sábado, 16 de fevereiro de 2019

A árvore que despencou no chão (Conto), de Iba Mendes

 

A árvore que despencou no chão
Era uma vez uma árvore frondosa, imponente e repleta de grandes e viçosos galhos. Todo aquele a quem era reservado a felicidade de vê-la e admirá-la, ficava como que extático e assombrado, tamanha era sua beleza e exuberância. Por isso ela atraía a atenção de pessoas do mundo todo, sendo assunto desde os ébrios nos botequins até os doutos e mestres nos grandes centros universitários. Havia nela, por assim dizer, um certo encantamento que a tornava uma árvore verdadeiramente única, ímpar e sem igual em toda face da terra.
E toda essa singularidade residia no fato de seus galhos serem magistralmente compostos por uma infinidade de seres vivos, todos amalgamados por uma rígida e compassada inter-relação, numa progressiva evolução rumo à suprema perfeição natural, onde residia a copa mais verdejante. Nos galhos de baixo achavam-se os vermes, sendo por isso considerados os seres menos dignos de todo o arbusto; a seguir vinham os répteis, depois as aves, os mamíferos e, por fim, no seu mais alto cume, aparecia ostentosamente o homem, a obra máxima da Seleção Natural.
Na medida em que o tempo passava intensificava-se o respeito e o apreço pelo insigne vegetal. Quem, por negligência ou ignorância ousava contestar sua relevância para o bem da humanidade, era de imediato silenciado ou forçado a reexaminar sua postura anátema, sob pena de prisão e tortura.
— Hereges malditos! —vociferavam indignados seus audaciosos defensores. — Como ousam questionar o inquestionável? — indagavam inconformados com tão grande blasfêmia.
Mas as árvores, tais quais os homens e as flores, também envelhecem. Assim se deu com a nossa ostentosa árvore. Os vestígios do tempo tornaram-na árida e quebradiça. Ademais, alguns mais ousados, que traziam em si certa desconfiança, resolveram, na calada da noite, investigar mais de perto o que de fato se passava com aquele majestoso vegetal. Essas inquirições tornaram-se frequentes e, aos poucos, descobriu-se que muitos dos seus galhos foram ali implantados mediante artifícios humanos, e não como consequência da ação invisível e aleatória da Natureza, como apregoava a unanimidade acadêmica nos quadrantes da terra. Entretanto, o temor das ameaças falou mais alto, e o silêncio tornou-se a regra.
O tempo, todavia, não cessava sua marcha...
Foi então que num belo dia, num desses dias em que o sol parece brincar de rei, que a árvore, pela primeira e única vez balançou desde a sua base. Tal acontecimento veio seguido de enorme comoção mundial, e a notícia se espalhou como um impetuoso vento pela face da terra. Milhares de pessoas vieram então vê-la, quiçá, pela última vez. Ao seu redor uma multidão de repórteres lançava aos lares a chocante imagem da ingente árvore a mover-se de um lado para o outro. De repente, num diminuto lapso de tempo, eis que o lenhoso vegetal despenca e, como água de cachoeira, desfalece no chão ante o assombro de toda a humanidade.
Houve choros e lamentações, e alguns até se lançaram em precipícios em profundo desespero. Mas que se havia de fazer? A grande Árvore estava por fim inerte ao chão.
Logo vieram os especialistas, os quais, munidos das mais avançadas técnicas e equipamentos, tentavam desvendar a causa de o poderoso vegetal ter capitulado. As conclusões foram rápidas e sucintas:
A árvore era uma grande farsa, e os seres que a adornavam nada mais eram do que produtos da astuta ação de certo naturalista, o qual, impelido pelo desejo de ver sua teoria estabelecida, conseguiu a proeza de torná-la uma realidade concreta e inquestionável, não obstante seu verdadeiro aspecto de imenso fantasma.

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