1/25/2019

Aspectos biográficos de Gonçalves Dias



Aspectos biográficos de Gonçalves Dias

Antônio Gonçalves Dias nasceu na província do Maranhão, município de Caxias, no sítio da Boa Vista, terras da fazenda Jatobá, no dia 10 de agosto de 1823. Foram seus progenitores: o negociante português João Manuel Gonçalves Dias e a mestiça Vicência Mendes Pereira. Antônio Gonçalves Dias foi filho bastardo de João Manuel Gonçalves Dias, que depois matrimoniou-se com Adelaide Ramos de Almeida, que foi para com o poeta mais mãe do que madrasta, pois, não tendo filhos que quisessem seguir a carreira das letras, e conhecendo a tendência do seu enteado, auxiliou-o tanto quanto podia, como se se tratasse de seu filho mais querido.

Em 1837 partiu Gonçalves Dias do São Luiz do Maranhão para Coimbra, de onde, tendo falecido seu pai, regressou em 1838; mas, graças aos bons sentimentos e generosidade de sua madrasta, voltava de novo a Portugal, nesse mesmo ano, para continuar os seus estudos, que elevou até ao bacharelado de ciências jurídicas, impedindo-o de completar o curso um grave negócio de família, cujo desempenho o impossibilitou de ver satisfeitas as aspirações que nutria.

Voltou com esse modesto grau para sua cidade natal, onde exerceu a profissão de advogado, durante alguns meses do ano de 1845.

Em 1846 procurou a Corte, onde deu à publicidade os Primeiros Cantos, que a princípio recebidos com frieza, — pois o próprio Jornal do Comércio, já então arvorado em oráculo do jornalismo, apenas consagrou-lhe duas linhas, — foram lentamente conquistando e consolidando a reputação de primeiro lírico brasileiro, de que Gonçalves Dias devia gozar depois sem disputa, graças à crítica de Alexandre Herculano, que, ante apropria pátria do poeta, o saudava gênio, espedaçando assim as muralhas do silêncio, que a inveja e a ignorância levantam em torno do nome e das obras dos que trabalham com talento. A crítica de Herculano veio surpreender os brasileiros que não sabiam que tinham um poeta de tão alevantada estatura.

Em 1852 casou-se com a excelentíssima senhora Olímpia da Costa, filha do conselheiro Cláudio da Costa, de quem o afastaram, nos últimos dias de sua vida, desgostos íntimos, provocados e alimentados por infames amigos, por quem se deixava dominar completamente, a ponto de enfraquecerem-lhe a razão, e o arrastarem a excessos mortais, que lhe desenvolveram os padecimentos pulmonares, de que viria a falecer, se, no dia 3 de setembro de 1864, não tivesse sido vítima de um naufrágio nas costas do Maranhão.

Teve o poeta a felicidade de ouvir em vida o juízo que dele faria a posteridade, pois um ano antes de desaparecer de entre os vivos, se espalhava o falso boato de sua morte, que foi geralmente lamentada como uma desgraça imensa. Infelizmente, como víamos, não sobreviveu muito tempo ao mau agouro.

Escreveu os Primeiros, Segundos, Novos e Últimos Cantos, quatro Cantos dos Timbiras, os dramas Leonor de Mendonça, Boabdil, Beatriz Cenci, Patkull; os romances Memórias de Agapito Goiaba, de que vêm nas suas obras póstumas soberbos capítulos, que fazem sentir ter o poeta, por escrúpulos inexplicáveis, lançado ao fogo o restante da obra; várias memórias sobre história pátria, e o notável estudo apresentado ao Instituto Histórico sobre o Brasil e a Oceania.

Sobre o mérito de Gonçalves Dias e o juízo público universal, está bem estabelecido no antigo e no novo mundo.

As suas poesias têm sido vertidas para o alemão, para o inglês, para o francês. Nacionais e estrangeiros, os críticos têm sido unânimes em admirá-lo.

Os seus comprovincianos, aos quais tanto honrara com o talento e com o exemplo, levantaram-lhe uma estátua, que, valendo como expressão momentânea de entusiasmo, é, todavia, de esperar que dure menos que suas obras, esse pedestal indestrutível, que o poeta preparou na passagem pela vida, para sobre ele erguer a sua memória, como um incitamento às gerações vindouras.

Gonçalves Dias é o melhor mestre dos que seguem a carreira literária.

Tem um estilo sóbrio e preciso; é um colorista primoroso. Os seus versos primam pela inspiração e pelo fino gosto, que revelam. Não há em língua portuguesa páginas tão ricas de boa linguagem como as dos Cantos, e principalmente dos Timbiras, obra, à qual o futuro fará mais justiça do que a atualidade, quando ficar reconhecido que cantor do Itajubá é tão grande como o do Fingal.

Tal foi Gonçalves Dias; tais serão julgadas as obras desse grande poeta, cujo gênio as gerações futuras considerarão como o ponto culminante, o mais elevado, o melhor definido, do espírito romântico na literatura brasileira.

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TEÓFILO DIAS
Revista da Semana, 19 de setembro de 1885.
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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