sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Uma resenha crítica sobre a obra de Sousândrade



Uma resenha crítica sobre a obra de Sousândrade

Ao estudar completamente o vulto de Castro Alves e algu­mas outras figuras de poetes românticos do Brasil, o jovem e lúcido crítico Fausto Cunha cita o nome do estranho e fascinante poe­ta maranhense Joaquim de Sousa Andrade ou Sousândrade como assinou seus últimos trabalhos.

Sousândrade nasceu em 1833 e faleceu em 1902. Assim se refere Fausto Cunha ao autor de O Guesa Errante: "A respeito de Sousândrade poderíamos falar em Hölderlin, Baudelaire, Lautréamont, em Gerard de Nerval, talvez em Blake se a todos esses nomes não es­tivesse adstrita uma linha de pres­supostos que invalida a aproxima­ção; além do fato de que, em nível estético, o maranhense lhes é sem­pre inferior". Pelo que nos fala Fausto Cunha, Sousândrade foi um poeta desequilibrado, que não sa­bia distinguir um poema superior de uma trivialidade qualquer. Por isso sua obra Harpas Selvagens (1857), Impressos (1866), Eólias (1868), Obras Poéticas (1874 com três cantos iniciais de O Guesa Errante, em doze cantos), Novo Éden (1893, que Fausto Cunha denomina de ininteligível), e A Casca da Caneleira, 1866 (prosa, incompleto), onde há de tudo, desde o romantismo piegas de um Casimiro avant la lettre até aos arroubos híbridos do um Joyce) pois Sousândrade, como o irlandês, andou inventando palavras a seu bel-prazer, para isso utilizando os vocabulários das inúme­ras línguas que sabia falar e que aprendera em suas peregrinações intermináveis pelo mundo , res­sente-se de unidade, dançando sem­pre entre o "Tabor e a vala co­mum", na expressão de seu moder­no exegeta.

Escusado dizer que a poesia de Sousândrade não foi compreendida em sua época. Como poderia tê-lo sido, se em certos instantes ela recorda o tom poético de um Eliot, de um Ezra Pound? O próprio poeta tinha consciência do fa­to, e chegou a escrever: "Ouvi dizer já por duas vezes que O Guesa Errante será lido cinquenta anos depois; entristeci decepção de quem escreve cinquenta anos an­tes. Porém se – Life, not form; work, not ritual, was what the Lord demanded – diz um swedenborgiano pregador, falando da Religião; não poderíamos dizer o mesmo da poesia?"

Ainda em prin­cípios do século, o arguto Veríssi­mo, o qual nunca entendeu verda­deiramente a poesia, classificou Sousândrade como um pré-simbolista; e Humberto de Campos ta­xou-o, burramente, de "futurista"...

O advento do Modernismo veio render alguma justiça a Sousân­drade; alguma, apenas; pois o des­conhecimento do poeta é quase total, e mister se faz que um crítico, como Fausto Cunha, já autor de in­teressante ensaio sobre Sousândrade resolva fazer por completo a reabilitação do maranhense, o pri­meiro poeta brasileiro que teve a intuição de uma poesia universal, liberta de indianismos e de descrições da terra, baseada na medita­ção e no conhecimento.


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Revista da Semana, 8 de dezembro de 1956.
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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