segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Quite com a vida (Conto), de Iba Mendes



Quite com a vida
Sentiu-se velha pela primeira vez aos vinte e cinco anos de idade. Até então não alimentara a menor preocupação com o tempo, nem havia formulado qualquer reflexão filosófica sobre a velhice, bem como dos seus naturais efeitos. Agora, porém, aquelas duas linhas de expressão bem no meio da testa, entre as sobrancelhas, vinham deitar abaixo suas ilusões de juventude, brotando-lhe na alma um sentimento de tristeza e frustração, como se apenas ali descobrisse que a vida era breve.
O espelho, que até então se lhe mostrara indiferente, passou a exercer sobre ela uma atração quase molecular, como que na química. Mirava-o repetidas vezes ao dia, não porque se tornara repentinamente vaidosa, mas para ter certeza de que suas feições preservavam os traços da primeira mocidade.
Em vista disso, passou a observar perscrutadoramente outras mulheres, a fim de se comparar com elas, a ver se os vestígios da idade lhes eram mais expressivos, e se deliciava no seu íntimo quando as viam mais afetadas pelas intempéries do tempo.
A melancólica constatação de que envelhecia acrescentou-lhe ainda novos hábitos, os quais, com o passar dos anos, converteram-se em verdadeiras manias e obsessivos vícios. Tornou-se comum, por exemplo, a peregrinação a dermatologistas e esteticistas, que lhes prescreviam cremes e lhes apresentavam as mais variadas dicas de como manter a pele saudável e evitar o aparecimento das rugas...
Aos trinta e cinco anos já havia se utilizado de tudo, das substâncias antioxidantes aos ácidos glicólicos. Experimentou ainda o lifting, o peeling, a vacina anti-idade, os esfoliantes, as hidratações, a máscara de ouro, o botox, entre outros inúmeros tratamentos disponíveis no mercado, os quais, se não surtiam resultados práticos, ao menos originavam um efeito psicológico confortador, que lhe fazia sentir mais jovem e mais feliz.
Mas o tempo pareceu correr mais rapidamente do que costumava, e com ele seguiu-se a angustiosa desilusão da Sibila. Aos cinquenta anos apresentava as características típicas da idade, não obstante todos os cuidados que tivera para camuflá-las. Sozinha, porém, diante do espelho, transbordava-se de uma amargura íntima e resignada, que a fazia desesperar-se. Não era propriamente o medo da velhice, mas de sua inevitável consequência.
Com o decorrer da idade tornou-se amargurada e infeliz, permanecendo a maior parte do tempo enclausurada dentro de casa, onde se consumia em angústias e tristezas. Assim esteve longos anos, introspectiva e imersa em ponderações filosóficas.
Um dia, porém, surgiu-lhe de súbito um inexplicável interesse pelas coisas simples da vida. Foi quando, por fim, desistiu dos cosméticos e dos demais subterfúgios oferecidos pela indústria da beleza. Os cabelos, outrora tingidos, agora se viam grisalhos e longamente caídos sobre os ombros. As roupas passaram a refletir o desapego pela ostentação e pelo luxo. O rosto transparecia uma placidez natural, sem qualquer disfarce. Doravante tudo nela era simplicidade e desprendimento.
E foi assim, sem extravagâncias, sem prestígio público e sem grandes remorsos, que chegou aos setenta anos de idade. Sentia-se quite com a vida, que considerava seu único e verdadeiro legado.

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