quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A garça, os peixes e o caranguejo (Conto), de Leon Tolstoi


A garça, os peixes e o caranguejo 

Certa garça, que morava à beira de uma lagoa, tornou-se muito velha, e como já não tinha força para apanhar os peixes,  meditou e procurou uma maneira de se arranjar  para comer. Um dia disse aos peixes:  

— Tendes notícia da enorme desgraça que vos vai chegar? Aos  homens tenho ouvido dizer que vão esvaziar a lagoa para apanhar os peixes, fritá-los e comê-los. Eu sei que perto da montanha há outra lagoa. Com muito gosto levar-vos-ia lá, mas sou tão velha que dificilmente o poderia fazer.

Os peixes pediram por favor à garça que os não deixasse.

— Seja — disse a ave. — Sacrificar-me-ei por vós, mas como eu não vos posso levar a todos numa vez só, o farei um por um.

Ficaram muito contentes os peixes, e para eles só foi questão de passar o primeiro.

— Leva-me a mim! Leva-me a mim! — gritavam.

E a garça começou a viagem. Apanhou um peixe com o bico, Ievou-o para o campo vizinho e comeu-o. Desta maneira morreram muitos outros peixes...

Mas naquele próprio lugar morava um velho caranguejo. Conheceu a intenção da garça e lhe disse:

— Queres libertar-me da caçarola, minha meiga garcinha?

A garça apanhou o caranguejo e o levou. Quis deixá-lo ao chegar ao campo, mas o caranguejo, ao ver as descarnadas espinhas dos peixes que o precederam, apertou entre as suas pinças o pescoço da garça e estrangulou-a. Depois voltou para a lagoa e referiu o acontecimento aos outros povoadores.

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Pelo Mundo, março de 1927.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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