domingo, 6 de janeiro de 2019

Josué Montello: Conversa sobre Camilo Castelo Branco



Conversa sobre Camilo Castelo Branco

Na vida de Camilo Castelo Branco h
á um episódio que, a ser verdadeiro, define de maneira bem precisa o temperamento de romancista do truculento solitário de São Miguel de Seide. Camilo tinha um filho maluco. E E era a esse filho que o escritor dedicava a melhor de sua afeição. Ao tempo, andava Camilo em turras com Teófilo Braga. Um dia certo jornalista, encontrando-se no gabinete de trabalho do romancista, viu a porta se abrir e o maluco aparecer. O doido encarou o visitante com ar apalermado; riu e tornou a desaparecer. O jornalista olhou, logo depois, para o dono da casa: Camilo tinha os olhos cheios d'água. Imediatamente um sorriso repuxou-lhe o canto dos lábios. E o visitante ouviu-lhe estas palavras:

— O senhor viu bem como se acha o meu filho? O rapaz estava bom quando resolveu ler um livro do Teófilo. Leu e quis entender. Logo depois perdeu a cabeça...

E riu com a pilhéria dolorosa.

O comentário a extrair-se desse episódio é que nele se acha descrito o temperamento de Camilo Castelo Branco. Primeiro, a sua capacidade de emocionar-se. Segundo, a sua capacidade de superpor o riso às dores mais lacerantes.

Nada devia fazê-lo sofrer mais ao que o espetáculo do filho doente e sem remédio, justamente o filho em quem depositava a melhor de suas esperanças e por quem fizera todos os sacrifícios, inclusive o de raptar uma namo­rada para ele.

Este caso revestiu-se de todas as tintas de uma cena romântica. Camilo e o filho, altas horas da noite, aproximaram-se da casa da rapariga. Camilo, mais experiente em tais lances de novela, encarregou-se de aguardar a moça, que ia saltar um muro. Jorge, o filho, menos hábil, ficou sentado num banco, um pouco distante, à espera do pai e da namorada. Os minutos se passaram. Decorreu quase uma hora. Quando Camilo chegou acompanhado pela rapariga, não avistou de longe a figura do Jorge. Apro­ximou-se, inquieto. Mais perto, deparou afinal o rapaz, na mais surpreendente das atitudes: Jorge estava estirado no banco e dormia profundamente!

Toda a existência do romancista foi marcada pela tragédia. O destino não lhe deu a oportunidade das alegrias. Entre tristezas e ódios, perseguições e doenças, viu defluir a sua vida atribulada. Só na velhice o sofri­mento o derrotou, quando Camilo, cego e doente, encerrou com uma bala a sua jornada sobre a terra.

Ao sentir a vizinhança da cegueira, não abandonou Camilo o seu ofício de escritor. Com uma pala sobre os olhos e a lâmpada acesa durante o dia, escreveu em A Corja e no Ensébio Macário algumas das grandes páginas da novelística portuguesa. E o curioso nesses dois romances é que ambos representavam uma inovação na obra do romancista.

Vindo de uma geração romântica, o escritor assistira subitamente à eclosão vitoriosa do realismo. Eça de Queirós passava a ser o escritor da moda. E contra Camilo volta­vam-se os críticos, apontando-lhe nos livros os defeitos literários que, anos antes, tinham sido admirados como qualidades.

Camilo, então, deliberou dar a essas críticas a mais inesperada das respostas. Já velho, quase cego, sentou-se à mesa de trabalho. A sombra ia-se avolumando nas suas retinas fatigadas. O sol entrava pela casa, banha­va-a de luz, mas o escritor já não percebia o contorno dos objetos. O clarão da lâm­pada, que era o seu companheiro de vigílias noturnas, passou a acompanhá-lo durante as horas do dia. No decorrer de algumas semanas, o romancista escreveu. À proporção que a pena deslizava pelo papel, o escritor alterava inteiramente os seus processos de composição. Em vez de simples pinceladas breves na descrição de uma paisagem, recorria à minúcia, referindo-se a todos os objetos, aos pormenores mais destituídos de importância. Em vez dos diálogos românticos, jogava na página as falas naturais, copiadas da oralidade do povo.

Foi assim que surgiram os romances rea­listas com que Camilo Castelo Branco encerrou o seu destino de criador de tipos e fixador de sensações.

Na dedicatória do Eusébio Macário, Camilo Castelo Branco, dirigindo-se a uma pessoa de suas relações, declara que foi uma per­gunta dessa pessoa que o fez escrever o li­vro: "Perguntas-me se um velho escritor de antigas novelas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os "tics" do estilo realista. Respondi temerariamente que sim e tu apostaste que não. Venho depositar no teu regaço o romance, e na tua mão o beijo da aposta que perdi".  Camilo não perdeu a aposta, como declara nesse trecho. Ganhou-a, realmente. E seus livros, escritos depois do desafio, mostram a genialidade do romancista que fixou não so­mente as emoções mais violentas da prosa portuguesa, mas também as gargalhadas mais sarcásticas que já se ouviram, depois de Cervantes, na literatura da Península Ibérica.

 Qualquer que fosse a escola ou o processo de composição de novelas, o escritor não se deixava diminuir ou apagar. Romântico ou naturalista, sentimental ou irônico, aplaudindo ou combatendo, Camilo Castelo Branco era o escritor do mesmo porte, dominando os mistérios da Língua Portuguesa e fazendo-a submeter-se-lhe ao gênio. Nem antes nem depois de Camilo apareceu um outro escritor capaz de superá-lo nesse domínio.

Pode-se dizer, numa imagem, que ele a dominou com uma força hipnótica, compelindo-a a entre­gar-se-lhe em todos os seus segredos e em todos os seus recursos.

E é pôr esse aspecto que tem de ser admirada, principalmente, a obra camiliana.


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JOSUÉ MONTELLO
Revista "Ilustração Brasileira", março de 1945.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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