domingo, 9 de dezembro de 2018

Em caminho do Sertão (Poema), de Catulo da Paixão Cearense



Em caminho do Sertão

Bardo ou Poeta, cujas rimas
são da poesia o tesouro,
que cantas em rimas de ouro
a tua consagração,
fecha os cristais dos ouvidos,
não ouças, por caridade,
a virgem rusticidade
desta viola do sertão.

Esta linguagem bravia,
como aquela natureza,
não contém essa beleza
paciente do teu buril I
São os versos deste livro
como as águas das cascatas
e o vento, açoitando as matas
das florestas do Brasil.

Tange as cordas da tua lira
nos seus dulcíssimos trenos!
Entoa canções à Vênus
no teu ritmo lapidar,
mas deixa-me a liberdade
de descantar numa prima,
sem arte, sem voz, sem rima,
uma cabocla a sambar.

Quisera ser ignorante,
como um cantor sertanejo!...
Era esse o meu desejo!...
Não ter nenhuma instrução,
mas ter o dom do improviso,
para dizer, de momento,
as dores do pensamento
e as mágoas do coração.

Excelso, divino poeta,
que levas um mês inteiro,
beliscando no tinteiro,
para um soneto compor,
deixa um momento a Avenida,
vai lá nos matos sombrios
ouvir esses desafios
de um cabra improvisador.

Não vais sentir a rijeza
de eretos alexandrinos!
Vais ouvir os dons divinos,
que Deus concede a um mortal!
Não te importes com a sintaxe,
que isso é coisa sem valia!
Sorve somente a poesia,
que é um licor celestial.

Basta de Pã, de Netuno!
Deixa a Grécia! Deixa a Itália!...
Deixa a fonte de Castália,
que, de há muito, já secou!
Vai beber as águas frescas
de uma cacimba, que é tua,
onde, à noite, a nívea lua
seus versos brancos deixou.

Musset, D'Annunzio e Leconte,
Byron, Hugo, Campoamor,
já te imploram, por favor,
que os deixes lá descansar.
Demos um pouco de tréguas
a tanta coisa estrangeira,
que esta terra brasileira
tem muito e muito que dar.

Eu bem sei que esses poemas
nunca serão recitados
nos salões opulentados,
por um moço de altivez.
Seria um crime ultrajante
dizer estas frioleiras
nessas rodas brasileiras,
onde se diz em francês.

Mas, que importa? Nada aspiro
neste país, nesta terra,
que tantos bardos encerra,
e tanto filho abandona!
Eles têm a lira ebúrnea!
São Orfeus!... São divindades!
E eu só sei cantar saudades
nesta inefável sanfona.

Se não traduzo, a contento,
as queixas lá da viola,
uma coisa me consola: —
é cantar tudo o que ouvi!
E embora vilipendiado
com inofensível fereza,
pertencer à natureza
desta terra em que nasci.

Nada achareis neste livro,
Narcisos afrancesados!
Vós estais acostumados
com essas liras de além mar!
Este instrumento que eu trago
aqui, por cima do peito,
é tão bárbaro e imperfeito,
que só eu posso escutar.

Nesta floresta de versos,
nesta espessa mataria
não se escuta a melodia
de um Chantecler de Rostand!
No sertão destes poemas,
não canta um galo estrangeiro,
mas um galo brasileiro,
saudando a luz da manhã.

Quereis saber de que cor
são estes meus pobres trenos?
São da cor das folhas verdes,
pisadas pelos serenos!

Nos dedos rudes que escrevem
estas cantigas bucólicas,
não reluzem os fulgores
de anéis de pedras simbólicas.

Qual seria o anel do poeta,
se o poeta fosse um doutor?
Uma Saudade brilhando
na cravação de uma Dor!
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E vós, gentis senhoritas,
que falais o italiano,
como o francês soberano,
as línguas em que cantais,
cuidado com a língua bárbara
desses sertões lá do Norte,
trescalando o cheiro forte
dos gigantes vegetais!

Fechai meu livro, senhoras!
Com o vestido decotado,
com o cabelo penteado,
e esses finos sapatinhos,
voltareis arrependidas,
trazendo os vossos sapatos
cheirando a folha dos matos,
e as vestes cheias de espinhos,

Nada, pois, de sacrifícios,
sem colher um resultado!
Cuidado! Muito cuidado
com os acúleos... do espinheiro!
Em vez de um terno "je t'aime"
de um moço guapo e bonito,
ouvireis somente o grito
da paixão de um marroeiro.

Nada, pois, de sacrifícios!
Nas margens de uma Avenida,
não se vê "Terra caída",
coisa que não tem valor!
Não crescem árvores rudes
que depois de decepadas,
nós já vimos revoltadas
contra um fero "lenhador"!

Fechai meu livro, Senhoras!
Certo, eu sei, não interessa
a história de uma ''Promessa",
uma flor do coração!
Um meigo e simples transunto
das saudades sertanejas
das noites de São João.

Que há num "passador de gado",
(direis vós) um homem rude,
com sua bronca virtude,
que vem ver a Capital,
e volta vociferando,
comparando esta cidade
com a rudeza e a soledade
da sua terra natal?!

Não! Lede-a com dor, com mágoa,
essa história, essa romança
de um homem feito criança,
esse "Quinca Micuá",
alma pura, nobre e santa,
como uma flor redolente,
que, talvez, tão inocente,
não exista igual por cá.

Não reciteis, senhoritas,
o poema religioso
de um "cangaceiro" extremoso,
o matador das estradas,
porque vereis, sem surpresa,
esses moços que escutarem,
as gargantas rebentarem
em tremendas gargalhadas!!

Vós, que lágrimas verteis,
lendo a insulsa serenata
de um poeta nefelibata,
um poetastro verlainal
admirai, na "vaquejada",
como um rude boiadeiro
respeita o seu companheiro,
mesmo sendo um animal!

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Com prazer ouço uma orquestra
no multicor dos sonidos
e, logo após, os carpidos
da viola, cantando a dor,
assim como, lendo o Dante,
logo depois ouviria
um canto dessa poesia,
que tem cheiro de verdor!

Tenho lido, desde Homero,
tudo o que se tem escrito
em versos de ouro e granito,
de impecável perfeição,
mas, (talvez seja ignorância),
às vezes fico encantado
com um verso imetrificado
de um Manoel do Riachãol!!

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Formosos, doces Narcisos,
que andais vestidos de Imprensa,
cheios de orgulho, a doença
dos ''Grandes", dos ''Imortais",
que de cinco em cinco dias
tendes o rosto gravado
sob um soneto plagiado,
nas colunas dos jornais!...

Vates, Poetas principescos,
vestidos de seda e de ouro,
a minha veste é de couro,
são rudes os versos meus!
Mas só reconheço um Príncipe
da Universal Monarquia,
Rei e Papa da Poesia,
cujo nome é — Deus!

Só Deus!

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