domingo, 3 de março de 2019

A tristeza de Antônio Nobre


A tristeza de Antônio Nobre

De toda a poesia portuguesa, são sem dúvida os versos de Antônio  Nobre  os que, hoje, mais fascinam a juventude de nosso país.

Os versos de Antero, que obedeceram aos princípios filosóficos da destruição do "eu" e da inanidade dissolvente, já não atraem os moços de hoje como atraíram os de ontem.

O Sr. Manoel Bandeira dedicou aos males de Antônio Nobre um poema que todos sabemos de cor e jamais esqueceremos.

Em seu volume "Tristão de Ataíde e outros estudos", o jovem e compreensivo ensaísta gaúcho Carlos Dante de Moraes dedica um punhado de sugestivas páginas à tristeza de Antônio Nobre.

 Diz o Sr. Carlos Dante de Moraes: "Bem cedo a desventura se instala na alma e no corpo do sonhador, um temperamento melindroso de aristocrata, de nervos finos e delicados. Porém, saber-se eleito da desgraça é o clima da sua sensibilidade, o seu fado de poeta, que ele aceita com tristeza voluptuosa. A natureza enfermiça, cada ano que passa, lhe aguça os sentidos, cada vez roais vibráteis a esse mundo exterior, que atravessará por pouco tempo... Ele começa a existir unicamente para a doença, a sina, as desditas, as lembranças ternas da infância e da meninice. O seu íntimo entenebrece e não admite senão correspondências fúnebres. O vento o histeriza e lhe põe a alma assim como um mar encapelado. A lua cheia infiltra amavios aflitos e concepções cerebrinas. Vêm ocasiões em que o vermelho, aquele gritante das papoulas, das camélias e rainúnculos, faz pular o seu sangue linfático e delirar a imaginação em manchas escarlates..."

Apesar de todos esses temas de sofrimento e alucinação, nada existe de mais realista que a visão poética de Antônio Nobre.

"É verdade que trouxe do berço um condão imaginativo capaz de despertar mundos irreais, sugestões de magia. Muitos dos seus versos guardam mesmo qualquer coisa de cantilena bruxa. Todavia, predomina a maneira direta de olhar e sentir o mundo, segredo seu a que tudo se incorpora, o ímpeto feiticeiro das imagens, o perfil rude dos simples, as cenas da infância que se gravaram na sua memória. E é essa que dá ao "Só" um realismo desabusado e pitoresco, malicioso ou sarcástico, sem precedentes na poesia lusa".

Para o Sr. Dante de Moraes, "Purinha", a moça "boa, excepcional, quase divina", é toda ideada, sonhada, "porém com o bafejo de uma sensibilidade que quer vidência e tato".

Sendo realmente um "só", Antônio, "não convivia senão com os seus desgostos".

"Viajou pelo velho e o novo mundo, visitou capitais, sulcou mares, aportou a ilhas, subiu a montanhas, muitas vezes em estação de cura e repouso, mas não podia ver e amar senão a si mesmo. Compenetrado de que a sua passagem pela terra seria breve, fez da melancolia um elixir capitoso. De parceria com o poeta estava o doente que se contemplava como um fim. Por isso, todos os seus desejos e caprichos, a preocupação exclusiva de si, adquirem esse relevo exagerado, de primeiro plano, que quase encobre o resto da perspectiva."

E nisso situa o Sr. Carlos Dante de Moraes "também o seu amor próprio, a sua vaidade, porque ele foi belo fisicamente, amado e querido das mulheres; e o desdém, a petulância, que irritavam os homens".

Esperava, assim, a visita de Dona Morte entre madrigais e sarcasmos...


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Revista "Vamos Ler!" - 17 de julho de 1938.
Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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