domingo, 17 de março de 2019

Reino da Estupidez (Análise)



O Reino da Estupidez 

Imitando Erasmo no Elogio da Loucura, um anônimo acertou, em 1784, o seu golpe satírico na velha Coimbra, com o poema O Reino da Estupidez.

Soube-se, depois de inúteis pesquisas e atribuições gratuitas (e quando já carecia de interesse a revelação), que fora a vingança do estudante de medicina Francisco de Melo Franco, natural de Paracatu, contra a "reação" escolar. Nem apenas deste disse-se também — pois outro brasileiro o ajudara a compor, copiar e distribuir a obra-prima de insolência e insurreição: o paulista José Bonifácio de Andrada e Silva, àquele tempo estudante de ciências físicas e matemática.

Até hoje o problema desafia a história literária, porque, em verdade, nenhum deles, o que foi médico famoso e o Patriarca da Independência, esclareceu, ou sequer insinuou, a parceria nesses versos flamejantes. Qual a contribuição que lhes deu o jovem Andrada? Nutriam ambos as ideias ali traçadas, conspirando, racionalistas e inconformados, nos conventilhos da mocidade afrancesada, em que já se urdia a revolução liberal? Perpassará, enfim, pelo poema o espírito rebelde de José Bonifácio, como o pintam e retratam as odes da primeira fase recolhidas (em 1825) nas Poesias de Américo Elísio — ou nada tem a ver com elas O Reino da Estupidez?

Faz luz no caso uma certidão de batizado   (divulgada   por  Augusto   da   Silva Carvalho, o venerando historiador da medicina portuguesa).

Em dezembro de 1784, isto é, no ano em que estremeceu a Lusa Atenas com a irreverência de tais estrofes ali, na igreja de São Cristóvão, José Bonifácio levou a pia batismal o primogênito do colega Francisco de Melo Franco e de sua mulher, Rita Doroteia Umbelina de Castro.

Romance de estudante, precedera ao casamento a perquirição tenaz do Santo Ofício, que não perdoava ao rapaz de Paracatu, "herege, e naturalista dogmatista", a licenciosa opinião acerca da família: "negou o Decálogo e o sacramento do matrimonio!" Na correspondência do cavaleiro de Pollon (Lisboa, 2 de maio de 1780) informa-se que Rita Doroteia respondera por iguais desatinos. "Que há três dias houvera em Coimbra um auto-de-fé público em que a Inquisição desta cidade apresentou onze penitentes, entre eles uma rapariga (une jeune fille) que, como os demais, impava de materialista, desprezando todos os dogmas da Religião Cristã!"

Não deviam ser profundas as suas convicções, ou arrefeceram nas bênçãos do amor, porque, mal se libertaram da alçada eclesiástica, um pároco os juntou em casamento, e outro lhes batizou o filho, Justiniano de Melo Franco, o afilhado de José Bonifácio. Estamos a vê-los, passando de confrades a compadres, no tempestuoso começo da vida, a permutarem as suas angústias, sócios de esperanças e amarguras, em guerra íntima com a intolerância. Implantara-se na Universidade, desde que a autoridade sutil de D. Francisco de Lemos fora substituída pelo regime retrógrado do Principal Mendonça, suspiravam pelo Marquês de Pombal, os que escondidamente liam Voltaire; acusavam as ilustres congregações do pecado considerável do atraso, da rotina, do isolamento; e na primeira oportunidade — ao insurgir-se o lente José Monteiro da Rocha contra o mesquinho sistema — saíram à liça com a sua funda de Davi; e as quatro pedras do poema.

O inimigo, no "Reino da Estupidez", é o fanatismo. Foragido e pérfido, expulso pela "reta razão" de França ("Galica, nação ligeira") e Inglaterra ("Britânica gente"), viera hospedar-se com os "ilustres e sábios Acadêmicos"... Exatamente este é o sentido da poesia de José Bonifácio "A Criação":

...Laços que Natura
Forjou para os viventes, meigos
laços que em vão intenta férreo Fanatismo
Quebrar dentre os humanos. Deus piedoso!

A Ode de 1785, — inspirada no "gênio da inculta Pátria", repete e consagra a objurgatória:

A frente levantar não se atrevia
O Fanatismo férreo,

No "Reino da Estupidez":

As sublimes ciências da Natura
Como podeis tratar com tal desprezo?

A comparação dos textos mostra-nos a equivalência das imagens, mesmo vigor dos adjetivos, até a preocupação ''americana", conforme o preceito, ou antes, o preconceito, de uma civilização atroz impondo-se aos selvagens, mais feroz do que eles...

O poeta da "Estupidez" filosoficamente chora a sorte do índio.


Aquele matador e fero gênio
Que os duros castelhanos animava
A regar de indiano sangue um dia
México e Peru, entre este povo
Agora mesmo eu incitar podia.
Um inglês, um gentio, um maometano,
Se as leis civis o não vedassem tanto...

E José Bonifácio (ou Américo Elísio):

Imbeles povos, índios inocentes!
Do armado Espanhol provam as iras.
Que Deus fizera um Mundo creem os Tigres
Para ser presa sua. Em toda parte
"Americano sangue", inda fumando,
A terra ensopa, e amolenta as patas
Dos soberbos ginetes Andaluzes.
....................................................

Que queria o autor anônimo do libelo?

"Ver um lente de imensos estudantes rodeado", colhendo pelos campos "uma ervinha, uma flor, um gafanhoto", ou "com o fuzil ferindo as pedras", isto é (na língua montanística), fazendo a sua botânica ou a sua mineralogia, pelas serras, à procura de metais finos... O seu ideal era do naturalista, contrariado na escola insensível às correntes modernas da ciência, ansiando pelos novos métodos, que, depois de bacharelado e doutorado, foi o moço santista aprender no estrangeiro, durante dez longos anos.

Essa passagem do poema é uma indiscreta confissão de autoria.

Alterna-se, porém, com a alusão às decepções dos médicos, em que reencontramos — com a sua fogosa liberdade — Francisco de Melo Franco.

Em lugar da anatomia, o "grande Lopes', pelo Natal "em um carneiro".

O bofe, o coração, as tripas
todas a teus hábeis discípulos mostravas.

Lopes, é preciso que se diga, o Dr. Francisco Lopes Teixeira, encartara-se na cadeira de anatomia por ocasião da "nova fundação da Universidade", em 1772, e pertencia portanto à Geração purificada pelos Estatutos pombalinos.

Nisto o vate era tremendamente injusto: mas a graça absolvia-o. E afinal, não julgava, apupava; e com o tom clamoroso de chalaça e riso ia cantando a rebelião de primavera. O mineiro ou o paulista? Os dois, já o dissemos. Porém, não se pode, com o simples cotejo dos versos, tirar do Reino da Estupidez a eloquência revolucionária de José Bonifácio. É dele o estilo, e sobretudo a doutrina, feita de ternuras bucólicas, de ousadas apóstrofes, de altivez bravia, essa doutrina juvenil de emancipação, luta e beleza, quase um autorretrato!

Em 1831, na Imperial Academia de Medicina, ouviu o venerando Andrada sem desmentir a referência que fez Cruz Jobim à sua colaboração no poema que sacudira a Universidade de Coimbra.

Não confirmou; mas o silêncio, em tal assembleia, e na idade das reminiscências melancólicas, era uma concessão.

Aos 21 anos, a sua fúria demolidora lembra uma tempestade tropical, imprevisto formidável: devastou alegoricamente a resistência e a incompreensão do século XVIII. Na verdade correspondia ao desencadeamento das novas forças de um mundo e de uma época em que previamente fixava o seu lugar: se não fosse um chefe, seria um profeta; de qualquer modo, o homem do Destino.

Trinta e oito anos antes de despedaçar o "Reino Unido", o estadista da Independência poeticamente destruía o... Reino da Estupidez.
 
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PEDRO CALMON
Revista "O Cruzeiro", 31 de agosto de 1963.
Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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