domingo, 3 de março de 2019

Coragem de uma atitude (Augusto de Lima)


Coragem de uma atitude
O poeta Augusto de Lima apresenta-se espontaneamente à prisão

No tumulto da vida moderna o homem nada vale. Perde-se como uma partícula insignificante, no oceano humano das paixões desenfreadas. Há, porém, sempre gestos que ficam vibrando como notas de encantadora harmonia e de incomparável beleza através do burburinho do tempo, para exemplo e enlevação dos pósteros.

Foi uma dessas atitudes de nobreza espartana, que tivemos a felicidade de assistir, cheios de orgulho pela ventura de sermos contemporâneos de uma época que produz vultos de tamanha proteção moral. 

É o caso que, ontem, quando na Central de Polícia, mais acesso ia o corre-corre e o pega-pega atrás dos políticos mosorqueiros do regime decaído, se apresentou, ereto e varonil, ao delegado auxiliar, o inspirado poeta montanhês Sr. Augusto de Lima... O bardo, que trajava calças curtas, trazia estampadas na face pergaminhada os vestígios de uma grande emoção.

A vos pausada e firme, o gesto seráfico de ave alcandorada, perante a autoridade constituída, disse: 

— Senhor delegado da zona do Rio de Janeiro. Acabo de saber de fonte fidedigna, que estão sendo presos e recolhidos à bordo de uma nave nacional, surta ao largo da plácida Guanabara, políticos carcomidos do regime que transmontou a 24 de outubro. 

Soube mais, que esses presos, no bojo do navio fantasma, estariam sendo tratados desumanamente a empadinhas de camarão, coxinhas de galinhas e ovos recheados, confeccionados por uma das mais reputadas confeitarias da metrópole brasiliana. 

Solidário integralmente com esses miseráveis expostos à vindicta do vencedor insaciável, venho espontaneamente declarar a vossa senhoria que, desde este momento, me considero preso e incomunicável. Carcomido como eles, sobrevivente de um regime, onde fui caudatário de todos os governos, sinto-me hoje réu do mesmo crime e paciente das mesmas penas, impostas àqueles dignos patrícios, para quem a fortuna desandou. Requeiro, portanto, uma escolta que me acompanhe, sob custódia, à escada do portaló da nave civil, em que estão encarcerados, sofrendo violências inqualificáveis, homens que podem ser, de fato, da pior espécie, mas que, em todo o caso, são nossos patrícios! Por um alto dever de solidariedade humana, sinto-me compelido a exigir para mim as mesmas penas que padecem os aproveitadores do regime deposto: — as mesmas penas, os mesmos camarões, as mesmas maravilhas! 

Dizendo isto, o busto ereto, com passo marcial e cadenciado, o ilustre porta-lira, dirigindo-se de encontro à autoridade, arrematou, entregando os pulsos em cruz para as algemas:

— Prenda-me!

A cena, rápida e violenta, eletrizou os circunstantes. Pessoas idôneas e contínuos choravam de emoção, o Sr. delegado, ainda sob a forte impressão daquele episódio comovente, imobilizou-se num gesto de espanto, diante de tanta abnegação. 

— Não! — pôde apenas balbuciar por fim o mantenedor da ordem — homens dessa têmpera não podem sofrer coação! 

E pronunciando estas palavras, com a vibração dum hino cívico, chamou o "prontidão" e ordenou-lhe:

 — Jogue este paisano no olho da rua!...


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A Manhã, 28 de maio de 1932.
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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