terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Círculo Vicioso (Paródia do poema "Círculo Vicioso", de Machado de Assis)


A PARÓDIA

Círculo Vicioso
 (Paródia do poema "Círculo Vicioso", de Machado de Assis)

Vagando à toa, geme um simples vagabundo:
"Quem me dera que fosse algum dia o Intendente
Que vota, no Conselho, o imposto sobre a gente!..."
Mas o Intendente, egoísta, exclama em tom profundo:

"Se eu fosse Deputado... o quanto neste mundo,
Não seria feliz, folgando, a rir contente!..."
Suspira o Deputado: — "Eu quisera, somente,
A Senador chegar, por meu gênio fecundos!..."

O Senador, também por sua vez, anseia:
"Se eu fosse Presidente... Eu cavaria a fundo
Para gastar à beça e andar de pança cheia!..."

No entanto, o Presidente, às vezes, furibundo
Exclama, quando vê que a coisa é mesmo feia:
"Porque no nasci eu um simples vagabundo?..."

"K. LUNGA"
Revista D. Quixote, 1917.



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O ORIGINAL

Círculo Vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
“Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

“Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!”
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

“Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!”
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

“Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta azul e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”

MACHADO DE ASSIS

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