sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Alma frívola (Conto), de Sud Mennucci



Alma frívola
No dia seguinte o Álvaro se achava na casa do capitão Joaquim da Mota, à espera dos autos que os havia, a ele e mais a comitiva, de conduzir à checara “Celeste”.
A companhia era a mesma do jantar do dia anterior.
D. Laura, à chegada do professor, reclamou-o. Subiu no automóvel com ele e só permitiu a entrada de três petizes, dos quais o mais velho não contava mais de sete anos.
E, enquanto o veículo corria sobre o pedregulho da alameda ensombrada, que conduzia à quinta, ela foi-lhe dizendo um sem número de frases excitantes.
Eles haviam ficado os últimos na fila dos automóveis e, para evitar a poeira da estrada, distanciavam-se muito do último que ia na frente.
— Eu gosto das almas como o senhor, solitárias e recolhidas, que mesmo nos momentos de grande alegria, não se iludem e não deixam nunca de ser o que são.
— Más eu não sou absolutamente hipócrita e a senhora está me emprestando; essa qualidade, exclamou, num riso largo, o mestre-escola.
— Não torça, Álvaro. O senhor entende-me bastante, para querer mangar comigo.
— Mangar com uma tão linda mulher? Mas seria ignóbil da minha parte. Que quer que lhe diga? Deixemos de casos intrincados de almas alheias, especialmente da minha, que escapa à minha própria análise. Falemos mal dos outros. Não acha que seja um bom emprego?
— Por exemplo, riu maliciosamente D. Laura, falemos mal de sua namorada.
— Pois seja dela.
— Dir-me-á quem é?
— Para que, se isso não passa de um namorico insignificante, em que eu sou o provocado?
— É bonita?
— É. A figura que, ontem, o Sebastião usou a respeito dela é exata: é linda como unia boneca de “biscuit”. Ou antes... não, porque as bonecas são, em geral feias. É bonita mas...
— Mas.... indagou a mulher ansiosa, mas com ar distraído, de quem quer afetar indiferença.
— Mas não me agrada.
— Mas não a deixa.
— Minha senhora, eu não posso recusar o namorico a uma menina chique. Iria contra as regras do bom tom.
— Que o senhor aliás não segue. Então para um sentimento que não tem? É ser mau.
— Não é. É mais por indolência, porque afinal o admirado sou eu e a enamorada é ela.
D. Laura riu, chamando-lhe extraordinário.
— Nem tanto quanto julga. Por exemplo, eu sou de uma timidez desastrosa.
— Não se diria.
— Como não? confirmou o rapaz. Então não acha tímido um moço que, desde ontem, tem a tentação de devorar-lhe os lábios de beijos e ainda não o fez? Não foi falta de ocasião nem de vontade.
— Foi, naturalmente, por indolência, volveu D. Laura calmamente.
— Ou melhor por timidez. Mas garanto-lhe que, hoje mesmo, tomarei desforra.
— Quem o autorizou?
— Pois é preciso, acaso, autorização?
Chegaram à chácara.
— É grande a propriedade? indagou o professor.
— Bastante para girar-se uma hora.
— Nesse caso dê-me o seu braço e vamos dar umas voltas por ela.
— Professor, o Sr. está com intenções diabólicas!
— Quem sabe? Acaso sente-se mal em saber que dá o braço a um cavalheiro que está pouco bem disposto a seu respeito?
— Absolutamente. Não sou mulher que me espante por tão pouco.
— Então vamos.
E os dois afastaram-se, a passo lento, por uma das alamedas da quinta.
D. Laura sentia-se feliz de encontrar-se no meio das árvores amigas.
— Infelizmente não há vi ração, disse sério, num ar compungido, o Álvaro.
— Para quê? inquiriu a mulher, admirada.
— Para tornar o nosso passeio digno de uma descrição clássica de Ponson du Terrail ou, quando menos, de uma preleção pedagógica de dia de Festa das Árvores.
— O senhor, por mais que se esforce, não pode esquecer-se de que é ferozmente irônico.
— É a minha mania. Não posso torcer a veia de meu temperamento.
— Podia ter outra e deixar essa; que já é velha. Hoje toda a gente faz ironias. É moda.
— Queria que fizesse madrigais?
— Era talvez melhor.
— Mas, D. Laura, madrigais todo o mundo os fez e os faz. E eu preciso acompanhar a minha época para poder justificar o seu epíteto de extraordinário.
— Lá volta o senhor. Sabe, Álvaro, que não é assim que se agradam mulheres?
— Eu sei. Elas preferem beijos... A senhora, contudo, é muito alta e eu precisaria arranjar, para dar cumprimento ao preceito, uma situação qualquer para fazê-la abaixar-se ou sentar-se. Aqui não há bancos e há apenas dois minutos que descemos do automóvel: não deve estar cansada... Demais, eu não conheço a arte de seduzir. Não entendo da química do amor.
D. Laura riu clamorosamente e indagou:
— Nunca teve conquistas?
— Se as fiz? Não...  Mas já fui conquistado uma vez; ainda não há dois meses.
— E foi o senhor o conquistado?
— Sim, porque eu nem sequer disse a essa mulher que a amava, nem por brincadeira.
— O senhor é um excêntrico.
— Parece que a senhora se diverte a me aplicar adjetivos. Acha-me com feição de substantivo?
Ela riu de novo:
— Está ou não justificando o meu último dito?
— Não sei.
Os dois haviam chegado diante de uma latada de parreiras. Cachos maduros de uva pendiam, excitando o desejo.
Dali avistava-se, lá embaixo, a cidade, faiscando ao sol...
— Quer chupar uvas, D. Laura?
— Quero. Mas o senhor não as alcança. Eu, que sou mais alta, não vou até lá.
— Ali está, porém, retorquiu o professor, o caixão providencial. Espere.
O rapaz apanhou o primeiro cacho. D. Laura avizinhou-se para o receber, mas achegou-se tanto que, quando ia levar o primeiro bago à boca, o mestre escola, num movimento rápido, cingiu-lhe os braços ao pescoço e estampou-lhe nos lábios dois rumorosos beijos.
A mulher correspondeu-lhe, largando o cacho e abraçando-o com toda a força.
Depois, fingindo-se arrependida, abandonou o rapaz e, baixando os olhos, disse:
— E você não entendia de coisas de amor. Foi para isto que arranjou o caixão?
— Não se zangue por tão pouca coisa!
— Foi uma ação indigna! confirmou, batendo o pé.
— Pois então, concertemo-la diante de todo São Luís, que lá embaixo nos olha, alvitrou Álvaro, apontando a cidade.
E o professor e D. Laura abraçaram-se de novo.
 
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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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