quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

O Manancial (Conto), de Leon Tolstoi


O Manancial

Num quente dia de verão três viajantes se reuniram junto a um fresco manancial que ficava ao lado do caminho, rodeado de algumas árvores e úmida relva; a água, pura como uma lágrima, caía num recipiente feito na pedra; logo se vertia para derramar-se pela pradaria.

Os viajantes descansaram à sombra daquelas árvores e beberam água do manancial.

Junto a ele viram uma pedra na qual se liam estas palavras: Imitai a este manancial.

Os peregrinos leram a inscrição; depois perguntaram entre si seu significado.

— É um bom conselho — disse um deles, que era comerciante. — A corrente corre sem cessar, vai longe, recebe água de outros regatos e forma um grande rio. Assim, o homem deve imitá-lo ocupando-se de seus assuntos, e sempre triunfará e conseguirá riquezas.

— Não — disse o segundo viajante, um jovem. — No meu entender, essa inscrição significa que o homem deve preservar sua alma dos maus instintos, dos desejos maus; sua alma deve estar tão pura como a água deste manancial. Atualmente esta água dá forças aos que, como nós outros, se detêm para beber; houvesse atravessado o universo, se a água estivesse turva, que utilidade teria? Quem a queria beber?

O terceiro viajante, que era velho, sorriu e disse:

— Este jovem tem razão. O manancial, dando de beber aos sedentos, ensina ao homem a praticar o bem para todos, sem recompensa, sem contar esperar com a gratidão.

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A Cigarra, abril de 1945.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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