quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

A origem do mal (Conto), de Leon Tolstoi



A origem do mal

Um ermitão vivia no meio da selva sem temor das feras. O ermitão e as feras, conversavam juntos e se compreendiam.

Um dia o ermitão descansou debaixo de uma árvore; aí se reuniram também, para passar a noite, um veado, um pombo, um corvo e uma serpente. Estes animais começaram a dissertar sobre a origem do mal no mundo.

O corvo disse:

— O mal procede da fome. Quando comes, pousado em um galho, tudo te sorri, tudo parece alegre e bom; mas fica somente dois dias em jejum, e não terás o mesmo prazer em contemplar a natureza; sentir-te-ás agitado, não poderás ficar tranquilo, não terás um instante de repouso; apresentem um pedaço de carne, o lançar-te-ás sobre ele sem refletir; e ainda que te batam com paus ou te atirem pedras, e te persigam cães e lobos, não soltarás a presa. Ah! Quantos têm morrido de fome! Todo o mal vem da fome.

O pombo disse:

— Para mim, não é da fome que procede o mal; todo o mal provém do amor. Se vivêssemos isolados, não sofreríamos tanto, ou ao menos sofreríamos sós; enquanto que agora temos que viver acompanhados; e amamos tanto às nossas companheiras, que não temos repouso, nem pensamos senão nela. Alimentou-se? Está bem abrigada? E quando ela se afasta de seu amigo, sentimo-nos inquietos com a lembrança de que pode ser aprisionada pelos homens, e lançamo-nos ao espaço para procurá-la, em risco de cair nas garras de um gavião ou nas malhas de uma rede. E se a companheira não aparece, não cornemos, não bebemos, e outra coisa não fazemos senão procurá-la e chorar. Ah! Quantos tem morrido assim! Todo o mal vem do amor, não da fome.

A serpente disse:

— Não, o mal não nasce nem da fome nem do amor, mas da perversidade. Se vivêssemos tranquilos, se não procurássemos brigas, tudo iria bem. Se fazes qualquer coisa contra tua vontade, zangas-te, ficas raivoso, não pensas senão em descarregar tua cólera sobre alguém; e então, como louco, tu te retorces, silvas, e só tratas de morder alguém. E não tens piedade de ninguém; morderias teu pai, tua mãe; devorarias a ti mesmo, e acabarias por perder-te. Todo o mal vem, pois, da perversidade.

O veado disse:

— Nilo, o mal não vem da perversidade nem do amor, nem da fome — mas do medo. Se não tivéssemos medo, tudo iria bem. Somos lestos, velozes na carreira; somos vigorosos. Podemo-nos defender de um animal pequeno com a nossa galhada; podemos escapar de um grande, se fugirmos. Mas não podemos evitar ter medo. Se um ramo cruza no bosque, se uma folha balouça, espantamo-nos, o nosso coração bate com força, e empreendemos a fuga com a velocidade da flecha.

Outras vezes é a brisa que sopra, um pássaro que sacode as asas, ou um ramo que cai; parece que somos perseguidos por uma fera, e corremos para o abismo. Se escapamos de um cão, caímos sob a espingarda do caçador; depois, presa do medo, corremos sem saber para onde, damos um salto e encontramos a morte no precipício. Não dormimos sossegados, estamos sempre alerta, sempre sobressaltados. Não há descanso! Todo o mal vem do medo.

Então o ermitão disse

— Não é da fome, nem do amor, da maldade ou do medo, que provêm todas as nossas desgraças; mas da nossa própria natureza, porque é ela que gera a fome, o amor, a maldade e o medo.

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