segunda-feira, 22 de abril de 2019

É preciso voltar aos clássicos (Ensaio)




É preciso voltar aos clássicos

Os estudos humanistas são os meios fundamentais para emancipar o espírito da tirania da máquina e da brutalidade de quem as forja.

Quando falamos de um mundo novo, devemos assegurar-nos de que dispomos dos meios necessários para criá-lo. Na época atual falta, primordialmente, um claro e definitivo sentido da vida. Toda gente, à falta disto, segue as vistosas luminárias e se perde em ilusões; carece da escola de valores e torna seus os "ismos" amiudadamente absurdos.

É preciso disciplina mental que impulsione os homens a propor a si mesmos ideais e harmonias. E isto encontramos nas vidas e nos ensinamentos gregos.

Shelley disse: "Nunca, era período algum, se tem desenvolvido tanta energia, beleza e virtude; nunca foram a força cega e a forma tenaz tão disciplinados e submissos súditos da vontade dos homens ou menos repugnantes ao formoso e autêntico, como durante o século que precedeu a morte de Sócrates".

Quando lemos Platão e Aristóteles, nos impressionam com seus sentimentos de equilíbrio e de paz, com suas determinações de manter com eles uma vida normal e regulada. Os caracteres são analisados e se toma como ideal ao homem magnânimo. A qualidade de justiça é considerada por Platão, e é concebida uma comunidade ideal a fim de que possamos ver ali implantada a justiça. E, para Platão, o maior de todos os vícios é a mentira da alma, o estado em que a luz que há em todos nós se converte em obscuridade; e ele pensaria, agora, que este vício é penosamente evidente em nossos dias, entre pessoas que adoram as máquinas, a velocidade, o ruído, as sensações, não pelo bem que naturalmente derivam deles, mas porque enchem com eles o vácuo deixado pela falta de pensamento.

"Tu, meu amigo — dizia Sócrates — cidadão da grande, poderosa e sábia cidade de Atenas, não te envergonhas de acumular as maiores quantidades de dinheiro, honrarias, fama, e cuidares tão pouco da sabedoria e da verdade, — e do maior melhoramento de tua alma, que nunca foi considerada?

A Grécia nos dá uma grande cópia de sabedoria filosófica, e Roma exemplos práticos. O apuro dos gregos jamais foi ultrapassado por outro povo, antigo ou moderno, o político era o seu lado mais fraco, porque nunca puderam ir além da concepção da cidade-estado. Esta forma de política foi incapaz de resistir à Macedônia e, posteriormente, a Roma.

Foi Roma que teve a capacidade "regere império populos", e esta capacidade converteu em uma cidade o que antes era um mundo. Este gênio político foi, por certo, maravilhoso. Os romanos aprenderam a admitir inúmeras nações vizinhas, em sua comunidade, e no ano 200 da nossa era todos homens livres do império eram cidadãos romanos. Sua capacidade administrativa e seu gênio de realizações lhes permitiu governar a todos com prosperidade, como nunca o mundo havia sido governado. Sua civilização se adiantou, na Europa, durante o reinado da rainha Ana.

Por outro lado, nos aspectos intelectuais e espirituais, a Grécia estabeleceu um nível incalculável. Praticamente, toda a filosofia deriva de Platão e Aristóteles. Este último, foi o farol das idades sombrias e a medida que foi estudado com maior inteligência, sua reputação cresceu mais do que nunca. Platão, submergido na Idade Média, como a maior parte dos autores clássicos, tem sido, desde o Renascimento, o poço de sabedoria em que beberam todos os pensadores.

Hoje nós enfrentamos com uma ideologia espantosa, cujos ensinamentos colocam os homens sob o nível das bestas. As formas mais baixas da filosofia cirenaica eram elevadas e nobres comparadas com esta. Nada parecido foi imaginado por qualquer grego ou romano. Ao contrário, os estoicos e outros ensinaram que Deus é bom, que Deus governa o universo, que o homem sábio se aproxima de Deus e a ele se assemelha.

Muitas gerações honrarão ainda os gregos e os romanos pelas gloriosas poesias que produziram por mais de mil anos. Uma característica de muitos dos seus poetas é a majestade, quase austeridade. Homero, pertencente ainda à época primitiva, é um profeta e um cantor. Sua poesia está cheia de aforismos e de normas de moral. Em Ésquilo, Sófocles e Eurípedes são encontradas as mesmas atitudes, desde a maldade e a loucura. Também entre os romanos encontramos semelhantes características...

Por tudo isso, a volta aos clássicos talvez salve a humanidade.

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W.A. HIRST
Revista "Vamos Ler!", 28 de junho de 1945.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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