sábado, 12 de janeiro de 2019

Canção Popular (Trovas, 1928)


Canção Popular 
(1928)

Leitora, deixe a cidade
Por um instante, somente
E venha, rapidamente,
Sentir a simplicidade
Dos "reisados" lá do povo
Das terras do meu sertão.

Meia-noite... A lua cheia
Prateia todo o terreiro,
E, contornando o braseiro,
Uns velhos pitam cachimbo.
Um deles, como não fume,
Fita uma estrela no céu
Que pisca os olhos, e assim,
Mais parece um vagalume!...

Geme o gado no curral...
Um marroeiro da terra
Solta urros, desafio,
Cavando no pé da serra...
Não tenha medo, porém...
Aquele bicho que brame
É manso e todos sabemos
Que não faz mal a ninguém.
Pior são os automóveis,
Que, ao berrarem, de repente
Senão se lhes der caminho.
Passam por cima da gente.

Veja aquela lanterninha
Que vem na orla da estrada!
É o "Terno da Alvorada”
Que se dirige à lapinha...
São sertanejas formosas,
Lindas morenas robustas,
Flores de carne, do solo
Destas paragens adustas!
Ei-las que passam por perto
De nós, querida leitora...
Vamos lá, confesse agora,
Não é mesmo encantadora
Cada morena que vemos?
Vou lhe dizer um segredo,
Que não passe de nós dois:
Muitas delas ignoram
O que seja o pó de arroz!
Parece incrível, não é?...
E que bonitas que são,
Embora mesmo tostadas
Do sol quente do sertão!

Duas horas... Vamos ver
O samba roxo ferver
Na malhada da fazenda...
Aquela que está dançando
Na roda sapateando,
É a Maria Luz,
A filha do Coronel;
E o caboclo que a acompanha
Sentado com a viola
É  o vaqueiro, o Manoel.
Amam-se os dois, e, por isso,
Veja com quanto feitiço
Ela olha os olhos dele!
Ouça como o instrumento
Que ele toca vibra uns sons
Tão cheios de sentimento!
É costume cá da terra,
Não critique, por favor;
É pontilhando a viola
Que a gente fala de amor!

Cinco horas da manhã...
O samba vai animado...
Já canta a maracanã
Nas juremas dos cerrados...
Para as bandas do nascente,
Há fogo vivo no céu...
Leitora, bote o chapéu
Voltemos para a cidade
Que o sol já está para nascer...
Como é costume ofereço
A tão gentil companheira
Não uma rosa, que, aqui,
Não pode medrar roseira,
Nem uma flor de pitanga,
Pois não temos pitangueira,
Mas ofereço – isso sim –
Este ramo de alecrim
Muito verde e bem cheiroso,
E este outro de mureci.
Pois é neles que se encerra
Todo o formoso poema
Da singeleza da terra.

SODRÉ VIANA

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