quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O Corvo, de Edgar Allan Poe (Versão de Iba Mendes)


O Corvo, de Edgar Allan Poe
Versão: Iba Mendes - 2019
Numa meia-noite lúgubre, quando em tristes reflexões inclinava minha cabeça sobre um velho livro, de repente ouvir como se alguém tocasse levemente à minha porta... É uma visita a estas horas, murmurei, e nada mais!

Ah! Lembro-me: era o gélido mês de dezembro, e as brasas, agonizando, enviavam ao meu chão seus raios fantasmais. Eu ansiava pelo raiar da aurora, e em vão buscava extrair dos livros um conforto para a minha saudade, a saudade da minha finada Leonora, aquela a quem os anjos chamam Leonora, e que neste mundo ninguém mais há de chamar, nunca mais!

E o fraco ondular das rubras cortinas transpunha todo o meu ser, e enchia-me de um fantástico e desconhecido terror. Então, para sossegar meu coração aflito, eu repetia para mim mesmo: Alguém talvez, que busca refúgio em meu lar, à minha porta insiste em bater. Sim, é apenas isso, e nada mais!

Assim o meu espírito foi aos poucos se revigorando, e, sem hesitar, por fim, falei: Senhor ou senhora, peço-vos desculpas, mas é que batestes tão brandamente à porta de meu quarto, e estando eu quase adormecido, mal pude ouvir o soar das pancadas... Abri-a e, súbito, vi tão somente trevas, e nada mais!

De pé e tomado de espanto, fiquei parado à porta a examinar por longo tempo aquela escuridão. Ali permaneci a pensar, a duvidar e temer, a sonhar com as coisas jamais sonhadas pelos mortais. O silêncio porém era imenso e tudo se mantinha em perene imobilidade. Uma palavra apenas ouvi sussurrar: Leonora! E logo um eco se repetira: Leonora! Foi só isso, e nada mais.

Retornando ao quarto com a alma abrasada em chama, ouvi outra vez uma pancada ainda mais forte. Não há dúvidas, pensei, que é a voracidade do vento que atinge minha janela. Vejamos pois de que se trata este ruído, e assim manteremos em sossego o coração... Ah, com certeza é a fúria do vento, e nada mais.

Abrir sobressaltado a janela, e, num esvoaçar de asas, eis que adentra ao meu quarto um majestoso corvo dos tempos ancestrais... Numa pose digna da alta nobreza e sem demonstrar a menor hesitação, empoleirou-se ele sobre o busto de Palas, que ornamentava o meu umbral. Ali pousou e aquietou-se, e nada mais!

Esta ave ebânea, por sua fisionomia severa e por seu porte solene, logo desfez em riso o meu triste semblante, e então gracejei: Ainda que tua crista esteja raspada, corvo macabro, certamente não te pareces com um poltrão... Diz-me como és tu chamado nas margens das praias infernais... O corvo respondeu: Nunca mais!

Causou-me espanto saber que este hediondo pássaro entendera a minha pergunta, não obstante sua resposta se mostrasse inconclusiva e sem sentido; mas convenhamos que a homem algum jamais foi dado contemplar uma ave pousada sobre um busto esculpido nos umbrais de uma porta, e cujo nome seja “Nunca mais”.

Mas o corvo, pousado tranquilamente sobre o plácido busto, não pronunciou senão aquelas únicas palavras. Nada mais afirmou, nem sequer moveu suas penas, até que eu murmurasse para mim mesmo: Outros amigos abandonaram-me; também ele há de me desamparar logo ao alvorecer do dia, tal qual as minhas antigas esperanças. Então o pássaro novamente repetiu: Nunca Mais!

Fiquei estarrecido ao ouvir tão categórica resposta, e foi assim que exclamei: Com certeza ele apenas repete palavras que aprendera com o seu antigo e desafortunado dono, o qual, constantemente perseguido por turbilhões de desgraças, tomara para si este monótono e triste bordão: Nunca Mais!

Mas o corvo, fazendo minha alma triste sorrir, instigou-me a que aproximasse a poltrona para junto da porta, em frente ao busto, e ali, deitado, passei a fantasiar acerca do que esta hedionda, repugnante, sinistra e patética ave ancestral grasnava, quando dizia: Nunca mais!

Assim me conservei durante algum tempo em profunda meditação, porém sem dizer uma só palavra ao pássaro, cujos olhos, queimando como as chamas do inferno, faziam arder meu peito e alma... Com minha cabeça reclinada à luz da lâmpada, eu acariciava o rubro veludo da poltrona, onde outrora a cabeça angelical dela repousava... Mas, agora... ah! nunca mais!

Pareceu-me que o ar se condensava num incensário invisível, agitado por seres celestiais, cujos passos pareciam ressoar levemente no tapete do meu quarto. Miserável! vociferei,  o Deus das tuas crenças enviou-te até mim, a fim de trazeres à  minha alma o repouso e o esquecimento... Oh! Embriaga-te, pois, nestes nepentes, e olvida para sempre da memória a minha morta Leonora. E o corvo respondeu: Nunca mais!

Profeta! exclamei eu, mensageiro de desgraças! pássaro ou demônio, pouca importa. Ainda que tenhas sido enviado pelo vil Tentador a esta terra, e que aqui, povoação de fantasmas e deserto de horrores, tenhas aportado corajosamente entre tempestades, dize-me com sinceridade, eu te imploro, dize-me, porventura ainda existe neste mundo algum bálsamo de Gileade para os meus tormentos? Responde-me, eu te imploro. E o corvo respondeu: Nunca mais!

Profeta! insisti eu, mensageiro de desgraças! pássaro ou demônio, pouca importa. Dize-me, pelos céus que nos envolvem, pelo Deus a quem servimos, se esta alma atormentada pela dor, poderá abraçar lá no porvir, no longínquo Éden, aquela virgem pura, a quem os anjos chamam Leonora? O corvo disse: Nunca mais!

Essa voz, oh, corvo, seja enfim teu último adeus. Retorna à horrenda tempestade e aos tenebrosos subterrâneos de Plutão... Vai-te daqui, e que não reste neste chão, como lembrança das tuas mentiras, uma só das tuas penas... Desprende-te deste busto, deixa-me solitário neste ermo recanto... Aparta-te, pois, espectro do mal, para o mais distante da minha porta. E o corvo respondeu: Nunca Mais!

E o corvo, que não se move, conserva-se empoleirado sobre os umbrais da minha porta, e seus olhos refletem os de um demônio quando sonha; a luz da minha lâmpada espalha sua sombra no meu quarto, e sobre o chão, para além desta sombra, flutua minha triste alma, que jamais se erguerá, nunca mais!

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