segunda-feira, 22 de abril de 2019

Lima Barreto, o biógrafo da alma carioca (Resenha)



Lima Barreto, o biógrafo da alma carioca

Naquele tempo eu trabalhava num jornal, era apenas revisor, e ainda não me interessava por literatura. Levava o meu tempo, quando não havia provas para corrigir, a olhar os tipógrafos juntar aquelas minúsculas letras, de uma a uma, numa agilidade incrível. José Barbosa, um rapaz baixinho e muito inteligente, era o mais ágil, não havia em toda Aracaju quem o igualasse. Distraía-me a olhar os movimentos dos seus dedos, no vai-e-vem infatigável, a formar nomes, linhas, períodos, colunas inteiras   do   jornal.  Simpatizamo-nos mutuamente,  aos  domingos  e  feriados, ele levava-me para à sede do clube de que era presidente, um clube suburbano, dono de uma história muito cômica. Na sede do clube havia uma estante cheia de livros,  posta  ali  para  encher  mais  um pouco a sala, por sinal um tanto vasta. Pertencia a um vizinho, o professor Santos Melo,  que por uma bela  partida  de futebol  abandonava os seus alunos nas situações  mais  críticas.  De  tudo  havia na estante.  Stevenson  já estava  para levar aos  mares do sul, em  companhia de Somerseth Maughan. Conheci a China misteriosa, entrei em contato com a gente da velha China, com Pearl Buck servindo-me de cicerone.

Conrad me fez amante do mar, fez-me encontrar-me com o seu vizinho, na estante, Dostoievski, o Dostoievski dos "Irmãos Karamazov", também do "Crime e Castigo" e do "Príncipe Idiota". Machado de Assis revelou-me um mundo diferente, apresentou-me personagens casadoiras, e já muito tarde, descobri Lima Barreto. Aquele Balzac mestiço, que Grieco afirmou ter escrito a "comédia suburbana", ensinou-me a amar a cidade do Rio de Janeiro. O Rio dos bondes de burro e dos boêmios ruidosos perdidos nas madrugadas frígidas, pelos becos engordurados. O Rio dos começos do século, que já não distante vai, parecia-me ali no salão de honra do clube que Barbosa era presidente. Admiravelmente fixado, em páginas vibrantes, nas quais estavam retratadas as figuras mais representativas. Lima Barreto, o romancista típico e apaixonado de uma época, dali por diante, iria exercer em mim  uma influência muito grande. Se há mesmo biógrafo de paisagem, e da alma de uma cidade, Lima Barreto foi o biógrafo da alma e da paisagem do Rio dos princípios do século. Sofrendo a injustiça dos preconceitos, o homem que traçava criaturas e enredos sempre tangíveis, levava uma vida amargurada, sob um destino impiedoso. As suas histórias são singulares depoimentos de uma chamada filosofia torturada. Escreveu a história de um idealista, Policarpo Quaresma. As memórias de Isaías Caminha, na qual encerra uma lição profunda da verdade acerca das perdições humanas. Morreu Lima Barreto dolorosamente decadente, esquecido. Hoje, os que se dão ao nome de evocadores de sua vida, de estudiosos de sua obra, só têm mesmo nos revelado um Lima Barreto mergulhado numa inveterada boemia, como um esbanjador de talento. Enfim, um Lima Barreto diferente do que eu, como sempre, imaginei na província, impecável, vivendo exclusivamente para moldar as suas histórias e os seus personagens.

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RAIMUNDO SOUZA DANTAS
Revista "Carioca", 9 de março de 1946.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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