quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

São Paulo em Poemas (Rio Tietê, 1906)



 O TIETÊ

De tarde, quando o sol poucos brilhos expande
Sozinho, a meditar em tanto não sei quê,
Torno o rumo da Luz, von até à Ponte Grande,
A fim de conversar com o meu velho Tietê...

A cabeça recosto e, por cima da grade,
Vejo as águas em toda a largura leito;
E então ele me conta a história da Cidade,
— Criança que mamou e cresceu no seu peito.

Cofiando lentamente a barba de cem anos,
O bom velho me conta essa história, e também
Fala do tempo do hoje e dos seus desenganos,
Mas não zangado e não xinga ninguém.

Refere-se às Monções que ele, soberbamente,
Tantas vezes levou, na taina das conquistas.
Escutando pulsar o coração valente
Daquela geração de valentes paulistas!

Tempo em que num tropel, num bizarro alvoroço
De armas e de embarcações, como agora não há,
Partiu para o sertão, rumo de Mato Grosso,
Pascoal Moreira, fundador de Cuiabá

E a cidade crescia. Ora os pais em que pensam
Ele vendo-a crescer, dava-lhe mais ternura,
Quando a filha jovial vinha pedir-lhe a bênção;
Mas agora cresceu; nunca mais o procura!

E, por isso, arrastando o lamento das águas,
De parcel em parcel, de cachão em cachão.
Vai levando no seio outro rio de mágoas,
Ao qual não sobredoura a espuma da ilusão.

Meu ingênuo Tietê! o progresso o apavora!
Por toda a parte vê trevas e encanamento,
E, por isso, a tremer, todo nervoso, implora
Que lhe vão tapar o azul do firmamento!

Que importa a ingratidão da cidade querida,
Que, de longe, lhe mostra os altivos torreões?
Enquanto ele tiver uma gota de vida
Há de beijar-lhe os pés, cheio de comoções!

Tem saudades também o desditoso Rio!
E então a sua voz é de cortar rochedo,
Quando, quase a chorar, num longo murmúrio,
Começa a recitar Álvares de Azevedo!

Castro Alves muita vez o despertou num grito,
Que imitava um trovão, num medonho escarcéu,
Quando um pé no Himalaia e outro no infinito,
Se a punha a interpelar as estrelas do céu!

Mas agora só escuta uma horrenda algarvia,
No bárbaro vozeu dos bandos invasores.
Oh tempos de Albuquerques! Oh pobreza e alegria,
Quando Piratininga era um cabaz de flores!

Então, remos ao léu, descia a serenata,
Em macio langor, em macio langor...
E uma voz de mulher, como um jorro de prata,
Espalhava no ambiente um queixume de amor.

Havia quietação e mistérios de sombra
Na renque dos bambus, arqueados de indolência;
E dois noivos, a sós, na doçura da alfombra,
Abriam a alma em flor, como um vidro de essência.
Antes nunca deixasse o veio transparente
Em que um dia nasceu e até hoje bendiz!
Ah corrente fatal! ah teimosa corrente.
Que o fez grande demais para ser infeliz!
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Correio Paulistano, 18 de fevereiro de 1906.

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