sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A Ermida (Conto), de Rodrigo Otávio


 A Ermida
Certa vez, em diligência, na comarca de meu primeiro emprego judiciário, no interior de Minas, longe de arraiais e povoados, em montanhosa região de lavra de ouro, viram meus olhos, na pesquisa curiosa em que se apraziam dos panoramas e perspectivas, as ruínas de uns velhos muros, na orla de um bosque, já dentro da espessa mata sombria.
Que as fosse ver de perto e as visitar não mo permitiram guias e companheiros, que, timoratos, nem mesmo um rápido e fugaz olhar lançavam sobre elas.
Por quê?
— O sítio era mal-assombrado, as ruínas tinham sua misteriosa história trágica. Aí nada pude obter que me contassem; ao passo apressado das alimárias espertas, passamos de largo. Mais tarde inquiri, busquei saber, e eis quanto me disseram.
Que intenção piedosa, ou que mal arrojada plantaria ali os quatro muros da pequena igreja, era coisa que ninguém sabia ao certo.
Lendas, inverossímeis algumas, fantasiosas todas, envolviam as tristes ruínas.
O sítio era soturno. À meia encosta de uma colina que, logo após, se erguia, quase a prumo, em rocha, escalavrada e limosa, pela altura, além, o acesso do santuário era dificultado por grandes blocos erráticos que se lhe acumulavam em torno. Por um lado, a dois passos, o solo abria-se num grotão, em cujo fundo referviam águas vindas por ignotos, invisíveis rumos.
Hoje, a mataria investiu o templo, assaltou-lhe os pátios, crescia do interior, onde ruíram os tetos; apenas se erguiam as quatro paredes abertas em fendas, olhando, desconsoladamente, sem ver, para os quatro lados da terra, pelos vãos das portas e janelas, escancarados como orbitas vazias...
Dizia-se que nesse trágico lugar, um noivo, em acesso de paixão, tresvairado, sacrificara a esposa, que acreditara impura; e que, mais tarde, nas ânsias do remorso e da dúvida, viera, penitente e louco, plantar um templo à misericordiosa Mãe dos homens.
Outros prendiam a criação da solitária capela à dor de um velho pai, que numa alegre excursão de amazonas e cavaleiros, vira de improviso, o vulto da filha estremecida resvalar nas lajes e desaparecer no abismo...
Corriam ainda outras versões; o certo é que bizarra fora a ideia de erigir-se, neste agreste recanto a pequena igreja, cuja ruína lúgubre a floresta ora envolvia. Por muitos anos vivera, entretanto, essa ermida de estranha e misteriosa origem e que teve não menos estranho e misterioso fim.
Dos arraiais próximos vinham ali satisfazer promessas. A invocação da Senhora da Serra era, por toda a redondeza, respeitada e tida por miraculosa. Romeiros piedosos entretinham, preparado para as cerimônias do culto, esse lugar sagrado, duplamente sagrado, pelo sentimento religioso e pela superstição do mistério. Conta-se que muita dor arrefeceu, muito martírio moral aliviou.
O certo é que na calma de seu retiro, o pequeno templo nunca estava abandonado; a lâmpada do santuário jamais deixaram que se extinguisse e, não raro, lá dentro, por dias e noites, velas e círios ardiam, votivamente, numa crepitação solitária.
Contudo, não tinha a ermida um serventuário efetivo, nem mesmo um simples guarda; guardava-a e servia-a o respeito comum dos habitantes próximos.
E, do mesmo modo porque um dia a igrejinha aparecera, um dia perceberam os fiéis que a ermida tinha seu cura. Um padre, ou alguém, que um velho hábito envergava, ali se havia instalado.
Ao fundo, alguns passos distantes, sobre a rocha, construiu-se uma tosca, pequena casa, residência do religioso.
E, sem que ninguém pensasse em inquirir quem era e de onde viera, o improvisado vigário foi visto e aceito, num acordo tácito que o sentimento reciproco selou.
Aumentou de tal jeito o mistério. Para templo, que não se sabia quem construíra, chegara um cura, que se não sabia de onde vinha. E a fama da milagrosa ermida cresceu e dilatou-se. O ermitão não era velho, nem moço. Trazia n'alma, porém, a funda preocupação de uma dor irreparável, que de todo em todo, o prendia aquela religiosa empresa.
Não parecia criatura de nossos dias: depois que chegara, jamais o viram entregue a outro mister senão o que o sacerdócio lhe impunha. Se bem que, de seu estado coisa alguma se soubesse, e já, de muito, houvessem desaparecido vestígios de tonsura, na exuberância de uma cabeleira loira, que lhe sobrava na nuca e se confundia com a fina barba que lhe envolvia o rosto, geralmente o recebiam como confessor e celebrante.
A clientela dos fiéis crescia: ex-votos cobriam as paredes internas da pequena igreja, cerimônias celebravam-se amiúde, e, na sobriedade de seu viver, nada faltava ao cura para as necessidades materiais da vida.
E desse modo, nesse entendimento entre fiéis e pastor, foram passando anos, que criaram para o estranho ermitão a auréola de santidade, que a persistência da vida austera e a dedicação exclusiva à obra espiritual, de mais em mais acentuava.
As missas de domingo, sobretudo, atraíam maior concorrência, a despeito da hora matinal em que eram ditas.
E assim seguiram as cousas, sem história, na continuidade serena e uniforme dos dias e dos meses.
Mas, tudo acaba; tudo o que existe no mundo está marcado para acabar.
Certa manhã, num domingo, rezava, na compunção habitual, o eremita, a missa matutina. Não notara a assistência, no momento, mas depois a circunstância foi assinalada e confirmada por muitas vozes, que o celebrante manifestava, nessa clara manhã, uma abstração maior, um ar de maior desprendimento dos aspectos materiais do mundo.
Por vezes, em meio das orações, braços erguidos, parava o ofício, como num êxtase, alheio à vida, alheio aos fiéis; depois prosseguia, arrastadamente, entregue, de todo, à sujeição espiritual do ato que celebrava. No momento da consagração, vários fieis comungaram, presos da emoção enorme que o aspecto sobre-humano do cura lhes transmitira na solenidade do seu gesto e na dolorosa expressão de seu rosto.
Retirando-se, após, para o altar, preparou para si o corpo e o sangue de Cristo; o pequeno acólito, ao deitar no pobre cálice o vinho, que o ritual prescreve, viu, surpreso, que, por sua vez o cura na mesmo despejou também o conteúdo de um pequeno frasco.
E a missa continuou. Feitas as orações, abençoado esse vinho, o cura tomou o cálice e o absorveu de um trago. Não rezou mais: pousando o cálice sobre o altar, ergueu os olhos para a imagem, na brancura de suas vestes e, alguns minutos após, levando a mão ao peito, prostrou-se e caiu pesadamente, ao chão.

Acercaram-no, atônitos, os fiéis; olharam-lhe o rosto, apalparam-lhe o corpo: estava morto.
***
Como um pousado bando de pombos, que a súbita queda de um corpo, em meio deles, dispersa, fazendo-os voar, céleres, por direções diversas, tal os fiéis, desordenadamente, em pânico, abandonaram a ermida.
Ninguém ousou volver atrás um olhar curioso e, cada qual, foi em casa, na segurança do lar, no aconchego dos seus, que parou e respirou. E dias correram  e meses passaram e anos fluíram, sem que pessoa alguma se atrevesse a acercar-se da igreja misteriosa.
O corpo do cura sacrílego, ali encontrou o seu original mausoléu, onde, insepulto, esperou a ação fatal da decomposição. E esse novo mistério envolveu, no vago de sua história, a ermida misteriosa.
Quando, passado algum tempo, chegou, de um longínquo lugar, um bispo, cuja autoridade se desconhecia, decretando a interdição da solitária e mal-assombrada capela, já sobre ela a superstição do povo havia feito pesar a sanção de um interdito mais eficaz e solene.
O abandono dos homens estimulou a ação da natureza, entregue à sua expansão irrefreada.
O mato tomou, os caminhos, envolveu as paredes, enredou em seu intrincado a pequena construção, que, afinal, ruiu, sobrevivendo, apenas, na consistência de uns muros e no mistério, que no fundo das almas recalca, a ingenuidade primitiva da gente da serra.

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Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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