sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Um australopithecus no meu quintal (Conto), de Iba Mendes



Um australopithecus no meu quintal
Tinha acabado de me levantar e, como diria Bandeira, tomado o café que eu mesmo preparei. Abrir a porta, e eis ali uma estonteante surpresa! Um australopithecus sentado sobre um velho muro, na mesma posição do “Pensador” de Auguste Rodin.
E agora? ponderei mentalmente perplexo: telefonar para a polícia ou chamar um darwinista especializado nesse tipo de bicho?
Não era a primeira vez que via um australopithecus. Quando tinha cinco ou seis anos de idade e morava no meio do mato, lembro-me de ter visto um ente igualzinho aquele, com a diferença de que outro não estava assim tão introspectivo e com ares de um antigo pensador grego.
Não, não irei acionar a polícia. Talvez seja o caso de convidá-lo para tomar café e, quem sabe, saborear mais tarde um bom churrasco ao som de “A Conquest of Paradise”. Os australopithecus devem ter um gosto muito especial por churrasco!
Uma dúvida, porém, veio aguçar ainda mais o meu desorientado espírito: e se ele, no seu instinto ainda animalesco, arremessar contra mim suas garras afiadas? Meu Deus!
Um turbilhão de ideias aflorou então minha mente confusa. Não obstante temeroso e apreensivo, pus-me em sua direção, na expectativa de que ele fosse, se não o próprio neandertal, ao menos seu ancestral mais próximo. Sim, quem sabe não estaria ali a prova cabal de que tanto precisa a ciência para provar de uma vez por toda a ancestralidade comum universal? Aproximei-me então dele e com um sorriso de temor cumprimentei-o:
— Bom dia, senhor australopithecus!
Neste momento sentir minha voz embargada pela satisfação inesperada de topar com a figura de quem tanto estudei nos livros de minha saudosa juventude.
Ele, no entanto, permanecia estático e todo absorvido em si mesmo, assim tão excêntrico quanto os velhos filósofos. Então insistir:
— Bom dia, senhor australopithecus!
Encarando-o ergui minha mão para cumprimentá-lo. Ele, porém, esquivou-se para trás, numa nítida demonstração de que não estava disposto a monólogos ou cortesias. Que fazer? pensei aflito.
Neste instante um pardal, que disputava com os pombos os restos de um pão, deslocou-se voando sobre sua cabeça:
— A vida do homem é como a sombra de um pássaro que nos sobrevoa, balbuciou ele introspectivamente.
Fiquei atônito. Estava bem diante de um australopithecus filósofo! Sim, um australopithecus filósofo!
Perguntei-lhe então se tinha lido aquela meditação no Talmude ou se a havia extraído de algum dos antigos filósofos gregos. A partir daí entramos no mundo dos livros, e muitos nomes foram citados. Estranhamente, porém, em nenhum instante ele fez menção da pessoa do naturalista inglês Charles Darwin, nem do seu livro “A Origem das Espécies”. Curioso, indaguei-lhe:
— E Charles Darwin, o que tens a dizer deste eminente filósofo?
Súbito ele ergueu-se e caminhou apressadamente na direção do vento, desaparecendo logo em seguida como um zumbi numa noite de sexta-feira.

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