domingo, 27 de janeiro de 2019

Aposentados (Conto), de Iba Mendes



Aposentados
Repentinamente viu-se apreensivo como se aguardasse uma visita importante ou como se estivesse na iminência de receber alguma notícia. Permaneceu assim a semana toda, inquieto e com a mente em completa divagação.
— O que está acontecendo, homem de Deus? — indagou sua esposa um tanto preocupada.
Ele, porém, limitou a dizer que estava tudo bem e que não havia nenhum motivo para preocupações.
— Sossegue, mulher! Estou bem... estou bem...
À medida que os dias iam passando, não só aumentava a inquietação da companheira como, também, tornava-se cada vez mais visível o desassossego de espírito do marido, que dormia mal e acordava sempre suando e sobressaltado.
Instado a procurar um psiquiatra, irritou-se dizendo que não estava louco nem doente, que não precisava de médicos e muito menos de remédios.
— Ora, já não disse que estou bem?...
No fim de um mês passou a se comportar de modo ainda mais esquisito. Tão logo tomava café, dirigia-se até a sacada do apartamento e ali ficava longo tempo a mirar fixamente o horizonte, e às vezes a manhã toda, sentado e sem dizer uma só palavra.
— Endoideceu de vez! — desabafou a pobre senhora com o cunhado, que lhe pedia só um pouco mais de paciência.
— Não há de ser nada. Peço que tenha só mais um pouco de paciência. Prometo ir ter com ele com a maior brevidade.
A conversa durou apenas alguns minutos. O outro, porém, conteve-se e apenas repetiu o que havia dito anteriormente à esposa, isto é, que não estava doente e que não existiam razões para preocupações.
De fato o irmão não notou nada que pudesse indicar alguma debilidade física ou mental, somente um pouco de melancolia, que poderia ser apenas uma forma que ele encontrou para se adaptar à sua nova vida de aposentado. Desta forma, conformou-se com a situação, enquanto a mulher, a pedido deste, fingia que estava tudo bem.
Passados três meses, acrescentou às suas manias, o estranho hábito de escrever em papel de pão. Escrevia e rasgava, de modo que não se sabia de que se tratavam tais inscrições. A mulher aventou a ideia de que poderiam ser poemas, uma vez que ultimamente dera para ler e declamar em voz alta na sacada do prédio. Dava preferência aos poetas portugueses, especialmente Bocage e Fernando Pessoa.
Concomitantemente a esses hábitos, passou a tratar com novos modos a mulher. Às vezes surpreendia-a com flores e outras delicadezas, algo que sempre vinha acompanhado de galanteios e expressões poéticas.
Inicialmente a boa senhora acatou com estranheza tais atitudes do esposo, porém logo se acostumou com elas e até se sentia feliz com suas bizarrices.
Aproximava-se o inverno, quando recebeu a notícia de que sua senhora fora acometida de uma grave enfermidade, restando-lhe, segundo dissera os médicos, um ou no máximo dois meses de vida. O fato abateu-o profundamente a ponto de dizer com aparente convicção que morreria junto com ela.
***
Não morreu ele. Ela, sim, faleceu numa noite de sábado antes de findar a estação fria. No velório declamou ele entre lágrimas ardentes o “Beleza e Morte”, poema de Bulhão Pato, que muita comoção causou entre os circunstantes:
Quando Deus à terra envia
Um anjo dos seus, é breve
A vida que lhe confia.
...................

Como a flor branca de neve
Que ao primeiro alvor do dia
No prado desabrochou,
Assim ela veio ao mundo,
E tão rápida passou,
Que deste rumor profundo
Nem um som, nem um gemido
Por esse anjo foi ouvido!
Nasceu, e sorrindo amou!

Quem ao vê-la tão ditosa
Tão feliz por ser amada,
E tão feliz por amar,
Bela, fragrante, viçosa,
Cheia de vida no olhar,
De luz na face encantada;
Quem diria que esse amor
Seria a chama fatal,
Que a devia enfim matar!?

Pobre florinha do vale,
Da aurora ao primeiro alvor
Nasceu, e sorrindo, amou,
Mas com a tarde... expirou!
Seis meses depois virou poeta e compôs, em versos alexandrinos, um esticado poema intitulado “À Musa Sexagenária”, dedicado à viúva de seu melhor amigo, uma garbosa senhora de sessenta e dois anos, com a qual entrou no pleno gozo da aposentadoria.

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