quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O Mistério de Marie Roget (Conto), de Edgar Allan Poe


O Mistério de Marie Roget

Filha da viúva Stelle Roget, Marie morava na Rue de Saint-Andrée, em Paris, onde sua mãe mantinha uma pequena pensão. E sua vida, embora em um meio modesto, transcorreu tranquilamente até aos dezoito anos. A sua grande beleza chamou a atenção de um perfumista que negociava nos sótãos do Palais Royal e cuja freguesia era constituída pelos aventureiros que infestam esse bairro. Não ignorava Le Blanc, o comerciante, as vantagens que lhe traria a presença da jovem em sua loja. Fez-lhe, astutamente, uma proposta, aceita no mesmo dia, apesar da relutância da genitora da linda “grisette".

Tudo aconteceu de acordo com os planos de Le Blanc — a nova empregada aumentou a clientela da perfumaria. E fazia coisa de um ano, ou, mais precisamente, onze meses, que a moça trabalhava na casa, quando os seus admiradores foram surpreendidos com a notícia de um repentino desaparecimento. O negociante não soube dar explicações a respeito da ausência da rapariga e a senhora Roget foi tomada de ansiedade e terror. Os jornais aproveitaram imediatamente o caso para reportagens sensacionalistas e a polícia esteve a ponto de dar começo às investigações, quando, certa manhã Marie voltou a aparecer detrás do mostrador da perfumaria, gozando de boa saúde, ainda que com ar um tanto triste. Toda averiguação, exceto a de caráter privado, cessou por completo.

Le Blanc, falando à reportagem, reafirmou absoluta ignorância sobre o assunto. Marie e sua mãe, ao responder às perguntas, disseram que a jovem havia passado a última semana em casa de parentes, no caso. O fato foi logo esquecido, pois a moça, com certeza, para forrar-se à curiosidade impertinente, despediu-se do perfumista e voltou para a sua residência. Foi mais ou menos após cinco meses de regresso ao lar que seus amigos se alarmaram uma tarde por um outro desaparecimento repentino.  Transcorreram setenta e duas horas sem notícias, até que, no quarto dia, encontraram seu cadáver no Sena, perto da margem oposta ao Quartier de Ia Barrière du Loule.

A atrocidade do crime — pois era evidente tratar-se de um homicídio — causou grande excitação, aumentada pela beleza da vítima e, mais do que isso, pela sua fama entre os moradores de Palais Royal. Não me lembro mesmo, de nenhum outro incidente similar que produzisse efeito geral e intenso. Por várias semanas, a imprensa esqueceu até as discussões políticas, sempre no cartaz, a fim de comentar aquele episódio cativante. As autoridades policiais envidaram enormes esforços para descobrir o mistério, que punha à prova de um modo decisivo a capacidade dos agentes da lei. Era indispensável que os detetives encontrassem o quanto antes a chave do enigma.

Quando foi descoberto o cadáver, a polícia supôs que o criminoso não poderia escapar por muito tempo às pesquisas que imediatamente se encetaram. Ao cabo de uma semana, julgou-se necessário oferecer uma recompensa, então limitada a mil francos. Entrementes, as investigações seguiam com grande empenho, embora nem sempre com sensatez, interrogando-se numerosas pessoas sem maiores resultados.  Dada a falta de indícios, a excitação popular crescia com ímpeto, e, no fim do décimo dia achou-se prudente dobrar a soma da recompensa. E, como transcorresse a segunda semana sem que se conseguisse apurar alguma coisa, e em vista de uns motivos que se produziram em uma manifestação de protesto contra a polícia, o seu chefe resolveu oferecer por sua conta a importância de vinte mil francos pela prova de culpabilidade do assassino.

Ninguém duvidou, a essa altura, dos acontecimentos que o mistério do bárbaro homicídio em breve se desvendaria. Mas, conquanto se efetuassem duas ou três prisões que prometiam um esclarecimento, nada se apurou contra as pessoas detidas, que acabaram sendo postas em liberdade. Ainda que se afigure estranho, somente ao fim da terceira semana depois do encontro do cadáver, chegou-nos a Dupin e a mim, o relato dos fatos que tanto agitavam o público. Entusiasmados por assuntos que nos absorviam toda a atenção, fazia mais de um mês que não saíamos, não recebíamos a visita de um amigo e nem sequer lançávamos uma vista de olhos aos jornais. A notícia foi trazida pelo chefe de polícia, em pessoa, que terminou declarando achar-se a sua honra empenhada na elucidação do enigma.

Instado a desvendar o mistério que envolvia morte de Marie Roget, Dupin acetou a proposta, embora suas vantagens fossem temporárias. Uma vez assente este ponto, começou a autoridade a externar as suas opiniões, entremeadas de longos comentários em torno das testemunhas, que nos eram desconhecidas. Falou durante muito tempo, e, sem dúvida, sabia o que estava dizendo. Dupin, aboletado em sua poltrona, era a personificação da mais respeitosa atenção.  Permaneceu de óculos durante a conversa — e uma acidental olhadela por debaixo de suas lentes foscas foi o bastante para me convencer de que dormiu profundamente, conquanto em silêncio, as sete ou oito horas em que esteve com a palavra o chefe de polícia.

***

Na manhã seguinte, consegui com a polícia um informe completo sobre os depoimentos, e, em várias redações de jornais um exemplar de cada diário que tratara do caso.  Fiquei sabendo assim que Marie Roget saíra de casa na Rue de Sainte-Andrée mais ou menos às nove horas da manhã de domingo 22 de junho. Ao partir dissera a Jacques Saint-Eustache, e só a ele, que pensava passar o dia com sua tia, na Rue de Drômas. Essa rua é uma via estreita, mas muito concorrida, que dista duas milhas pelo caminho mais direto da pensão da senhora Roget. E Saint-Eustache era o noivo da vítima e vinha figurando, há meses, na lista de hóspedes de sua genitora.

Ficara combinado que à tarde, Saint-Eustache iria buscar sua noiva na Rue de Drômas. Mas, no fim do dia, principiou a chover com enorme força. E, presumindo que a jovem ficaria em casa da tia, como o fizera de outras vezes em iguais circunstâncias, o rapaz não julgou preciso cumprir com a promessa. Ao cair da noite, a senhora Roget, que é uma anciã de setenta anos de idade, manifestou seu temor de que não voltaria a ver a filha. Esses receios não foram, porém, levados em conta no momento, encarando-se a ausência da “grisette” como um fato sem importância.

Na segunda-feira, procurando-se descobrir o paradeiro de Marie, soube-se que a moça não havia ido à Rue de Drômas. E, como passasse o dia sem que se tivesse notícia dela, os amigos levaram a cabo uma investigação em várias partes da cidade e seus arredores. Foi no quarto dia de seu desaparecimento que se soube, afinal, alguma coisa de concreto. Nesse dia, que o calendário assinava como quarta-feira 25 de junho, um tal Beauvais foi informado de que uns pescadores haviam recolhido um cadáver que flutuava no Sena. Dirigindo-se ao local, e, após certa dúvida, identificou-se como sendo da empregada de Le Blanc.

O rosto achava-se coberto de sangue escuro saído da boca, mas não se via espuma, como sucede com os afogados. Nem havia também descoloração do tecido celular. No pescoço viam-se equimoses e marcas de dedos, e os braços estavam dobrados sobre o peito e completamente rígidos. A carne do pescoço apresentava-se muito inchada, e encontrou-se, amarrado em volta do pescoço, um retalho de espiguilha. Estava completamente metido na carne e preso por um nó debaixo da orelha esquerda — e teria bastado para causar a morte de Marie.

O vestido da vítima estava bastante roto e em completa desordem. Desde a bainha até a cintura, havia sido rasgada uma tira de um pé de largura, mas não arrancada. Essa tira dava três voltas em torno da cintura e achava-se presa ao ombro por um nó. A peça que tinha sob a saia era de musselina — e dela se arrancara, com grande cuidado, uma tira de dezoito polegadas de largura, a qual se encontrou amarrada frouxamente, embora com um nó complicado em torno do pescoço. Sobre a tira de musselina e o retalho de espiguilha, atavam-se as fitas de um chapéu, sendo que o laço destas não parecia feito por uma mulher, senão próprio de um marinheiro.

Depois de reconhecido o cadáver, não foi levado ao necrotério, por considerar-se supérflua esta formalidade — o corpo foi enterrado não longe do lugar onde o acharam. E, a pedido de Beauvais, o assunto foi silenciado dentro do possível, transcorrendo vários dias antes que se fizessem os comentários públicos. Um semanário, contudo, apoderou-se do caso. Os restos mortais de Marie foram desenterrados e efetuou-se um segundo exame médico, mas nada se descobriu além do que já se sabia. Por outra parte, procedeu-se a uma minuciosa inspeção nas roupas, que, também examinadas pela senhora Roget, foram reconhecidas como sendo as que a moça vestia no dia em que deixou sua casa.

A curiosidade de todos, excitada pelas reportagens da imprensa, foi crescendo hora a hora. Prenderam-se, conforme já disse, vários indivíduos, prontamente restituídos à liberdade. Suspeitava-se principalmente de Saint-Eustache, pois o rapaz, interrogado pela polícia, não soube dar explicações claras a respeito do que fizera no domingo em que sua noiva desapareceu. E, como o tempo corresse e não se descobrisse o mistério, circularam mil contraditórios rumores e os jornalistas começaram a fazer toda sorte de suposições. Foi, então, que...

— Somemos agora — disse-me C. Auguste Dupin — os parcos, mas seguros frutos de nossa longa análise, à margem da morte de Marie Roget... Vimos a supor um fatal acidente, sob o teto da senhora Deluc, ou um assassinato perpetrado no bosque da Barrière du Roule por um amante ou, ao menos, por uma pessoa íntima e secretamente ligada à vítima. O indivíduo — está provado — era de tez escura, e essa cor da pele, a atadura da faixa, e o nó de marinheiro com que se achava amarrado o chapéu apontam um homem do mar. E sua relação com a vítima, jovem alegre mas não abjeta, revelam ser ele de nível superior ao de um marujo comum. Aqui, aliás, meu caro, o noticiário dos jornais corrobora bem essa dedução.

Prosseguindo, o meu amigo acentuou que, consoante as informações de "Le Mercure”, tendiam a se fundir em uma só pessoa o marinheiro desse caso e o "oficial de Marinha" que conduzira a infeliz à senda do vício. E, nesse particular, era preciso levarmos em conta a ausência continuada do sujeito moreno. A pele desse homem parecia, de resto, ser de cor incomum, pois foi o único ponto em que concordaram as declarações de Valence e da senhora Deluc. Mas, afinal, por que tal indivíduo não aparecia? Restava a possibilidade de ter sido assassinado pelo mesmo matador da empregada do perfumista Le Blanc.

— Há contra essa hipótese — observou Dupin — o fato de não ter sido encontrado, até agora, o seu cadáver. Entretanto, pode aduzir-se que esse desconhecido vive e que está acovardado, porque teme a polícia. Essa reflexão, aliás, ele deve ter feito somente há pouco, pois se sabe que o viram com Marie, mas não demonstrou ânimo na ocasião do crime. O primeiro impulso de um homem inocente haveria sido denunciar o assassinato e auxiliar as autoridades na identificação dos malfeitores. É o que teria aconselhado a prudência, mesmo porque ele foi visto em companhia da jovem atravessando o rio em uma balsa aberta.

O meu companheiro apresentou-me, a esta altura, uma interrogação teimosa — de que meios nos deveríamos valer para desvendar o enigma? Era necessário examinarmos, antes de tudo, o caso da primeira fuga de Marie Roget. Depois, seria conveniente que nos inteirássemos da história completa do "oficial", da situação em que ora se encontra e do que fazia quando se deu o crime. Cotejaríamos, em seguida, as diversas cartas remetidas a "Le Commercial" com o propósito de fazer recair as suspeitas sobre um bando. E, ultimado essa tarefa, confrontaríamos o estilo e a letra das missivas com os da correspondência enviada antes a "Le Mercure", na qual se insistia na culpabilidade de Beauvais.

— Logo — explicou Dupin — comparemos todas essas epístolas com algum manuscrito conhecido do "oficial". De outra parte, é preciso fazermos, através de interrogatórios, com que a senhora DeIuc, seus filhos e o condutor do ônibus nos forneça outros pormenores relativos à aparência do homem de pele escura. As pesquisas, assim dirigida, permitir-nos-á obter de algumas dessas fontes a informação que desejamos. Sigamos, agora, a pista dó bote recolhido pelo catraieiro na manhã de segunda-feira 23 de julho, e que foi subtraído da Prefeitura sem o timão e sem que o advertisse o oficial de serviço, pouco antes de ser descoberto o cadáver. Com cuidado e perseverança, encontraremos infalivelmente esse barco, pois o catraieiro o pode identificar, e, além disso, temos o leme em nosso poder.

O meu amigo limpou os óculos com o lenço; e, transcorrido um minuto de silêncio, prosseguiu seu raciocínio. Não houve nenhum aviso pelo qual se soubesse que o bote fora recolhido — foi levado à Prefeitura silenciosamente e de igual modo tiraram dali. Ora, como pôde informar-se o seu dono, na manhã mesmo de terça-feira e sem nenhuma notícia nos jornais, sobre o lugar em que se achava embarcação? Só se concebe que isso tenha sucedido supondo que esse indivíduo mantenha relações na Marinha. E, sendo assim, o caminho a seguir é...

Adotamos, imediatamente, o plano de investigações traçado por Dupin. E conseguimos encontrar, dentro de pouco tempo a chave do mistério que envolvia a morte da formosa "grisette". O grande mal da ação dos agentes da lei reside em recusar, diante de certos crimes, a exatidão de um paralelismo. Nada mais difícil, por exemplo, do que convencer alguém de que o fato de ter-se obtido duas vezes seguidas o número seis no jogo de dados é motivo bastante para que se tenha a segurança de que não haverá repetição a terceira vez. E esse ponto de vista faz parte da infinita série de erros que surgem, no caminho da razão, pela tendência a buscar a verdade em um simples pormenor.


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Tradução de: Líbero Rangel de Andrade.
Revista "Vamos Ler!", edição de 24 de fevereiro de 1944.
Pesquisa, transcrição a adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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