terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O corvo e seus filhos (Conto), de Leon Tolstoi



O corvo e seus filhos


Um corvo fez um ninho em uma ilha, e quando teve filhos, quis transportá-los ao continente.

Primeiro tomou um para atravessar o mar; porém chegando a meio caminho sentiu-se fatigado, diminuiu o seu voo e disse para si:

— Agora que sou forte e ele fraco, posso levá-lo; porém quando ele for forte e a velhice me debilitar, lembrar-se-á de meus cuidados e me levará de um lugar para o outro?

Perguntou então ao seu filho:

— Quando fores forte e eu fraco, levar-me-ás assim? Responde com franqueza!

O filho temendo que ele o deixasse cair no mar, respondeu:

— Sim, hei de levar-te!

Porém o corvo não acreditou no seu filho, e abriu as garras. Como uma bala, o filho caiu na água e se afogou.

O velho voltou à ilha, tomou outro filho e atravessou de novo o mar.

Mais uma vez fatigado, perguntou a esse outro filho:

— Levar-me-ás de um lugar para o outro, como eu a ti agora fiz, quando eu for velho?

Com o mesmo receio que seu irmão, este também respondeu que sim, que o levaria.

O pai também não o acreditou, e soltou-o ao mar.

Quando regressou a ilha, no ninho só havia um filho. Tomou-o e dirigiu seu voo em direção ao mar.

Outra vez cansado, perguntou:

— Vais manter-me na minha velhice e transportar-me assim quando estiver velho e debilitado?

E o corvo jovem respondeu:

— Não... não o levarei!

— Por quê? — perguntou, surpreso, o pai.

— Quando fores velho eu serei forte, terei um ninho meu, e provavelmente muitos filhos, a quem terei de alimentar e transportar como hoje o fazes comigo. Então pensou o velho corvo:

— Há dito a verdade. Em recompensa vou levá-lo até a margem. E assim o fez.


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A República, 14 de março de 1924.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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