terça-feira, 5 de março de 2019

Travessuras de Cupido (sobre o Marcelino Antônio Dutra)



Travessuras de Cupido
(Episódio da vida do poeta Marcelino Antônio Dutra)

Naqueles momentos inesquecíveis de boa conversa, contou-me o nosso  saudoso historiador José Boiteux, certo episódio da vida do poeta Marcelino Antônio Dutra.

O ilustrado político amava ardentemente uma linda morena, flor perfumada de nossas praias intérminas e que vicejava à solta martirizando Marcelino. Por mais que o poeta de "Assembleia das Aves" tentasse se aproximar daquela arisca sertaneja, ela sempre desviava, sorrindo, a investida do afetuoso poeta. E assim a vida corria-lhe amargurada, enegrecida, já que o "leit motiv" de sua existência, teimava em afastar-se dele sem que para isso houvesse uma razão justificável. E o vate dedilhava aos quatro ventos, trovas carinhosas como esta:

Se Júlia de mim gostasse
assim como eu gosto dela,
levaria deste mundo,
os males por bagatela.

Um dia, porém, Marcelino desvendou o motivo daquela atitude estranha da bela morena: ela também amava, por sua vez, certo moço pescador, destemido mestre de embarcação, que tantas proezas havia realizado em dias de borrascas. Ela admirava aquele peito largo e musculoso que brilhava ao sol de maio, quando ele comandava o "cerco" dos grandes lances da pesca de tainha. O  moço pescador, no entanto,  andava de "asa caída" para outras bandas e nem via, nem percebia o desejo abrasador que irradiavam dos olhos da guapa morena. Aquela situação intolerável não podia continuar... Foi então que Marcelino tomou uma resolução: iria falar a Júlia, de modo que, juntos, resolveriam definitivamente o rumo de seus amores. E o instante solene chegou, afinal. Começou então o poeta:

"Eu por ti e tu por outro padecemos. Desafiamos todo um rosário de martírio, quando nossas vidas poderiam ser um verdadeiro mar de rosas. Ele recusa dar-te a felicidade que eu te ofereço. Ele não vê o que de lindo anda em teus olhos fulgurantes. Ele não sabe, como eu, endeusar-te, cantar em versos maviosos os encantos que emanam de ti. Vem para mim, Júlia, que o mundo se sentirá invejoso ante nossa imensa ventura. Vem..."

Ela, porém, ruborizada, olhos fitando a areia mole da praia, exclamou, num longo suspiro: 

Não te aflijas se vivo consumida,
Se pode o seu desprezo dar-me a morte,
Também com teu amor não presta a vida.


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ANTÔNIO SBISSA
A República, 30 de agosto de 1934.
Pesquisa, transcrição a adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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