sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O lobo e o mujique (Conto), de Leon Tolstoi



O lobo e o mujique

Um lobo perseguido por um caçador encontrou um mujique que regressava dos campos com um saco e um malhadeiro. E o lobo disse-lhe:

— Mujique, esconde-me! os caçadores perseguem-me.

O mujique teve compaixão do lobo, escondeu-o no saco e pô-lo às costas.

Os caçadores vieram e perguntaram ao mujique se tinha visto o lobo:

— Não, não vi! — respondeu  o mujique.

Os caçadores afastaram-se, o lobo saiu do saco e lançou-se sobre o mujique.

— Ó lobo ingrato! Não tens vergonha?  Acabo de te salvar a vida e é a mim que queres devorar?!

O lobo respondeu-lhe:

— Um favor esquece-se!

— Não, respondeu o mujique, um favor nunca se esquece: interroga quem quiseres e verás o que te respondem.

E o lobo concordou:

— Pois seja assim! Vamos por aí afora, juntos, e perguntemos a quem primeiro se nos deparar se um favor se esquece ou não. Se responderem que sim, comer-te-ei.

E continuaram o seu caminho. Daí a pouco encontraram um cavalo.

O mujique perguntou-lhe:

— Dize-me, ó cavalo, se um favor se esquece ou não.

O cavalo disse:

— A esse respeito conto-te o seguinte: vivi doze anos em casa do meu dono, dei-lhe doze cavalos e ao mesmo tempo ajudei-o no cultivo da terra; o ano passado ceguei e ele fez-me trabalhar no moinho. Por fim perdi as forças, e um dia cair debaixo da roda. Bateram-me, me arrastaram pela cauda e puseram-me fora. Quando voltei a mim, tratei de fugir. Onde vou? Não sei.

Então o lobo observou:

— Vês, mojique, que um favor se esquece?

E o mujique respondeu:

— Espera um pouco, perguntemos a outro.

Mais longe, encontraram um cão velho, coxeando e levantando-se a custo.

O mujique perguntou:

— Dize-me, cão, se um favor se esquece.

— Ouve-me, respondeu o cão...

Vivi quinze anos em casa do meu dono, guardava a sua casa, ladrava e saltava nos malfeitores para os morder. Agora, porém, que já não tenho dentes, fui posto na rua, bateram-me e quebraram-me as costelas. Arrasto-me como posso,  não sei para onde, mas o que  quero é fugir para bem longe do meu antigo dono.

E o lobo observou novamente:

— Ouves o que ele diz?

E o mujique replicou:

— Espera um terceiro encontro.

Mais distante encontraram uma raposa.

—Dize me, ó raposa, interrogou o lobo, um favor se esquece ou não?

— Por que queres saber isso? disse a raposa. O mujique respondeu:

 Eu explico. O lobo era perseguido por caçadores, pediu-me para o esconder e  agora quer me devorar.

— Quê? um lobo desse tamanho pode caber num saco? Se eu visse isso, fazia-os chegar a um acordo, afirmou a raposa.

— Encolheu-se todo, exclamou o mujique, ele mesmo te pode dizer.

— É verdade,  confirmou o lobo.

Então a raposa insistiu.

— Mostra-me lá como o meteste no saco, que só acreditarei vendo.

O lobo deixou-se escorregar para dentro do saco  e disse:

— Foi assim!

— Mete-te todo, insistiu mais a raposa, porque ainda não vejo.

O lobo entrou completamente para o saco a a raposa disse ao mujique:

— Agora é necessário atá-lo.

O mujique atou o saco, e a raposa disse-lhe:

— Mostra-lhe, agora, mujique, como é que bates o trigo.

O mujique pôs-se a rir e bateu no lobo com o malhadeiro.

Depois comentou:

— Olha, raposa, como se abre o grão debaixo do malheiro!

E deu uma forte paulada na cabeça da raposa, matou-a e disse-lhe:

— Um favor, esquece-se!

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Tradutor desconhecido (2 de março de 1899).
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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