segunda-feira, 11 de março de 2019

Águas intermitentes (Conto), de Christian Dancini

Águas intermitentes

A mente de um homem pode se encher de lamúrias e angústias até derramar o primeiro litro de lágrima, tanto quanto pode se encher de vastidão e completude até transbordar o primeiro litro de euforia. O homem em uma das opções pode ser considerado um louco, irascível, eufórico, maníaco, tanto quanto um deprimido, preguiçoso e mal-humorado em outra.  Justamente a intermitência das águas que transbordam a mente de Christopher é aquilo que na medicina chamam de depressão e neste conto é reconhecido como sede por redenção.

Christopher tinha depressão, ou melhor dizendo, achava que tinha algo que não poderia ser explicado, um transtorno que ainda não veio à tona nos termos medicinais. Foi chamado de todos os termos possíveis, técnicos e coloquiais. Suas águas intermitentes não o deixavam descansar e nenhum medicamento ou terapia fazia algum sentido para ele. Christopher buscava redenção, porém isso ainda não tinha ficado claro em sua mente, que transbordava emoções e pensamentos inconstantes.

Quando ia para o colégio via Carina, e todos os pensamentos e emoções ficavam cada vez mais confusos. Tinha apenas 18 anos e passou a vida inteira sendo um solitário nômade psíquico que nunca se encontrava. Carina tinha 20 anos e ele via nela uma porta para uma vida normal e plausível apenas aos homens normais, como era visto em seus pensamentos. Christopher contava cada segundo que Carina olhava para seus olhos e sorria, pois, cada segundo valia uma eternidade para o seu coração.

Carina não gostava de ser fitada por ele, sentia-se oprimida, com um peso gigante que gritava dos olhos de Christopher e, como uma estaca, cravava um pedido de socorro diretamente em seu coração. Sentia medo e pena, uma mistura horrível de sentimentos pesados que Christopher emanava do fundo do seu abismal coração. Se afastava sempre que o via perto, mas, quando era fitada por ele, já dava conta de redigir um sorriso falso em seus lábios macios.

Em uma tarde ensolarada de fevereiro, daquelas quais as nuvens titubeiam pelo céu e ameaçam fechá-lo em um golpe abrupto de meia hora, Carina estava sentada no parque com sua amiga Laura, uma loira com olhos azuis que causava mais inveja do que conforto para Carina, mesmo esse tipo de relação sendo comum entre os jovens. Ambas conversavam sobre Christopher, como ele era um sujeito peculiar, como seu olhar causava espanto e pena, como ninguém nunca conseguiu compreendê-lo a nível psiquicamente profundo. Laura, no entanto, não pensava tão arduamente sobre estas questões, a conversa sobre o pobre menino era conduzida por Carina, pois a mesma tinha sentimentos muito peculiares e intensos por ele, enquanto Laura pensava mais sobre seus encontros e sobre qual menino era o mais atraente do parque.

Nesta mesma tarde, Christopher pretendia levar flores à Carina. Havia comprado um buquê grande e, na hora em que o entregasse, queria revelar seu grande amor, sua flamejante paixão por ela. Comprou em uma loja cujo dono era um japonês senhor, o nome nem mesmo Chris sabia, mas do olhar tênue e carismático, da conversa animada e alto astral do senhor ele lembrava, por isso gostava sempre de comprar flores naquela lojinha já esquecida pelos moradores da cidade. Pegou então as flores e, caminhando a passos largos e ansiosos, assoviava para disfarçar o medo e o turbilhão de pensamentos que agora pesavam como sólidos em sua mente.

Chegou ao parque e viu Carina lá, esbelta e protuberante, jamais imaginara ela como algo mau, sempre no cúmulo da perfeição, sempre o alicerce da sua esperança. Cumprimentou-a então, “Oi... Carina?... Eu tenho algo para te entregar... posso... (vacilou uma tosse) entregar? ” Foram simples palavras, porém postas de maneira confusas de modo que Carina não mais compreendia a razão de Chris estar soando frio, branco, com flores murchas à mão e tremendo, como se um terremoto irrompesse de dentro dele. Carina então respondeu, “ Eu não posso aceitar essas flores, eu não compreendo você, não acha que eu gosto de você, acha? Porque eu nunca gostaria de você. ” Christopher jogou as flores para o alto e correu o mais rápido possível procurando a mais distante caverna na qual ele pudesse se esconder. Não ficou com vergonha apenas sentiu como se seu alicerce estivesse desabando, seu único pilar que sustentava sua esperança.

Correu tão rápido que chegou em poucos segundos à uma mata que ficava talvez quarenta minutos dali, cortou a cidade inteira correndo como se estivesse fugindo de si mesmo, porém nunca conseguiu. Chegou naqueles matos estranhos, mas calmos, sua cabeça, no entanto estava estourando de pensamentos, todos os sintomas físicos haviam piorados e então desabou a chorar. Chorou tanto que não conseguia nem ao menos abrir seus olhos pesados, as lágrimas pesavam trinta toneladas e o mundo nunca foi tão intenso.

Quando não tinha mais lágrimas para escorrer em seu rosto, ele, em soluços entrecortados, conseguiu olhar para o céu e abrir os olhos. Nunca sentiu calma tão semelhante, perguntava a si mesmo o que havia acontecido, por que tanta paz depois de tanto tormento, será a calma que precede a tempestade? Ou será um insight? Chris adentrou um pouco mais as matas que cada vez mais o acolheram e afagaram sua alma pesada. Deus estava presente, e não havia dúvidas para ele. Então a realização aconteceu, o milagre se fez presente. Chris não mudaria sua vida completamente e não seria o melhor aluno ou o melhor empregado, não seria nem mesmo reconhecido ou amado por Carina, mas percebeu em si mesmo que em sua terra havia uma semente que crescia, realizou então que sua terra era fértil, seu coração não era mais de pedra. Pela primeira vez conseguiu respirar, sua mão parou de tremer e observava em uma simples flor que se abria o milagre de ser e estar vivo, o que despertou tamanha realização em si? Não soube responder e talvez nunca saberá.

Christopher chamou essa experiência de redenção, sentiu-se arrebatado por tamanho silêncio ríspido e calmo, que quebrava seu coração de pedra e o mostrava sua verdadeira fonte, seu verdadeiro ser, que é a luz. Não mais precisava de alicerces ou pilares para sua esperança, sua esperança virou sua base, a esperança de que a vida não é só o que vai acontecer no segundo seguinte, mas o que pode acontecer quando não houve mais “próximo segundo ”. Olhava para o céu em júbilo e não sabia descrever o sentido daquilo, nem o sentido da vida, mas sabia que estava livre e perdoado.


CHRISTIAN DANCINI DE OLIVEIRA

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