores, com recados da prioresa, quando finalmente a reclusa se resolve a deixar ver o bambino, vestido e deitado por ela no bercinho doirado que havia de figurar ao centro do presepe. Era o que se chama uma obra de preceito! Ele travesseiras de cetim com fronhas de bobinete, lençóis de Holanda guarnecidos de rendas de Veneza, guarda-cama bordado, com entremeios e abertos da finura duma teia d’aranhiço, e quanto a coberta, era um antigo brocado doiro e violeta, recamado a matiz, com toda a sorte de pássaros e arvoredos... A respeito das anáguas e mantilhas do inocente, não deixou a açafata ver o que lá ia por baixo das roupas, e pressurosa, como a senhora abadessa já começava a zangar-se da demora, "ei-la depondo a preciosa camilha ao centro do presepe, entre Nossa Senhora, São José, o rei preto ofertante, e os animais do estabulo de Belém.

Abriu-se a igreja para o sacrifício da meia noite, velas aos centos nos altares, nas serpentinas douradas das paredes, em lustres caindo a par dos lampadários das capelas, e era povo de morrer naquela nave, e os coros das freiras acompanhavam-se ao órgão, que era ouvi-los e viver num céu aberto!

Ditas as missas, abriu-se a gradaria que dava para o claustro, o povo invadiu à bruta o caminho do presepe, ao tempo em que já o capelão, de capa d'asperges, véu de ombros, tomara o menino do berço, para o dar a beijar aos circunstantes. Mas caiu de joelhos, fulminado: o menino Jesus mexia os braços, e desatara a berrar como um cabrito! Foi uma balbúrdia no claustro, indescritível, de todas as bandas gritavam por milagre, as mulheres desmaiavam, enquanto outros nas pias d'água-benta iam banhar as regiões do corpo, mais aflitas — do que houveram prodigiosas catarreiras. Embalde o capelão, velho sabido, mui pouco atreito a acreditar prodígios que metessem enjeitadinho, embalde ele procurava furtar o crianço às arremetidas beatas da gentana: a turba crescia cada vez mais de roda do presepe, atulhando as arcadas e o jardim da quadra perto ululando, na rua, e insistindo num fanatismo furioso, em arrancar relíquias ao “Deus vivo.” A nova correra por toda a cidade, atordoara os palácios, e entrando aos paços do arcebispo, pusera em cheque a austeridade do prelado, irresoluto do escândalo, e não sabendo se transigir com o fanatismo estúpido da canalha, se com a provável indignação da classe culta, que era natural exigisse uma devassa impiedosa à moralidade das monjas do Paraíso.

Logo pela manhãzinha foi o chantre, Diogo Paim Cisneiros de Villugas, por ordem do prelado, pedir à senhora abadessa uma entrevista. A dona veio, ainda com os olhos inchados dum mau sonho, amparada à bengala, receber sua ilustríssima com todos os tics da mais cerimoniosa deferência. Falou de diversas coisas, muito de leve aludiu aos tabuleiros de ovos tostados que tinha enviado na véspera ao arcebispo, e quando D. Diogo pousou no milagre, redarguiu-lhe que ainda o achara pequeno, dada a qualidade de ovelhas com que todos os dias a autoridade eclesiástica lhe estava gafando o seu rebanho.

Varado daquele aprumo, o cônego pediu então secamente a história do milagre, e ela sem lhe atenuar as arestas, disse-a toda, concluindo que atenta a penumbra de que a criminosa se cercava, nunca poderá suspeitar do seu estado, e filiara os gritos do parto enfim, nalguma dessas crises dolorosas frequentes em mulheres tolhidas de histeria. A troca do menino Jesus pelo crianço fora um rompante de escândalo, que se por um lado merecia castigo, por outro estava a pedir um exame sério as faculdades de razão da inculpada. Quanto ao efeito moral do milagre, lastimava-o com todo o pudor da sua alma; forçoso era que a comunidade sofresse a abominação que ele continha, e soubesse resistir virtuosamente aos chascos e desdéns das línguas viperinas, que já tinham começado a apontar o mosteiro com um lugar de luxúria e danação.

— E é freira ou noviça, a criminosa?

— Freira professa, Sr. chantre.

— Professa deste claustro.

— Se assim fosse, responderia por ela, como por mim.  A criminosa veio de Montemor o Novo há quatro meses.

— Jesus, que vai dizer!?

— É tarde pr'a lho ocultar. A autora do abominável sacrilégio, é efetivamente a irmã de vossa senhoria.

— Tio do menino Jesus, eu! nesta idade! dizia D. Diogo, largando do Paraíso esbaforido.

Ao cabo de grandes discussões e manejos diplomáticos, temperaram-se as coisas por maneiras de se fazer uma procissão congratulatória, da catedral para o mosteiro, e se cantarem Te-Deuns — nunca ninguém soube dizer por gratidão de quais favores celestiais. Para evitar piores escândalos, deixou - se o menino Jesus do Paraíso entregue aos cuidados da mulher do hortelão, que todos os dias o levava a madre Ana de Villugas, sua madrinha e generosa protetora, acostumando-se o pequeno a viver entre as saias das madres, como vergôntea da casa, e a ir medrando na suasão de o fazerem algum dia cônego regrante ou arcebispo. Infelizmente, madre Ana de Villugas veio a morrer muito cedo, e não acautelou a sorte do pequeno; e quanto ao chantre, tinha em casa sobrinhos mais chegados, por quem espargir os consideráveis haveres do seu remanescente. De sorte que nascido em berço dourado, tive as homenagens do povo, como os filhos dos reis, mas tanto pôde o capricho da fortuna, que vim a cair de menino Deus, em sapateiro. Não me lastimo! Foi quanto meus pães adotivos, hortelões no convento, puderam fazer de melhor em meu favor, e por aí tenho vindo a remontar sapatos e a beber pingoletas, vendo o meu trabalho medrar, e com ele sete rapagões como umas torres, que renunciaram aos seus direitos na sagrada família, já se vê, visto saberem cá neste mundo o nome todo de seus pais.



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Fialho de Almeida, em “O País das Uvas” (1893)
Desenho de Euclides (Revista Vamos Ler!, 18/12/1941)
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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