sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O grão de centeio (Conto), de Leon Tolstoi


O grão de centeio

Um dia os rapazes acharam num buraco um objeto do formato e tamanho de um ovo de galinha, com uma fenda ao meio, de modo que parecia um grão. Um transeunte viu-o nas mãos deles, comprou-o por cinco kopeks, levou-o para a cidade e vendeu-o ao czar como uma curiosidade.

O czar mandou chamar os sábios ordenou-lhes que investigassem o que aquilo era — ovo ou grão? Os sábios examinaram e tornaram a examinar, mas não puderam decidir.

O objeto foi deixado numa janela. Veio um enorme frango e pôs-se a bicar nele e a fazer-lhe um buraco; então todos viram que era um grão.

E logo os sábios foram dizer ao czar que aquilo era um grão de centeio.

O soberano ficou admirado; e ordenou aos sábios que descobrissem onde e quando aquele grão tinha germinado.

Os sábios refletiram, tornaram a refletir, consultaram os livros, e não acharam nada. E voltaram ao palácio do czar e disseram:

— Nós não podemos dar resposta satisfatória; os nossos livros nada dizem a tal respeito. É necessário perguntar aos mujiques se algum deles não terá por acaso ouvido dizer onde e quando semelhante grão foi semeado.

O czar mandou vir à sua presença o mais velho dos velhos mujiques. Encontraram um homem muito velho, que trouxeram à presença do czar.

Entrou ele todo engelhado e sem dentes, caminhando com dificuldade, amparado por duas muletas.

O czar mostrou-lhe o grão. Mas o velho já não tinha vista clara, e foi vendo e palpando ao mesmo tempo que o pôde examinar.

E o czar perguntou:


— Não saberás tu dizer-me, avozinho, onde pode germinar um grão igual? não terás tu por acaso semeado grãos semelhantes nos teus campos, ou comprado em alguma parte?

O velho era surdo: só com grande trabalho pôde ouvir e com maior trabalho compreender.

E respondeu:

— Não. Não semeei nunca, nem colhi nos meus campos, nem comprei centeio semelhante. O grão que eu comprava era tão miúdo como o centeio de agora. Conviria — continuou ele — perguntar a meu pai; talvez ele tenha ouvido dizer onde semelhante grão pôde germinar.

O czar mandou procurar o pai do velho. Puderam achá-lo e trouxeram-no à presença do czar. Era um homem muito velho, mas trazia una só muleta.

O czar mostrou-lhe o grão. E perguntou:

— Não sabes tu, velhinho, onde terá germinado um semelhante grão? Não terás tu mesmo semeado grão igual nos teus campos, ou comprado em alguma parte?

 Ainda que o velho tivesse o ouvido fraco, ouviu melhor do que o filho.

— Não, disse ele. Nunca semeei nos meus campos, nem colhi, nem comprei centeio igual. No meu tempo nem o dinheiro existia. Cada um comia então o seu próprio pão, e se a alguém faltava, davam-lhe os outros... Ignoro onde semelhante grão tenha germinado. Apesar de que o centeio era mais graúdo do que agora, nunca o vi deste tamanho. Ouvi dizer a meu pai que no seu tempo o centeio era mais bonito e o grão mais graúdo. É a ele que devem perguntar.

O czar mandou buscar o pai do velho. Logo o acharam também e trouxeram-no à presença do czar.

O velho entrou no palácio sem muleta, com pé firme, vista clara, ouvido fino.

O czar mostrou-lhe o grão. O velho, depois de examinar, disse:

— Há muitos anos que não vejo centeio dos antigos tempos.

Mordeu o grão e mastigou-o em seus dentes.

— É o próprio — disse ele.

— Dize-me então, avozinho, onde e quando semelhante grão germinou. Não semeaste tu semelhante grão nos teus campos, não o compraste nalguma parte?

 E o velho respondeu.

— No meu tempo centeio igual a este rebentava por toda a parte. Era deste mesmo centeio que eu ceifava e mandava moer.

E o czar perguntou:

— Dize-me cá, avozinho, se tu o compravas ou se o semeavas nos teus campos.

O velho sorriu:

— No meu tempo — disse ele — ninguém teria pensado sequer em encarregar-se de um tal pecado: vender ou comprar pão! ... Nem sequer era conhecido o dinheiro. Nós tínhamos sempre pão bastante para as nossas necessidades.

E o czar perguntou ainda:

— Dize-me então, velhinho, onde semeavas tu deste grão, e onde era o teu campo.

E o avozinho respondeu:

— Meu campo era a terra de Deus. Onde eu lavrava, era aí o meu campo. O solo era livre. Não chamávamos à terra propriedade nossa; não chamava cada um seu senão ao seu próprio trabalho.

— Dize-me ainda duas coisas — continuou o czar: primeira, por que nascia outrora este grão e agora já não nasce? segunda, por que anda teu neto em duas muletas, teu filho só numa, e por que tu nem muletas precisas? Teus olhos têm vista clara, teus dentes estão seguros, tuas palavras são claras e afáveis. Por que tudo isto, avozinho?

E o velho respondeu:

— Porque os homens deixaram de viver do seu próprio trabalho, e gostam de fazer trabalhar os outros. Não era assim que se vivia no tempo antigo; nesse tempo vivia-se segundo a lei de Deus; contentavam-se com o necessário, não tinham inveja uns dos outros...

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Tradutor desconhecido.
Gazeta de Notícias, 1897.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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