sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Meus quarenta anos (Paródia dos "Meus Oito Anos", de Casimiro de Abreu)


A PARÓDIA

Meus quarenta anos
 (Paródia dos "Meus Oito Anos", de Casimiro de Abreu)

I
Ah! que desgosto que eu tenho,
Da noite de minha vida,
Da minha "chance" perdida,
De desfrutar muito mais;
Que horror, que tédio, que dores,
Nas minhas tardes de inverno
A minha vida é um inferno,
Debaixo dos vendavais.

II
Como são tristes os dias,
Do despontar da velhice,
Difere da meninice,
E em nada encontra sabor;
O mar é — Iago tristonho,
O céu — um teto azulado,
O mundo — inferno dourado,
A Vida — um pranto de dor!

III
Que tardes, sem sol, sem vida,
Que noites tão invernosas
Nas aflições clamorosas,
Do meu imenso penar!
O céu, escasso de estrelas,
A tetra imunda e tão feio,
Na praia não há sereia,
Só há tristeza no mar!

IV
Oh! dias da velha idade!
Oh! meu lar, minha casinha,
Que triste a minha vidinha,
Neste contínuo lutar!
Em vez dos sonhos da infância,
Eu tenho as mágoas de agora,
O peso de minha senhora,
E os filhos, que sustentar.

V
Preso aos laços da família,
Eu vivo mal satisfeito,
O suor descendo ao peito,
— Mãos calosas — já cansado;
Correndo para o trabalho,
Às voltas com o meu emprego,
Sem conquistar um sossego,
— Como qualquer desgraçado.

VI
Nestes meus dificultosos,
Dias que se vão passando,
Vou sofrendo, vou lutando,
Sem ter o menor prazer;
E rezo o meu Padre Nosso.
Não vejo o céu estrelado,
Sempre adormeço cansado,
E já desperto a correr.

SOARES JÚNIOR
Revista “Careta”, 1949.



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O ORIGINAL
Meus oito anos

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

................................

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

CASIMIRO DE ABREU

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