sábado, 2 de fevereiro de 2019

O Plano (Conto), de Iba Mendes



O Plano

Não se sentia humilhado somente, mas também decepcionado e terrivelmente indignado. Onde já se viu tratar um ser humano assim desse jeito? pois ele verá com quantos paus se faz uma canoa!

Durante todo aquele dia não conseguia pensar em mais nada. Até a madrugada não pôde dormir, e os instantes em que cochilou foram apenas de pesadelos. Só um sentimento o dominava completamente: o de vingança!
Acordou com um maquiavélico plano na cabeça. Não vislumbrava, porém, um meio de colocá-lo em prática, pelo menos por ora. Era preciso estudá-lo detidamente, analisar bem cada etapa e só então partir para a ação, para o tão almejado desfecho.
De posse de papel e caneta, começou a traçar cada estágio do plano; avaliava minuciosamente os meios e as consequências, calculava os pós e os contras, o que era preciso para suplantar uma etapa e alcançar outra etc. Planejava tudo isso vislumbrando mentalmente o rosto atônito do oponente, seu semblante carregado de pavor, suas expressões de arrependimento e o gran finale, quando se via, sorrindo, cara a cara com o inimigo, o qual, lançando-se de bruços por terra, clama-lhe por misericórdia. Seus olhos brilhavam...
Tais pensamentos povoavam-lhe a mente o tempo todo, alimentava-lhe o espírito e enchendo-lhe de ânimo e de vontade de viver. Se algum remorso sentia, lembrava-se da injustiça que sofrera e se consolava sobremaneira com isso. Nada lhe importava mais, e o desejo por vingança obcecava-o de tal modo que ao mirar o espelho não via sua própria imagem, mas o reflexo vivo do outro, que lhe aparecia com um riso escancarado e grotesco, riso de puro escárnio.
Quem o conhecesse, jamais suspeitaria que portasse no coração erva tão daninha! Era comum dizer-se dele que tinha a sensibilidade de uma mãe extremosa; contavam-se ainda que era o tipo de pessoa que não tinha maldade no coração e que servia a Deus com o mesmo fervor dos santos. A verdadeira religião, costumava dizer ele, é amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Por isso, gostava de fazer caridade, distribuía esmolas à porta da igreja, fazia orações pelos doentes e necessitados e, vez ou outra, até jejuava pelas causas alheias.
É bem verdade que tais sentimentos religiosos o incomodavam deveras, martelavam-lhe a consciência e o acusavam diuturnamente de violação aos preceitos divinos... Tinha agora a oportunidade real de vivenciar o mandamento bíblico, de resistir à tentação maligna; todavia, o sentimento de ojeriza pelo adversário o dominava inteiramente até o mais profundo da sua medula espinhal. Era algo que não conseguia dominar e para o qual apenas via uma saída: consumá-lo.
Vindicta tarda sed gravis.
Assim traçou seu plano e buscou executá-lo logo na manhã do dia seguinte. Cuidou em rever cada passo, avaliou novamente todas as alternativas, calculou com exatidão todos os procedimentos e concluiu, com um largo sorriso, que elaborara um plano perfeito. Por fim, vingar-se-ia de tão grande humilhação!
À noite não conseguia dormir. Estava ansioso por ver chegar o tão desejado dia. Pegou no sono só de madrugada. E sonhou... Sonhou que tendo executado seu audacioso plano, fora conduzido por um anjo à presença de Deus, o qual lhe interrogava se não havia lido os santos mandamentos das Escrituras. Ele respondia que sim, mas que tinha cedido às artimanhas de Belzebu e que por isso havia cometido tão execrável crime. O senhor então lhe disse: “Apartai de mim, maldito, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Quando percebeu que adentrava as labaredas do inferno, deu um grito e acordou. Estava transpirando e atordoado.
De manhã, levantou-se e se ajoelhou perante a imagem de um santo. Rezou três padre-nossos e três ave-marias. Em seguida pôs-se de pé e saiu. Dava assim o primeiro passo de um plano friamente calculado...

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