quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O boneco vermelho (Conto Natalino), por Carlos Garcia



O boneco vermelho

— E Ele vem, mamãezinha? Pedrito disse que Ele só dá presente a menino rico...

A mãe afagou a cabeça do filho. Um sorriso de amargura lhe contraiu as faces.

— É mentira dele, não é, mamãezinha?

Neste momento bateram à porta. D. Florência foi atender, enxugando os olhos. Quando voltou, deixou na cadeira um embrulho. E já alegre, beijando o pequerrucho:

— É mentira. Joãozinho. É mentira...

***

D. Florência costurou, a tarde toda. Muitas vezes a alegria está dentro de um embrulho. Aquela encomenda salvara a situação. Sim, era mentira. Papai Noel dava presente também a gente pobre. Sim era mentira. E enquanto a agulha se moveu, rápida, costurando a calça, D. Florência fazia cálculos. O boneco devia ser de celuloide. Mas celuloide se amassava. Era melhor de borracha. Daqueles que tinham um apitinho nas costas. Dos vermelhos, como o de...

Tinha acabado. Levantou-se e fez o embrulho. Trancou a porta. Joãozinho estava brincando na calçada do vizinho. Antes de sair, olhou o filho lá no meio dos outros. E saiu sonhando com o boneco vermelho. Como ele fica ria alegre!

Quando D. Florência voltou, trazia uma caixinha na mão. Era o presente de Papai Noel... O resultado de seu trabalho. O presente do filhinho. Ha quanto tempo ele não tinha um brinquedo. O carrinho se quebrara. A bola, lembrança ainda do pai, um menino da rua havia-a roubado. E nunca mais tivera nada. Às vezes ele ficava tão triste... Sentava-se nos cantos escuros da casa, com os olhinhos rasos d’água...

D. Florência empalideceu. Lá no meio da rua, um agrupamento. Gente que chegava. Gente que saía ás pressas. Um automóvel parado.

D. Florência estugou o passo. Corria quase. Que acontecera? Já perto, uma mulher veio correndo ao seu encontro. E tremendo a voz:

— Joãozinho morreu. O automóvel pegou...

***

Foi no dia de Natal. No meio da sala, um caixãozinho azul. Uma cadeira, uma imagem e duas velas. Já o sol ia alto. O enterro ia sair. Pegaram o caixão. Mas um grito se ouviu:

— Esperem!

E uma mulher, soluçando, abriu o caixãozinho azul. Um boneco vermelho assobiava nas suas mãos nervosas. E ela, molhando o cadaverzinho de lágrimas:

— Leve, meu filho, é seu. Papai Noel trouxe...




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Carlos Garcia
Revista “O Malho”, dezembro de 1934.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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