domingo, 6 de janeiro de 2019

Emílio de Menezes em cinco atos (Resenha Biográfica)



Emílio de Menezes em cinco atos

Aquele homenzarrão de ventre farto, bigodeira atrevida, sorriso sardônico, olhos claros, gargalhada franca, lembrando um "bersaglière" alegre e bulhento, devorador de salame e esvaziador de garrafas de Chianti, foi o Emílio de Menezes que o Rio de Janeiro conheceu, amou e temeu. Esse, o quarto ato do drama de sua vida inquieta e tumultuosa. Drama em cinco atos.

O primeiro ato é o de sua adolescência. Aluno do professor Brandão Proença, avô do fulgurante poeta Francisco Leite. Era magro, pálido, cabelos negros espalhados pela testa larga, as pernas assemelhadas a um X. Tipo embrionário de "romântico 1830". Tinha, entre os colegas, o apelido de "doutor mosquito". Mordia e cantava. Prognóstico de um destino?

No segundo ato ele aparece já com um buço petulante, a perambular pelas ruas de Curitiba, ensaísta da ironia e candidato ao Parnasianismo. Por essa época apareceu na capital paranaense um violinista húngaro, que deu alguns concertos no antigo teatro São Teodoro. Emílio assistiu-os. E impressionado com a técnica do artista, escreveu e  publicou o seu primeiro soneto, que é este:

O VIOLINO

São, às vezes, as surdinas
Dos peitos apaixonados
Aquelas notas divinas
Que ele desprende aos bocados...

Tem, ora os prantos magoados
Dessas crianças franzinas,
Ora os risos debochados
Das mulheres libertinas...

Quando o ouço vem- me à mente
Um prazer intermitente...
A harmonia, que desata,

Geme, chora... e de repente
Dá uma risada estridente
Nos allegros da "Traviata".

Esses quatorze versos trazem a data de 1884. Publicou também, nesse ano, um improviso, a que não acrescentou a assinatura. Trata-se de uma sátira contra um coronel do exército, comandante do regimento de artilharia, então alojado em Curitiba. Era um oficial valente e culto, mas, como Emílio, boêmio incorrigível,  e de Emílio rival no enxugar copos de chopes. Houve entre eles uma desavença, e o poeta paranaense chispou-lhe esta ferroada:

Aquele  negro capacho
Caiu  de  uma  escada   abaixo
Em noite de carraspana...
Mentiu, depois, que a bicheira
Que rareou-lhe a cabeleira.
Fora uma bala certeira
Da pífia gente solana.

Injustiça do Emílio. Esse oficial havia se portado bravamente na guerra do Paraguai. As medalhas militares que conquistara, eram brilhantes atestados do seu heroísmo.

O terceiro ato, que Emílio de Menezes representou, é marcado pelas pompas e grandezas. Nesse, é de marcante relevo o homem de sociedade. Emílio apresenta-se sempre irrepreensivelmente trajado. Alto, esguio, aprumado, era de ver-se a elegância que ele punha na sua pessoa e nos seus gestos. Envolvido no turbilhão do "encilhamento", o desenfreado jogo da bolsa  que caracterizou os primeiros dias da nossa vida republicana, fazia dinheiro à rodo, e gastava furiosamente com os amigos, com os conhecidos e com os próprios desconhecidos. Proprietário da um lindo chalé em Petrópolis, ele, aos domingos, mãos enluvadas, guiava destramente a sua vistosa carruagem pelas ruas e avenidas da encantadora cidade das hortênsias. Eis, porém, que o governo chefiado por Lucena resolve acabar com essa babel de negócios, que especulava e se transformava em grandes fortunas.

Cassada a especulação, começou a derrocada. Foi o doloroso reverso da medalha. E os ricos de ontem se fizeram os pobres do dia seguinte. Emílio foi levado neste arrastão. E quanto mais se lhe esvaziavam os bolsos, mais aumentava em banhas. Daí vai-se ao quarto ato. Esse foi o mais longo do drama. E o mais conhecido por todo o Brasil. Nele surge o Emílio dos epitáfios, dos anúncios em quadrinhos, das sátiras dos Pingos e Respingos, do Correio da Manhã, mas também o Emílio parnasiano insigne, burilador de joias do mais alto preço, o cantor admirável da "Romã" e do "Helianto", o lírico soberbo do "este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito", o intérprete suave dos "Três olhares do Maria". O Emílio temido e admirado. O boêmio assíduo da Paschoal e  da Colombo. O palestrante sempre interessante, de uma mordacidade terrível, mas ao mesmo tempo da uma bondade cativante.

O quinto ato é a melancolia, é a tristeza, é o desmoronamento daquela robustez física, que parecia de uma solidez capaz de desafiar um século de resistência. Doloroso o lento declinar de um crepúsculo sombrio... Mas o espírito com a mesma vivacidade e a mesma beleza. Doente da "wiskite aguda", como ele mesmo denominava sua enfermidade, jamais deixou de ter nos lábios um sorriso, embora por vezes, cheio de amarguras. Os médicos que o assistiam, resolveram fazer-lhe uma punção para aliviá-lo de atrozes padecimentos. Entre os poucos amigos presentes à cirurgia, encontrava-se um que nunca o abandonou: José Pires Brandão, o generoso. E o enfermo vendo que lhe escorria pelo ventre um líquido claro, chamou a atenção dos amigos.  Vejam vocês a ironia das coisas! Sai-me da barriga um líquido que nunca bebi: água!

Foi esta a última o acerba piada de Emílio de Menezes...

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LEÔNCIO CORREA
Revista "Fon-Fon", 14 de setembro de 1939.

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