quarta-feira, 24 de abril de 2019

O poeta Bruno Seabra (Resenha)


O poeta Bruno Seabra

Na poesia Bruno Seabra é o João de Deus paraense, o lírico por excelência de seu tempo, um verdadeiro poeta na significação nata desse nome.

Poucos o leem hoje; é mesmo quase desconhecido dos novos; no entanto, o talento é pujante e o seu livro "Flores e Frutos", digno de ser compulsado por todos aqueles que se interessam pelas belas letras.

Seus versos oscilam como os do lírico português, em ondulações suaves, ora cheios de humor, dirigidos às camponesas de sua terra, ora ao seu ideal de amor — com aquela singeleza ingênita, que rebenta das caudais de sua alma de lírico inspirado.

Nasceu Bruno Henriques de Almeida Seabra a bordo de um barco, em águas paraenses (Tatuoca), a 6 de outubro de 1837.

Estudou as primeiras letras e preparatórios em Belém, indo depois matricular-se na escola militar da capital da República.

Foi um trabalhador infatigável, escrevendo, quase que diariamente, folhetins, crônicas, poesias, etc., em vários jornais fluminenses.

Como funcionário público exerceu, com zelo e dedicação, cargos no Maranhão, na Bahia e no Rio de Janeiro, vindo finalmente a falecer em Salvador (Bahia), no ano de 1876.

Abaixo segue uma de suas belas poesias avulsas, verdadeira obra-prima do lirismo brasileiro:

MORENINHA

– Moreninha, dás-me um beijo
– E o que me dá, meu senhor
– Este cravo...
– Ora, esse cravo!
De que me serve uma flor?
Há tantas flores nos campos!
Hei de agora, meu senhor,
Dar-lhe um beijo por um cravo?
É barato; guarde a flor.

– Dá-me o beijo, moreninha,
Dou-te um corte de cambraia.
– Por um beijo tanto pano!
Compro de graça uma saia!
Olhe que perde na troca,
Como eu perdera com a flor;
Tanto pano por um beijo...
Sai-lhe caro, meu senhor.

– Anda cá... ouve um segredo...
– Ai, pois quer fiar-se em mim?
Deus o livre, eu falo muito,
Toda mulher é assim...
E um segredo... ora um segredo...
Pelos modos que lhe vejo
Quer o meu beijo de graça,
Um segredo por um beijo!?

– Quero dizer-te aos ouvidos
Que tu és uma rainha...
– Acha, pois? e o que tem isso?
Quer ser rei, por vida minha?

– Quem dera que tu quisesses...
– Não duvide, que o farei;
Meu senhor, case com ela,
A rainha o fará rei...

– Casar-me?... ainda sou tão moço...
– Como é criança esta ovelha!
Pois eu p'ra beijar crianças,
Adeusinho, já sou velha.

Encantadores versos líricos! Bruno Seabra era o poeta do coração; não se nota, nas suas poesias, uma que seja, cuja forma pareça fictícia e deficiente; o que ele escreveu é REAL porque SENTIU, perfeito porque saiu da alma.

O sentimento que as suas poesias exprimem é espontâneo pelo simples motivo de ser a linguagem pura do coração.

Pena é que no Pará o seu nome só em 1903 tivesse um pequeno eco, com o aparecimento de alguns exemplares de seu livro nas vitrinas das livrarias...


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J. EUSTÁQUIO DE AZEVEDO
"Antologia Amazônica: poetas paraenses", 1904.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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