domingo, 25 de novembro de 2018

O Fausto de Capim Grosso (Conto), de Iba Mendes


O Fausto De Capim Grosso

Tinha acabado de completar vinte e oito anos de idade. Estava transbordando num verdadeiro mar de felicidade e contentamento. Solteiro, jovem e bonito, sentia-se indestrutível e transportado a todos os céus possíveis e impossíveis. Encontrava-se, pois, naquele instante da vida em que se deseja que os ponteiros do tempo cessem e que se congelem para sempre os belos dias de juventude.

Faustino era o seu nome. Nascera em Capim Grosso, pequena cidade do interior da Bahia, filho único de um próspero comerciante e proprietário de uma grande rede de lojas do ramo de eletrodomésticos.

Ao completar dezoito anos de idade, os pais o mandaram para Salvador, a fim de concluir ali os seus estudos, e cinco anos depois, já bacharel em Direito, retornou à sua cidade natal, onde passou a trabalhar nas empresas da própria família.

Ali chegou cheio de planos, sonhos e ambições.

É preciso salientar, porém, que não se incluía aí o plano matrimonial. Ao contrário, ensoberbecia-se no fato de nunca ter se apaixonado e esnobava daqueles que diziam sonhar com um grande amor, com família e com filhos...

— Amor? Ah, não! não nasci para essas coisas — dizia em tom de galhofa à roda de amigos.

Não obstante manifestasse imensa satisfação com o tipo de vida que levava, nutria ele — secretamente dentro de si — de uma angústia vulcânica e avassaladora, a única coisa que de fato o perturbava e que com frequência o fazia sentir-se melancólico e infeliz: era o medo mórbido de envelhecer. Daria tudo, inclusive toda a fortuna que viesse a herdar, a fim de manter-se jovem para sempre. Apesar da idade e dos estudos, ainda não havia amadurecido o suficiente  para lidar com as naturais leis da natureza, e se alimentava às ocultas da mística de uma eterna juventude.

Com andar do tempo, a preocupação com a idade dominou-o completamente, e de tal modo que passou a se envolver com o ocultismo, algo que ele mesmo denominou de “a ciência da arte e do mistério”, embrenhando-se nos conhecimentos secretos da maçonaria, da cabala, da teosofia, da astrologia, da alquimia e das religiões politeístas, como aquelas outrora praticadas no antigo Egito e em outras civilizações da antiguidade. Dedicou-se ainda de corpo e alma aos estudos acerca dos mistérios da vida, aprofundando-se no conhecimento da Bíblia, dos livros apócrifos e demais obras consideradas sagradas, especialmente do famoso “Livro de São Cipriano”, acreditando que encontraria nele, se não uma candeia, ao menos uma pontinha de luz para a perpetuação eterna da sua mocidade.

***

Era o dia de procissão de São Cristóvão, o santo padroeiro de Capim Grosso. Durante toda uma semana,  a cidade enchia-se de visitantes, oriundos de localidades próximas, muitos dos quais ali compareciam apenas para usufruírem dos atrativos a que muito excediam à simples espiritualidade, tais quais as quermesses, os bingos, os leilões, as gincanas, as bebidas e as comidas típicas, que os extasiavam. Dentre esses visitantes, apareceu um por nome de Goethe, homenzarrão alto, loiro, elegantemente vestido e com acentuado sotaque alemão. Este logo chamou a atenção das pessoas, não propriamente pelos seus traços físicos, mas por seu sedutor carisma e pela áurea de mistério que parecia lhe envolver. Faustino foi um dos que mais se deixou impressionar pelos encantos deste ilustre visitador.

Foi assim que, em consenso com a família, convidou-o para um jantar em sua casa no domingo próximo. O homem acedeu com  satisfação o convite, e retirou-se sorrindo.

No dia aprazado, lá compareceu o misterioso alemão, que ali chegou todo prazenteiro e falando muito discretamente. Pouco a pouco, porém, estabeleceu-se intimidade entre os convivas, e todos riam como velhos e conhecidos amigos.

Durante toda a ceia, Goethe mostrou-se de uma cortesia exemplar, que a todos encantou. Faustino perguntou-lhe muitas coisas: de onde vinha, o que fazia, quem eram seus pais, se era casado, se tinha filhos, enfim, uma chuva de perguntas. Ele, por sua vez, contou várias histórias e discorreu ainda sobre ciência, religião, filosofia e outros variados assuntos, os quais fizeram o coração do jovem transbordar de curiosidade. Queria conhecê-lo melhor, e até aventou para si mesmo a ideia de estar diante de um místico guru, o qual muito poderia ensinar-lhe acerca dos mistérios da vida e, quem sabe, apontar-lhe um novo horizonte para seu angustiante dilema.

Terminado a refeição, foram ambos até a biblioteca, que era um elegante recinto anexo à casa, e que constava de dez grandes estantes. Em três delas estavam os livros sobre Direito, da história da jurisprudência e suas inúmeras ramificações pelo mundo; outras duas continham os livros da Literatura Universal, os clássicos da Literatura Portuguesa e Brasileira, dentre os quais se incluíam as obras de Augusto dos Anjos e de Fernando Pessoa; nas demais estantes constavam os livros sobre religião, misticismo, filosofia e sociedades secretas. Goethe examinou-os bem, retirando entre eles o misterioso “Livro da Capa Preta”, aquele escrito por São Cipriano, o bispo de Cartago. O rapaz estremeceu ligeiramente, enquanto o homem, sorrindo, fixava-lhe um olhar penetrante e resplandecente.

— Queres de fato saber quem eu sou? — perguntou-lhe ele sorrindo, como se já antecipasse a resposta.

Agitado e tomado de pavor, Faustino deixa-se cair, sem voz, sobre um velho sofá de couro. Respira fundo e, após breves segundos, responde com a voz trêmula e os gestos confusos:

— Sim, sim, és Lucius!

— Pois aqui estou — replicou-lhe este sorrindo com ar de triunfo e íntima satisfação.

O rapaz permaneceu imóvel por algum tempo. Queria falar, a voz, porém, sumiu-lhe novamente da boca. Um frio desceu-lhe por toda a espinha, enquanto seus pelos eriçaram-lhe por todo o corpo e o suor cálido caía-lhe em bagas pela testa.

O misterioso homem acercou-lhe lentamente e balbuciou algumas palavras obscuras e sedosas no seu ouvido. Estas pareceram revigorar-lhe os ânimos, fazendo com que o moço se erguesse de súbito, como se estivesse preparando voo para as alturas. Neste instante, as mãos deles apertaram-se com energia: entendiam-se e riam-se como se fossem bons e velhos amigos.

Daí em diante, por espaço de alguns anos, sucedeu-lhe uma enxurrada de acontecimentos: o pai e a mãe faleceram num acidente de automóvel; de posse da herança, foi ele passear na Europa, retornando meses depois, feliz e tão jovem quanto antes. Já em sua cidade, assumiu o controle das empresas da família, expandiu os negócios com a incorporação de outras sociedades e passou a encabeçar a lista dos homens mais ricos do Brasil.

Quanto ao seu dilema com a velhice, desde o diálogo da biblioteca, dissiparam-se-lhe todos os medos e preocupações. Seus cuidados agora se dirigiam exclusivamente a questões do amor. Casamento era assunto que não se via em sua agenda, apesar da imensa procissão de pretendentes. Evitava falar disso e se enfadava com os que insistiam em lembrá-lo.

— O quê? casar? Não, não nasci para marido — repetia entediado aos que teimavam em querer mandar-lhe ao altar.

Com o passar do tempo, um fato começou a prender a atenção dos habitantes da cidade. Apesar dos anos longos e desvairados, Faustino parecia não envelhecer. Alguns atribuíam esta proeza a fartura de dinheiro que tinha, a qual lhe dava acesso aos mais sofisticados avanços da medicina no âmbito da estética. Outros, contudo, levantaram a suspeita de que ele havia feito um pacto com o diabo, e que por isso não envelhecia.

Ao completar cinquenta anos de idade, já um pouco mais gordo, porém mantendo a mesma aparência de trinta, relaxou-se ele em suas preocupações com as coisas do amor. Foi nessa época que conheceu Margarete, uma linda e fresca viúva de trinta anos, que lhe cativou o coração e olvidou de sua mente todo o seu passado tenebroso.

Naquela noite sentia-se no auge da felicidade. A casa estava tomada por convidados importantes, gente de todos os lugares, pessoas da alta sociedade capim-grossense e de toda a redondeza, grandes fazendeiros, comerciantes, artistas e políticos. Margarete, com seu belo vestido azul, era o centro de todos os olhares. E ele extasiava-se ébrio de amor ao lado dela...

Terminada a festa e dispersados os convidados, ele conduziu a amada até a casa dos pais, retornando logo em seguida à sua bela mansão. Ali chegando dirigiu-se até à sala da biblioteca, onde se sentou meditativo no velho e empoeirado sofá de coro.

De repente, como se lhe surdisse uma cobra, apareceu num vapor de fumaça, um homem alto, loiro e com forte sotaque alemão. Era o mesmo e  velho Goethe, que esboçava um riso  largo e zombeteiro. Trazia nas mãos um documento todo redigido em tinta rubra, ao fim do qual se via escrito com o próprio sangue: Faustino Carneiro Rios.

— Vim trazer-lhe a conta — disse-lhe o visitante soltando uma formidável gargalhada que se fez ecoar pela casa inteira.

Faustino ergueu-se sobressaltado da cama. Seus olhos pareciam saltar para fora, como se estivesse na iminência da própria morte. Neste momento lembrou-se do antigo diálogo que tivera na biblioteca, do livro da capa preta, do pacto que assinara... Lembrou-se, enfim, de Margarete.

Goethe soltou nova gargalhada e se esvaiu pelos ares, deixando para trás lágrimas e fumaças.

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