sábado, 13 de abril de 2019

Em torno de Camilo (Ensaio)


Em torno de Camilo

Não havia motivo, muito menos na Europa, dada a época social em que viveu, para fazerem da existência, assaz dolorosa de Camilo Castelo Branco, um labirinto de enganos palpáveis e afirmações errôneas, incorrendo nestas, até certo dia, coisa inexplicável em relação à data justa de seu nascimento, o próprio escritor. Supunha, a princípio, ter vindo ao mundo em 1820, como também afirmou um dos muitos dissecadores de sua vida e obra, o qual incorreu ainda em outro erro, batizando o romancista português na Igreja do Loreto, quando em verdade, "procedendo a averiguações, foi possível encontrar o respectivo registro paroquial no cartório da freguesia dos Mártires". Quem fez tal afirmação foi Alberto Pimentel, biógrafo de Camilo, contemporâneo dele, cuja obra principal a respeito do lisboeta não passa de simples compilação de trechos autobiográficos, apanhados aqui e ali, sem o mínimo esforço dissecador e sem o menor desejo de fazer obra de grande utilidade.

Não se pode alegar que tais enganos na vida de Camilo sejam provenientes de ter o escritor levado uma vida modesta. Muito menos se pode alegar que, em vida, as suas produções não tenham chamado a atenção dos seus contemporâneos. Muito antes de sua morte, Camilo já era tido como mestre na língua portuguesa, o que entretanto não bastou para impedir o aparecimento de dúvidas em seu trajeto pela terra, entre os seres humanos. A primeira controvérsia quanto a Camilo surge pela confusão da data de seu nascimento (1825, o certo), depois a Igreja do Loreto, sobre a qual não resta dúvida: está fora de verdade haver sido o romancista português batizado na dita, conforme provas insofismáveis.

Com o professor Egas Moniz aparece outro ponto controverso na vida acidentada de Camilo, e é quando este aponta o lisboeta como presa de medonha aberração sexual e das mais monstruosas, a necrofilia, a mesma que Nero demonstrou quando tornou-se matricida e que também foi atribuída ao marquês de Sade. Essa afirmação não é para se levar muito em conta, pois, uma vez lido o próprio Camilo, naturalmente fazendo os descontos de uma possível autodefesa, não encontramos nele, isto é, quando nos fala na dissecação do cadáver da sua Maria do Adro, moça que amou quando jovem, o modo descritivo como o fazem os verdadeiros necrófilos, havendo ainda, para abonar-lhe os dizeres, o estado de doença em que ficou, por uma semana, após presenciar o espetáculo sombrio do desenterramento do esqueleto. As impressões que nos transmite do acabado corpo de sua Maria, não são impressões vigorosas de um degenerado, não deixam transparecer, nem de leve, as possibilidades de um gozo oculto profano. Não elogia nem deprecia coisa alguma... Descrevendo o corpo da moça, das partes tomadas como pudendas, cita apenas o seio, não lhe dedicando mais que oito ou dez palavras, modestas em si e sem qualquer demonstração de enfermidade sexual.

A autoria paterna de Bernardina Amélia Castelo Branco, contestou-a o segundo filho de Camilo, o qual negou fosse este o verdadeiro pai da menina. Isto, felizmente, tal como a sua prisão, foram pontos incapazes de merecerem, por muito tempo, os dissabores das opiniões contraditórias e bastou uma afirmação irrefutável para finalizar os mais tenros sintomas de engano.

Por duas vezes esteve preso Camilo Castelo Branco, ambas pelo mesmo motivo: o amor, e na mesma cadeia da Relação do Porto. Da primeira ocasião encarceraram-no por sete dias apenas, a ordem de um tio, o que entretanto deu margem para que "inimigos em letras" procurassem no episódio, ruga de ultraje para o nome grandioso do imortal lusitano. A verdadeira causa por que o prenderam fora esclarecida mais tarde, e no entanto, muitos dos seus contemporâneos, erroneamente, atribuíram à política o motivo desses rápidos dias de cárcere. Da segunda ocasião fora preso por crime de adultério, sofrendo entre as grades, um ano de desterro social, juntamente com a adúltera, com quem se casou, após enviuvada. É bom dizermos que dona Ana Plácido quando se casara com o seu primeiro marido, assim o fez obedecendo a ordens paterna. Aliás, este casamento foi à estilo dos venezianos de 1800 — sem consultar a vontade da nubente.

Da sua última prisão resultou para as letras portuguesas, num tempo exíguo de duas semanas, ou por outra, quinze dias, a confecção de "Amor de Perdição", romance inspirado em velhas recordações de infância, no infortúnio de fato mais ou menos realista.

Outro aspecto deveras interessante é ter sido Camilo, dos escritores portugueses de todos os tempos, o mais fecundo autobiografando-se a cada página e deixando em cada obra fortes e penetrantes resquícios de um realismo vivido por ele, na maioria das vezes e, em alguns casos, por amigos íntimos, ou por parentes, tal como sucedeu com o "Amor de Perdição", em que com certo entusiasmo (devido ao local onde escreveu o romance) retrata a felicidade amorosa de um tio.

A maioria das novelas camilianas são em si verdadeiras autobiografias. Cada romance, leve ou pesadamente, reproduz um trecho de sua vida e há um lance de sua existência dolorosa em cada obra que produziu. "Memórias do cárcere", "Duas horas de leitura", "Cancioneiro alegre", "Um homem de brio", "Amor de Perdição", todos são, ora com tintas mais fortes, ora com mansos sombreados, transcrições de pequenas ou grandes realidades, na forma concisa de fato sem repercussão ou no escândalo de acontecimento profundamente chocante, a aqui incluímos a intuição do suicídio e a época dramática da cegueira.

Também os livros de versos não escaparam ao comum e sonetos há pelos quais podemos avaliar a tremenda dor que vai abatendo o coração afetuoso e a inteligência fecunda e trabalhadora de Camilo Castelo Branco.       

Se fôramos falar da família do escritor lisboeta, diríamos, como é sabido, propensa a enfrentar os lances acerbos do infortúnio que parecia pesar sobre toda ela com a fatalidade das coisas passadas, foi uma família predestinada ao sofrimento e raros foram os seus membros que conseguiram fugir a esse terrível imperativo. O pai de Camilo, tal como o seu filho Jorge, enlouqueceu; e o avô, assassinaram-no; um tio morre no degredo; Nuno, o segundo filho, é desatinado. Somente da filha é que nada se pode dizer, por vários motivos, um dos quais é o ter vivido sempre afastada do resto da família camiliana. Afinal o próprio escritor se torna alvo da predestinação cruenta, sempre recaindo sobre os seus e, por não bastar-lhe a humilhação de frequentar o cárcere por duas vezes, sucumbido na tristeza de possuir filhos inúteis sem nada poder realizar que minorasse a pena destes, sofre ainda a amargura de uma cegueira incurável. Cegueira que o leva às portas de um completo desânimo, vendo diante de si a incapacidade da ciência e por trás o exemplo da maioria dos seus ascendentes.

À proporção que a mocidade desaparece e a velhice vem pronunciando sua presença, os dias de Camilo vão se tornando envoltos em profunda e dolorosa amargura. Ele começa a viver o drama da cegueira na profetização do fato e sofre a tragédia do suicídio na angústia de uma véspera muito esperada e no pressentimento da lancinante hecatombe a desabar sobre as ruínas materiais de si mesmo.

Infortunado desde criança, pela orfandade prematura, nada mais faltava ao luso para agravar-lhe as desilusões do mundo  que  a  ironia  de  uma  cegueira sem lenitivo. Na sua segunda prisão Camilo pressentiu, em alguns momentos, a ausência da vista e, com o correr o tempo, a inutilidade da ciência e a ineficácia dos remédios.

Não obstante haver recorrido a todos os meios e não obstante a dedicação da esposa. Agora transformada em enfermeira, e com o lar reduzido a hospital, os seus cruciantes padecimentos não encontram alívios físicos e a infelicidade dos filhos somada à desgraça paterna coloca o romancista escrevendo a sua própria novela, novela angustiosa e exacerbante que ele não pode finalizar senão rabiscando no parietal direito o prólogo lacônico de um projétil, após luta medonha entre a vontade abatida e a inteligência cansada.

Foi entre uma tentativa (em 1847) e o suicídio (em 1 de junho de 1890), que Camilo Castelo Branco, o mais fecundo escritor lusitano, conseguiu alçar-se como um dos vultos mais lúcidos no estudo psicológico de seu povo e um dos mais pródigos enriquecedores da língua portuguesa, a quem legou, a par de seu estilo, novos tesouros de vocabulário e de expressão.
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FERNANDO LEITE
Revista "Vamos ler!", 20 de julho de 1947.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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