sábado, 16 de março de 2019

Tomás Antônio Gonzaga: O poeta de Marília



O poeta de Marília

Que os poetas sempre amaram a liberdade — porque lhes lembra o voo das aves nos espaços — não há dúvidas, pois seus versos nunca se dedicaram à revolução. Jamais um vate cantou um cárcere ou uma tirania.

Aqueles que não dedicam poemas à deusa sabem doar-lhes amor.

Por isso, o juiz Tomás Antônio Gonzaga, natural do Porto, e a exercer suas funções em Vila Rica, província de Minas Gerais, no Brasil, não fugia aos fados dos outros cultores das musas. Magistrado e poeta, no reinado de D. Maria I, quando se auscultavam por toda a parte as conjuras, era mais do que suspeito, vigiado com outros intelectuais residentes na colônia portuguesa.

Naturalmente, o poeta tinha a sua alma empenhada noutro amor. A liberdade era o sonho e consubstanciava-a, talvez, nas graças e encantos de D. Maria Joaquina Doroteia de Seixas Brandão, formosura que o deslumbrara e a cuja beleza dedicava versos mimosos filhos do seu talento que a paixão incendiava e burilava.

Eu vivo, minha bela, sim eu vivo
Nos braços do descanso e mais do gosto;
Quando estou acordado
Contemplo no teu rosto
De graças adornado:
Se durmo, logo sonho e ali te vejo
Ah! Nem desperto nem dormindo sobe
A mais o meu desejo.

Era o delírio. Dedicava-lhe os transtornado e semilouco, tratando-a de Marília de Dirceu, num disfarce transparente, ao gosto da época.

Como sempre sucede, quanto mais a enaltecia maiores eram os desdéns da requestada, que, sendo bem mulher, o escravizava, sorrindo, para logo o repelir em esquecimentos, tétricos para aquela alma amorosa. Vivia numa alternativa de lua e treva.


Eu é que sou herói, Marília bela
Seguindo da virtude a honrosa estrada

Pintava-se deste modo, querendo ser grande a seus olhos, mas a dona, toda em enganos, o trazia ora atraindo-o, se ele brilhava, ora esquecendo-o para o conservar preso aos seus enlevos.

Marília não o amava; ele não podia dispensar-lhe a garridice porque os poetas, tendo fama de volúveis, só o são quando o sonho se materializa. Menos ousados que os outros homens, ante o objeto amado, desagradam-lhe, pois as mulheres, como a fortuna, que é fêmea, rendem-se aos audaciosos.

Eles, tendo medo de quebrar a teia da sua visão mal lhe tocam e nesse platonismo sofrem e torturam-se com os corações cheios de dor da qual fabricam o incenso, obtido à custa de mil horrores, e que a deusa geralmente nem aspira.

Não fugia à regra, o magistrado de Vila Rica.

Dava-se ao seu amor como um insensato e também a uma conjura, talvez na esperança de, tornado vencedor, mais agradar a bem-querida servindo a liberdade. Andavam, então, muito tontas as cabeças com as retumbantes frases dos tribunos da Revolução Francesa, as quais projetadas de Paris para Minas Gerais, alumiavam as mentes daqueles poetas cumpliciados na conspiração.

O triunfo da república americana ainda mais os exaltara e um deles, que estudava na capital de França, dirigira-se a Thomas Jefferson, plenipotenciário dos Estados Unidos, pedindo-lhe auxílios.

O momento era propício. As constantes exigências de tributos feitas pelo governo português, as malfadadas "derramas", já tinham dado razão aos que transmudavam o nome de Vila Rica em Vila Pobre, e, por isso, os vates, juntando-se a alguns militares, se pronunciavam pela rebelião.

Eram eles, além do apaixonado de Marília, Cláudio Manuel da Costa, Inácio Alvarenga, os padres Carlos de Toledo e Melo, José de Oliveira Rolim, Luiz Vaz de Toledo Piza, Francisco Antônio de Oliveira Lopes, José Rezende, com um filho, e o alferes José Joaquim da Silva Xavier, "o Tiradentes", assim alcunhado porque praticava de dentista ao mesmo tempo que servia na tropa.

Os bardos, os sacerdotes, os comerciantes, ligados para aquele intuito, não podiam contar apenas com a pequena patente do oficial para a revolta da província. Queriam mais agaloados, categorias militares capazes de se imporem ao governador, visconde de Barbacena, na ocasião do embate.

Joaquim Silvério dos Reis, filho de Leiria, coronel de auxiliares, foi falado para o golpe; o tenente-coronel Basílio de Brito Malheiro e o mestre do campo Inácio Correia Pamplona, um minhoto de Ponte do Lima, outro açoriano, da Terceira, igualmente se comprometeram.

O coronel estava crivado de dívidas; passou-lhe pelo cérebro uma má ação: denunciar os que se lhe tinham confiado. Não foram os sacerdotes, os mercantes, os poetas que imprudentemente se descobriram. Revelou seus intentos aquele militar agregando à sua perfídia os outros camaradas, à exceção do "Tiradentes".

Cautelosamente, se dirigiram à Cachoeira e, na casa de campo do governador, narraram o que se passava. A época da "derrama" favorecia muito os revolucionários e o povo estava excitado, e daí o contarem com o triunfo.

O fidalgo encarou-os numa desconfiança. Conhecia, de sobejo, o mau pagador Joaquim Silvério dos Reis, coronel de auxiliares e exigiu-lhe a denúncia por escrito. Aos outros impôs o mesmo. Esperou vê-los recusar, mas não sucedera assim. Assinaram a infâmia. Sem mais atenções, por quem procedia daquele modo, ordenou-lhes que continuassem a ouvir os conjurados. Deste modo estava ao fato do sucedido, dia a dia. Tinha naqueles oficiais os seus polícias enquanto a alma ardente do revolucionário José Joaquim da Silva Xavier se deleitava na sua ânsia de vitória e os poetas iam visionando a felicidade sob uma democracia.

Tomás Antônio Gonzaga irmanava-a com a sua amada.

Sucede, Marília bela
A medonha noite ao dia
A estação chuvosa e fria
Muda-se a sorte dos tempos
Só a minha sorte não?

Ia mudar. Ele foi preso, e Marília nem um ramo de flores lhe mandou ao cárcere, menos uma palavra amiga, e em vez duma carícia, que seria como um orvalho benéfico na chaga daquele pobre coração, só desdém lhe votou.

O "Tiradentes", conduzido para o Rio de Janeiro, foi condenado com os outros. Durante duas horas, escutaram a sentença, lida pelo desembargador Francisco Alves da Rocha, e que os votava à morte. Eram onze os réus, mas só um sofreria o suplício. Salvavam-se do suplício os cúmplices impondo-se-lhes penas diferentes da que infligiam ao alferes. Aos seus superiores, denunciantes, pagavam com ouro da "derrama" a qual caiu, mais violenta, sobre os mineiros aterrados.

Tomás Antônio Gonzaga foi sentenciado duramente a degredo perpétuo para as Pedras Negras de Angoche. Ao cabo de três anos de prisão comutaram-lhe o castigo para Moçambique. Ao chegar, o pobre poeta ia semilouco. Acometera-o a febre cerebral; uma mulher foi-lhe amparo na doença. Chamava-se D. Juliana de Sousa Mascarenhas, e era filha do hospedeiro do degredado. Casou com ela mas não foi feliz. Cascava largamente. Sendo perdulária, desventurou-o. Aquela cabeça talentosa não resistiu às amarguras. Ensandeceu. A maior culpada de sua desgraça devia ser Marília, a qual morreu velha, imortalizada pelo desditoso cujos versos pareciam ironias:

Nenhum dos homens conserva
Alegre sempre o seu rosto
Depois das penas vem gosto.
Depois do gosto aflição
Muda-se a sorte dos homens
Só a minha sorte não?

Mudava sempre para pior mas estava já louco — louco por Marília — quando em tais endechas não dava pelo dobar constante das suas desventuras, sempre em penas, jamais em gosto, em aflição eterna, nunca em paz.

Muda-se a sorte dos homens
Só a minha sorte não?
 
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ROCHA MARTINS
Revista Lusitânia, 1 de novembro de 1931.
Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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